Filhos podem ganhar mais peso quando pais rotulam eles como ‘gordinhos’

Marcel Hartmann - O Estado de S. Paulo

Estudo mostrou que imagem que os pais têm dos filhos pode contribuir para que as crianças engordem mesmo quando elas são magras

Pais muito ansiosos em relação ao peso dos filhos transmitem o sentimento para a criança, que se torna insegura. 

Pais muito ansiosos em relação ao peso dos filhos transmitem o sentimento para a criança, que se torna insegura.  Foto: Pixabay/Reprodução

Quando pais rotulam os filhos como acima do peso, a criança tem mais chances de, de fato, ganhar alguns quilos a mais. É o que mostra um estudo publicado neste mês no periódico Psychological Science, da Association for Psychological Science.

A pesquisa analisou dois grandes estudos - um na Austrália, feito com 2.823 crianças, e outro na Irlanda, feito com 5.886. A ideia de ambos era a mesma: medir e pesar as crianças enquanto elas eram pequenas e perguntar a seus pais como eles viam os pequenos: magros, normal, acima do peso ou muito acima do peso. Mais tarde, quando já eram adolescentes, os jovens indicavam como viam a si mesmos (magros, gordinhos, muito gordos?) e dizer se tinham tentado emagrecer nos últimos meses. 

O resultado chamou a atenção: quando os pais acreditavam que os filhos, ainda crianças, eram gordinhos, esses mesmos jovens, já na adolescência, estavam mais pesados em relação a quem não era visto com sobrepeso pelos pais. No estudo australiano, a diferença era, em média, de 4,43 kg. 

Os resultados foram os mesmos para garotos e garotas e independiam se a criança realmente tinha sobrepeso quando era pequena. Ou seja, mesmo crianças magras acabavam por ver o próprio corpo de forma negativa. Outros fatores como renda, doença ou peso dos pais não explicavam a situação, segundo a pesquisa. 

“O estudo chama a atenção a essa questão psicológica do entorno familiar e até mesmo da escola, porque a preocupação com o peso pode ter um efeito contrário”, avalia Rubens Feferbaum, presidente do departamento de Nutrição da Sociedade de Pediatria de São Paulo e professor de medicina da USP. “Não pode virar uma neura para a família e para a criança, de forma que ela desenvolva uma maior ansiedade”, afirma o médico. 

Neura engorda. Eric Robinson, professor do Instituto de Psicologia, Saúde e Sociedade da Universidade de Liverpool e um dos autores do estudo, avalia que uma possível explicação para isso é que os pais, ao ficarem preocupados com o peso das crianças, acabaram transmitindo a ansiedade aos pequenos, que crescem e incorporam o medo de engordar. E esse medo, em vez de ajudar, só atrapalha. 

“Se a forma de lidar com o sobrepeso é feita de forma inadequada, a criança pode ficar preocupada com o peso e adquirir um problema de alimentação, como comer mais”, afirmou o pesquisador ao E+. No próprio estudo, os pesquisadores falam do sofrimento enfrentado por quem está um quilinhos a mais acima do que gostaria. "Em uma sociedade que valoriza magreza e estigmatiza a gordura, dar-se conta de que você está acima do peso é estressante e psicologicamente assutador", dizem os autores. 

Eles também mencionam dietas restritivas que culminam em refeições hipercalóricas - o milk shake, o hambúrguer, a barra de chocolate inteira que são devorados e seguidos de uma culpa desoladora. 

“Não queremos que crianças fiquem fixadas com seu peso. Em geral, encorajamos elas a ter comportamentos saudáveis, como exercitar-se ou comer de forma saudável, para evitar a obesidade infantil”, complementa. 

Em última instância, os jovens veem a si mesmos como os pais os veem, explica Adriane Xavier Arteche, professora de cognição humana na pós-graduação em psicologia da PUCRS. “A expectativa dos pais tem interferência direta no comportamento dos filhos e pode denegrir a autoimagem da criança”. 

Ao ficarem incomodadas, explica a psicóloga, as crianças podem fazer de tudo para emagrecer - em métodos nem sempre válidos, como pular refeições, privar-se de comida ou trocar o almoço pela sobremesa (afinal, elas não têm tanta consciência sobre os males do açúcar como os adultos). 

A preocupação com o excesso de peso pode levar as crianças a, justamente, comerem errado. 

A preocupação com o excesso de peso pode levar as crianças a, justamente, comerem errado.  Foto: Pixabay/Reprodução

Só comportamento não basta. A forma como a família lida com o sobrepeso infantil influencia, sim o peso da criança. Mas só isso não é suficiente. Fatores como má-alimentação em casa, falta de atividade física, predisposição genética, grande ganho de peso durante a gestação, não aleitamento materno e parto por cesárea também podem aumentar as chances de a criança ter, futuramente, sobrepeso, alerta o pediatra Mauro Fisberg, membro do departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria. 

“A obesidade é uma doença bastante complexa e depende de múltiplos fatores. A imagem que os pais têm dos filhos pode influenciá-los a ficarem mais ansiosos, mas só isso não leva à obesidade”, ressalta. No entanto, a ansiedade pode levar a criança a colocar a comida em um altar de paz e segurança. “Ela pode comer mais porque se sente protegida pelo alimento até desencadear uma forma de defesa para que tenha, na alimentação, um porto seguro”, avalia.

Como lidar com o sobrepeso do meu filho? Associar peso à feiúra é a pior coisa a ser feita, explica Adriane Xavier Arteche, professora da pós em psicologia da PUCRS. “Não se deve falar do sobrepeso como algo negativo para a autoimagem da criança. Nem dizer que ser gordo é feio”, ressalta. Em vez disso, vale ressaltar os benefícios de boas opções: explique, por exemplo, que arroz integral faz bem para o corpo e que açúcar não é tão bom. 

E nada de obsessão. Colocar o assunto em pauta o tempo todo, também, é uma escolha ruim. “Se você lembra com frequência a criança de seu sobrepeso, ela assume isso como uma identidade. E, quando vira nossa identidade, é muito difícil de mudar”, explica Adriane. 

Para além da correta escolha de palavras, vale a máxima: os pais são o exemplo. “Eles precisam ter uma alimentação saudável para dar o exemplo à criança”, diz a psicóloga.