Desidratação: riscos e mitos

Jane E. Brody - The New York Times

A água é, de longe, a substância mais importante que consumimos; podemos sobreviver quase dois meses sem comida, mas morremos em sete dias sem água

Verdade seja dita: não sigo os conselhos que dou e, quando sofro as consequências, aí redescubro por que os ofereci. Há tempos recomendo que se beba muita água, talvez um copo ou dois a cada refeição e mais um copo ou dois entre elas. Se não água pura, o que é melhor, então pelo menos café ou chá sem açúcar (não vale bebida alcoólica, nem refrigerante), que também funcionam.

Jantei fora outro dia, após um dia mais ativo que de costume, que incluiu 8 km de caminhada, 40 minutos de nado e a visita a um museu que durou 1h30. Bebi só meio copo de água e não tomei nada com a refeição.

Achei estranho não precisar ir ao banheiro depois, nem mesmo ao chegar em casa, depois de um longo percurso, mas a verdade é que só prestei atenção nesse fato no dia seguinte quando, após uma noite de sono agitado, acordei exausta, mas fiz outra longa caminhada, nadei e fiz 6,5 km de bicicleta para chegar ao local onde tinha um compromisso. Cheguei com a boca seca, desesperada para tomar alguma coisa. Depois de matar a sede, me senti outra pessoa e não mais um balão de chumbo.

Parece que o meu problema foi uma desidratação leve e a experiência me fez examinar mais a fundo as necessidades de água do corpo humano de acordo com várias circunstâncias.

Embora milhões de norte-americanos carreguem garrafinhas para lá e para cá e empresas como a Coca e a Pepsi tenham que acreditar que a vida de todos pode ficar melhor com as bebidas que vendem, a verdade é que a desidratação grave não é comum entre pessoas saudáveis. Entretanto, há exceções, e elas incluem pessoas mais velhas como eu, atletas que participam de eventos extremamente desgastantes como maratonas, e bebês e crianças com diarreia aguda.

Vamos começar com alguns fatos: a água é, de longe, a substância mais importante que consumimos. Você consegue sobreviver quase dois meses sem comida, mas morre em sete dias sem água. Ela corresponde a 75% do peso de uma criança pequena e 55% do de uma pessoa mais velha.

As células humanas simplesmente não funcionam sem água e o corpo humano desenvolveu um sistema complexo e bem azeitado para garantir a quantidade do líquido necessária sob uma série de condições. Na maioria dos casos, a sede é um sinal infalível de que o organismo precisa de mais água. Uma das principais funções dos rins é eliminá-la em quantidade suficiente para manter as células adequadamente hidratadas. Entretanto, ao contrário do que se acredita, uma urina mais escura não significa necessariamente que você esteja desidratado; afinal, a cor do xixi é alterada por alimentos como aspargo, groselha e beterraba.

Outro mito popular: para hidratar a pele, evitar rugas e manter uma compleição radiante, é preciso beber oito copos por dia. Consumir mais água não melhora a pele de quem já está bem hidratado; melhor usar um bom hidratante para evitar o ressecamento.

A boa hidratação certamente protege contra pedras nos rins e há provas de que evite a constipação e a asma induzida por exercícios. Também ajuda a evitar doenças vasculares, como AVCs, taquicardia e queda súbita na pressão arterial, além de ser especialmente importante para os diabéticos.

"Apesar da importância vital da substância, há relativamente poucos estudos bons sobre o volume adequado, quem deve consumi-lo e sob quais circunstâncias", constata Barry M. Popkin, professor de Nutrição da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill. "Não compreendemos a fundo como a hidratação afeta a saúde e o bem-estar, nem mesmo o impacto do consumo nas doenças crônicas", ele e um grupo de colegas escreveram na Nutrition Reviews.

"Praticamente toda a verba para as pesquisas sobre água são fornecidas pelo próprio setor", prossegue ele, referindo-se às empresas que vendem todos os tipos de bebidas, inclusive água mineral. "E a maioria é especificamente relativa a um determinado órgão, feita por gente que estuda os rins ou os pulmões, por exemplo. O sistema integral do organismo ainda não foi estudado a fundo."

Não há diretrizes formais sobre a quantidade de água diária que a pessoa deve ingerir; esse volume é afetado pelo que a pessoa come, seu peso, nível de atividade física e até o ambiente em que vive.

O Instituto de Medicina, que divulga recomendações sobre as quantidades de nutrientes de que necessitamos, afirma que a "ingestão adequada" varia de 700 mililitros/dia para recém-nascidos a 3,8 litros para lactantes. Mesmo assim, a instituição conclui que "o indivíduo pode estar hidratado a níveis inferiores e/ou superiores aos das recomendações fornecidas".

Além disso, também esclarece que todos os tipos de líquidos contribuem com a necessidade total de cada pessoa, incluindo bebidas como chá, café, sucos e refrigerantes e aquela contida em alimentos como frutas, verduras, sopas e até carnes. De fato, a instituição estima que o volume de água na comida corresponda a até vinte por cento da média do consumo típico.

Entretanto, mesmo incluindo sucos e refrigerantes como fontes de hidratação, essas opções se tornaram um sério problema nutricional nas últimas décadas pelo excesso de açúcar que contêm. Popkin e seus colegas afirmam que praticamente todo o aumento no consumo de líquidos nos Estados Unidos - de 2,3 litros/dia, em 1989, a quase 3 litros em 2002, vem de escolhas calóricas. E os estudos mostram que aqueles que ingerem essas calorias extras não tentam compensar consumindo menos nos alimentos, o que contribuiu, e muito, para o engrossamento da cintura do norte-americano.

Certamente é importante que os atletas bebam muita água, especialmente quando praticarem níveis altos de atividade física que, combinada com o calor e a umidade, resulte em suor excessivo. Porém, o excesso de hidratação também apresenta riscos: já houve casos de maratonistas e outros esportistas morrerem depois de consumirem mais água que os rins podiam processar adequadamente, levando ao inchaço das células a níveis perigosamente baixos de sódio e outros eletrólitos na corrente sanguínea.

Por outro lado, a hidratação inadequada pode ter efeitos debilitantes. Segundo os estudos de Lawrence B. Armstrong e seus colegas do Laboratório de Desempenho Humano da Universidade de Connecticut, a desidratação afeta a atenção, a concentração, o tempo de reação, o aprendizado, a memória, o humor e o raciocínio, além de causar dores de cabeça, fadiga e ansiedade.

Os adultos mais velhos, principalmente os da terceira idade, estão entre os grupos de maior risco de falta de hidratação. O mecanismo da sede vai se tornando cada vez menos eficaz com o tempo e muitos idosos reduzem o volume de água que consomem para limitar as idas ao banheiro.

"Há um problema muito grande com os idosos porque eles caem no meio da noite e fraturam ossos quando se levantam para ir ao banheiro. Muitos nem bebem água porque têm medo das quedas, mas o que acontece é que acabam morrendo em consequência dos efeitos da desidratação", conclui Popkin.