Entenda o que é a Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono

Maria Eduarda Chagas - O Estado de S.Paulo

Segundo pesquisa do Instituto do Sono, publicada em 2010, 32,8% da população adulta da capital paulista tem a doença

Primeiro, vem o ronco, depois o sono fica cada vez mais fragmentado. O cansaço da noite mal dormida se acumula ao longo dos dias, até que, de repente, a pessoa pode acordar no meio da noite e perceber que parou de respirar. Esses são sintomas de Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS), doença que acomete quase um terço da população adulta da cidade de São Paulo, segundo estudo do Instituto do Sono, feito em conjunto com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em 2007. A pesquisa, divulgada em 2010, considerou 1.101 moradores, com idades entre 20 e 80 anos.

A síndrome se caracteriza pelo fato de a pessoa precisar fazer esforço para respirar durante o sono. “Por algum motivo, o ar não está passando direito pela garganta da pessoa, seja pelo tipo de configuração da garganta ou pelo relaxamento do músculo”, explica Michel Cahali, coordenador do setor de Medicina do Sono da Clínica Otorrinolaringológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Homens têm predisposição maior de desenvolver a doença antes dos 50 anos

Homens têm predisposição maior de desenvolver a doença antes dos 50 anos Foto: Pixabay

Rosa Hasan, neurologista especialista em distúrbios do sono do laboratório Alta Excelência Diagnóstica, acrescenta que é normal o músculo ficar mais relaxado durante o sono, o problema é quando isso atrapalha de alguma forma a respiração.

Idade é fator de risco. Com o passar do tempo, é normal que os músculos envelheçam também, o que contribui para o desenvolvimento da síndrome. “Chega um ponto, que quase todo mundo tem apneia em algum grau”, afirma Rosa. De acordo com os especialistas, o problema se agrava quando há sobrepeso, já que há uma maior compressão dos músculos da garganta.

Além disso, homens têm maior predisposição de desenvolver a doença. A incidência do problema em homens e mulheres só fica igual a partir dos 60 anos de idade, depois que as mulheres passam pela menopausa. Ainda assim, segundo Michel, os homens, em geral, demoram mais para procurar um diagnóstico. “Para a mulher, roncar é mais incômodo, por isso, elas tendem a procurar o médico mais cedo”, diz.                            

De acordo com o especialista, a maioria das pessoas procura o médico por volta dos 40 ou 50 anos. “Em geral, muitos pacientes já começaram a ter o ronco a partir dos 20, 25 anos”, diz. Para o diagnóstico de SAOS, é importante que a pessoa faça um exame chamado Polisonografia, em que a qualidade do sono e a respiração são monitorados por meio de eletrodos ao longo da noite.

A SAOS pode ser verificada em crianças, mas é menos frequente. Em geral, nos pequenos, a causa da doença é algum tipo de deformação anatômica. “Crianças com o problema, em geral, tem amídalas muito grandes ou adenoides grandes, e não respiram direito nem de dia nem de noite”, afirma Cahali. A solução nesses casos é intervenção cirúrgica.

Síndrome pode trazer problemas cardiovasculares. O cansaço não é a única consequência da Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono. A doença, muito raramente, pode levar à morte durante o sono. “A apneia termina de dois jeitos, ou a pessoa morre ou acorda e, imediatamente, volta a dormir”, explica Cahali. Felizmente, os casos de sufocamento por apneia são raros, já que o mecanismo de defesa cerebral funciona bem.

O problema é que cada falha respiratória durante o sono bagunça o sistema cardiovascular. “Em cada apneia, há uma variação grande da pressão arterial. Isso libera substâncias que causam inflamação e vai ficando mais difícil tratar a pressão alta”, diz Cahali.

Com o tempo, podem surgir outras consequências cardiovasculares, como enfarte e acidente vascular cerebral (AVC). Por isso, segundo o médico, é importante tratar a doença.

Aparelho, cirurgia e placa dentária são soluções. Não há um medicamento específico para que o ar continue entrando facilmente durante o sono. Os tratamentos, então, variam. Comumente, a opção mais viável é um aparelho, chamado CPAP, que empurra o ar para dentro. “O problema é que a pessoa tem que dormir a noite inteira com o aparelho. Muita gente não consegue se adaptar e acaba retirando a máscara durante a noite”, diz Cahali.

CPAP, aparelho que auxilia a respirar durante o sono, custa de R$ 1 mil a R$ 4 mil

CPAP, aparelho que auxilia a respirar durante o sono, custa de R$ 1 mil a R$ 4 mil Foto: Michael Symonds / Creative Commons

                         

Casos mais leves da doença podem ser resolvidos com uma placa dentária, mas o especialista alerta que é preciso fazer um acompanhamento periódico com o dentista. “Por causa da força exercida nos dentes, de manhã, muita gente pode sentir uma sensibilidade, os dentes podem ir se entortando”, afirma.

Outra solução são cirurgias. Além da retirada das amídalas, o médico recomenda a Faringoplastia Lateral, técnica que consiste em mudar a posição do palato (popularmente conhecido como céu da boca) na faringe. Há ainda cirurgias no osso do rosto. Segundo Cahali, a técnica é indicada para quem tem queixas estéticas, porque há uma mudança no rosto da pessoa.

Pesquisas. Atualmente, o Instituto do Sono repete os exames das pessoas que participaram da pesquisa anterior, de 2007. “A ideia é fazer um acompanhamento epidemiológico, ver se a doença progrediu, se alguém tratou”, explica Lia Bittencourt, diretora clínica do Instituto do Sono.

Além disso, em abril de 2016, São Paulo recebe a sétima edição do International Symposium Surgery Sleep e Breathing . Esta será a primeira vez que o seminário internacional sobre cirurgia do sono será realizado na América Latina. O seminário é promovido pela Fundação Otorrinolaringologia e pela International Surgical Sleep Society.