Conheça o Transtorno Dissociativo de Identidade, a doença do protagonista do filme ‘Fragmentado’

Marcel Hartmann - O Estado de S. Paulo

Antigamente conhecido como ‘Transtorno de Dupla Personalidade’, o TDI não é bem como retratado no filme

James McAvoy vive Kevin, um homem com pelo menos 23 identidades

James McAvoy vive Kevin, um homem com pelo menos 23 identidades Foto: Universal Pictures

Kevin (James McAvoy) é um homem com pelo menos 23 personalidades. Após sequestrar três adolescentes no estacionamento de um shopping, ele as mantém em cárcere privado em um porão de um subsolo. As personalidades fazem uma espécie de “rodízio” para tomar controle dele - algumas se associam em “gangue” e interagem, de forma amigável ou não, com as jovens. 

Essa é a premissa do filme Fragmentado, do diretor, roteirista e produtor indiano M. Night Shyamalan - o mesmo responsável por Corpo Fechado, Sexto Sentido, A Vila e Sinais. A história que está nos cinemas retrata - com liberdade poética - o Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI), conhecido por muitos como “dupla personalidade” (o nome não é mais usado atualmente, até porque podem ser mais de duas). 

“A ideia básica é que a pessoa passa por um trauma forte, muitas vezes na infância, de cunho sexual, físico ou psíquico. A partir daí, fragilizada, ela desenvolve uma defesa na qual cria uma personagem dela mesma”, explica Renato Antunes, professor de Psiquiatria e Psicologia Médica da Universidade de Brasília (UnB) e psiquiatra do Hospital Universitário de Brasília. É o que ocorre com Kevin, que cresceu com uma mãe rígida e agressiva e criou identidades para se refugiar da realidade complicada. 

No filme, Kevin incorpora, pelo menos, uma criança inocente, uma senhora com interesse em cultura hindu, um homossexual estilista e um adulto agressivo. De fato, pessoas com TDI têm identidades muito diferentes uma da outra. “Elas têm um jeito de pensar, sentir e se relacionar muito específico, personalidades diferentes e até sexo e sexualidade opostos”, diz Erlei Sassi Júnior, psiquiatra coordenador do Ambulatório Integrado de Transtornos de Personalidade e Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. 

Não há regra, mas há casos em que as identidades sabem da existência das outras. “É como se fossem vizinhos morando no mesmo condomínio. Alguns podem não gostar dos outros e formar ‘gangues’ entre si, mas cada um tem características próprias”, diz Júnior. “Há relatos de uma identidade que fala mal da outra. Ela pode ter certa aversão à outra, achar que é fraca e mau caráter, e isso é verbalizado às vezes”, acrescenta. 

Entre os sintomas mais comuns, além do aparecimento de outras versões de si mesmo, são desmaios, pseudoconvulsão e, o mais comum, a amnésia - o indivíduo simplesmente esquece de suas ações no período em que o alter ego tomou o controle. É uma forma que a mente cria para proteger o ego (a parte da nossa mente ligada a razão e senso comuns) do mundo que, no passado, o machucou.

Exagero. Mas, como você pode imaginar, Shyamalan exagerou alguns aspectos da doença em Fragmentado. Não é como se pessoas com TDI fossem assassinas - e nenhuma identidade tem superpoderes, é claro. O que os relatos descritos na literatura apontam são pacientes cujas identidades adquirem sotaques diferentes ou falam apenas um idioma, desenvolvem asma, passam a necessitar de óculos de grau, desenvolvem maior ou menor sensibilidade à dor, adquirem outras idades, entre outros. 

Um caso famoso descrito na literatura remete ao século XVIII, quando aristocratas da França fugiram para Stuttgart, na Alemanha, no começo da Revolução Francesa. Uma jovem alemã de 20 anos ficou impressionada com a visão e passou a criar uma personalidade que imitava os modos de uma francesa, falando francês fluentemente e alemão com sotaque. Ao trocar para a personalidade alemã, a mulher não se lembrava de nada.

Entre o oito e o 80. Mas a questão é que você e Kevin têm, na verdade, mais em comum do que parece. Na verdade, todos nós temos várias identidades dentro de nós e as apresentamos, em situações variadas, ao mundo - em um momento somos filhos, em outros pais. Em alguns, chefes e, em outros, subordinados. Às vezes temos pensamentos bons e, em outros momentos, pensamentos ruins. Não há preto ou branco na nossa mente. Só que, apesar da variação, mantemos tudo dentro de um só alter ego. Já portadores de TDI, não - eles dividem as nuances em outras versões de si mesmo.

“Somos o que lembramos de nós mesmos. Nossas vivências nos fazem agregar uma série de informações dentro de uma caixa - e esta caixa é quem nós somos. Quem tem TDI fragmenta essa caixa de memórias em várias caixinhas”, explica de forma didática Antunes, do Hospital Universitário de Brasília. “Ao fazer isso, ela passa a ter outras identidades, cada uma com uma história de vida”, afirma. 

No filme, Kevin tem algumas versões perigosas de si mesmo - o suficiente para sequestrar três adolescentes. É um retrato, um pouco forçado, de pacientes que criam identidades mais agressivas para se sentirem preparadas para novos perigos. “Algumas pessoas desenvolvem isso para estarem prontas para lidarem com o mundo de forma diferente àquela que lidaram quando sofreram o abuso”, elucida Antunes, professor de psiquiatria da UnB.

Incidência e tratamento. A verdade é que a doença é extremamente rara. O E+ consultou três especialistas que trabalham em grandes hospitais brasileiros, mas nenhum tinha um relato de paciente com TDI. 

“Estudiosos têm uma ideia de que essa doença tem uma tendência cultural nos Estados Unidos. No Brasil, praticamente não se encontra. É um fenômeno estudado na psiquiatria transcultural”, diz o psiquiatra Erlei Sassi Júnior, do Hospital das Clínicas de São Paulo, enquanto faz referência ao ramo da psiquiatria que estuda como alguns transtornos psíquicos se manifestam de forma distinta em culturas diferentes. 

Além disso, o transtorno dissociativo de identidade também tem um diagnóstico bastante difícil. “Pela incidência ser muito baixa e não ser comum, ele não adquire grande importância nem aparece em grandes estudos, como é o caso da bipolaridade ou do transtorno do pânico”, diz Ricardo Riyoiti Uchida, psiquiatra na Santa Casa de São Paulo.

O tratamento, ele explica, envolve psicoterapia e o uso de remédios para controlar outros transtornos psiquiátricos que possam existir ao lado. “Com a psicoterapia, a ideia é você diminuir o número de crises e de entradas para outras personalidades”, diz Uchida, que também é professor da graduação e pós-graduação da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.