Conheça alguns fatores que influenciam - ou não - a fertilidade de mulheres e homens

Ludimila Honorato - O Estado de S.Paulo

Enquanto alimentos considerados afrodisíacos não interferem na capacidade de reprodução, hábitos alimentares podem afetar os hormônios reprodutivos

Embora a fertilidade masculina seja mais duradoura, eles não estão totalmente isentos do problema com o avanço da idade.

Embora a fertilidade masculina seja mais duradoura, eles não estão totalmente isentos do problema com o avanço da idade. Foto: Pixabay

Problemas de fertilidade podem ser frustrantes para homens e mulheres que desejam ter filhos. Mas até que um diagnóstico seja feito, muitas afirmações rondam o imaginário popular sobre o que pode, de fato, influenciar a capacidade de reprodução.

O E+ conversou com urologista Silvio Pires e com o ginecologista Joji Ueno, especialista em reprodução assistida, para esclarecer o que é mito e o que é verdade sobre a fertilidade feminina e masculina.

Hábitos alimentares. Segundo os especialistas, uma alimentação equilibrada não atrapalha a fertilidade, mas os excessos sim. Tanto pessoas obesas quanto aquelas que estão muito abaixo do peso podem enfrentar dificuldades.

O ginecologista Joji Ueno explica que a gordura ajuda a metabolizar os hormônios femininos e, quando tem mais do que o normal, causa disfunções hormonais. “Acaba tendo excesso de estrogênio (hormônio feminino) que se transforma em testosterona (hormônio masculino), o que causa problemas de ovulação”, diz.

Nos homens, parte da produção de testosterona é feita pelo tecido adiposo. A gordura retida diminui a taxa desse hormônio, o que afeta diretamente a quantidade e qualidade dos espermatozóides. Assim, os gametas têm sua capacidade de fecundação reduzida, explica o urologista Silvio Pires.

Sobre os alimentos considerados afrodisíacos, não há influência alguma na fertilidade. “Eles podem estimular a sexualidade, mas não há estudos que comprovem alteração na fertilidade”, diz Pires.

Atividades físicas. O excesso de exercícios físicos e a adoção de uma dieta pobre em gorduras podem provocar amenorréia nas mulheres, ou seja, ausência total de menstruação. “Não tem produção hormonal para formar o endométrio, e o corpo interpreta que ela está poupando energia para gastar em outra atividade”, explica Ueno. Segundo ele, a menstruação é uma forma de perder energia. Assim, a ovulação também pode ser interrompida.

O urologista Silvio Pires pondera que, mesmo que a pessoa faça exercícios todos os dias, de forma controlada, não há problemas com a fertilidade. “Dos ultramaratonistas, são poucos que podem sofrer alterações. Como o esforço é intenso, os nutrientes e a oxigenação são deslocados para outras partes do corpo que não aquelas responsáveis pela reprodução, mas não há estudos nesse sentido que comprovem”, diz.

Anabolizantes. Entre os aficcionados por academia ou aqueles que querem ter um corpo mais do que escultural, o uso de anabolizantes é prejudicial para a fertilidade. Geralmente, as pessoas ingerem ou aplicam por injeção testosterona sintética.

“Isso afeta o metabolismo, que para de funcionar e diminui a produção de gametas, porque o corpo entende que não precisa mais produzir testosterona naturalmente”, diz o urologista. A longo prazo, o consumo frequente pode deixar o homem infértil definitivamente.

Nas mulheres, o mecanismo é basicamente o mesmo. “Quando a mulher toma o hormônio masculino, aumenta todo o efeito que daria em um homem”, afirma o ginecologista. Dessa forma, o excesso de testosterona bloqueia a ação dos hormônios femininos responsáveis pela ovulação.

Idade. É sabido que as mulheres têm mais dificuldade para engravidar conforme ficam mais velhas, porque os hormônios reprodutivos param de ser produzidos. Elas até continuam férteis, mas a chance de gravidez é menor. Nos homens, a fertilidade pode ser mais duradoura, mas eles não estão totalmente isentos do problema.

“Com o envelhecimento, a qualidade e quantidade dos espermatozóides diminuem, mas alguns homens com taxas elevadas dos gametas conseguem preservar a fertilidade”, diz o urologista. Além disso, como os espermatozóides são produzidos diariamente, a renovação faz com que eles tenham sempre bom desempenho de locomoção.

Álcool e cigarro. O ginecologista Joji Ueno diz que esses hábitos podem perturbar a ovulação, mas o caso é mais grave no início da gestação, principalmente quando a mulher ainda não sabe que está grávida. “Quem quer engravidar deve evitá-los, porque pode resultar em aborto”, diz.

Como o cigarro altera a vascularização, o urologista diz que pode interferir nos órgãos terminais, como os testículos, mas as complicações são secundárias, não diretas. Quanto ao álcool, a substância tem ação direta no fígado, também responsável pelo metabolismo da testosterona. “O homem pode sofrer diminuição do hormônio masculino e ter disfunção sexual”, afirma.

Radioterapia e quimioterapia. Com esses tratamentos, as células reprodutivas sofrem alterações genéticas, afetando diretamente a fertilidade de homens e mulheres. Quando algum câncer é identificado, os especialistas orientam que os pacientes que ainda pretendem ter filhos façam o congelamento dos gametas antes de iniciar o tratamento.

Questões femininas. A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) não impede a mulher de engravidar. O problema, segundo o ginecologista Joji Ueno, é quando a ovulação deixa de existir, o que implica, consequentemente, na infertilidade.

Abortos, quando ocorrem naturalmente, não atrapalham futuras gestações. Porém, se forem frequentes, a mulher pode sofrer de alguma má formação uterina e deve procurar o especialista. Além disso, uma curetagem mal feita, que é o procedimento para retirada dos restos do embrião, pode causar danos no útero e impedir uma nova gravidez.

A pílula anticoncepcional também não interfere na fertilidade da mulher, mas também não preserva os óvulos pelo fato de ela não menstruar. Mesmo tomando o comprimido, o ginecologista diz que a mulher perde até mil óvulos por mês.

Por conta de todas as dificuldades que podem implicar na fertilidade feminina, a mulher pode fazer um exame que avalia a reserva ovariana, ou seja, a quantidade de óvulos que ela tem. Dependendo do resultado, ela pode optar por congelar os gametas, mesmo não tendo problemas e caso queira engravidar mais futuramente.