Conheça a embolização, procedimento moderno para tratamento de mioma

Pedro Prata* - O Estado de S.Paulo

Procedimento devolve a qualidade de vida para as mulheres acometidas

O mioma é um problema que atinge metade das mulheres em idade fértil

O mioma é um problema que atinge metade das mulheres em idade fértil Foto: Pixabay/ @deborabalves

O mioma uterino é um tumor benigno que, segundo estimativas médicas, afeta 50% das mulheres em algum momento de sua vida fértil. O fato de ser um tumor, e de sua ocorrência ser grande, pode assustar de início, mas não se preocupe: desse percentual, apenas metade deverá passar por algum procedimento de remoção. O E+ conversou com mulheres que já passaram por essa situação e com especialistas para saber quais são as formas de tratamento.

A maioria descobre que tem mioma após passar por exames de rotina, pois em muitos casos eles não apresentam sintoma e não interferem na qualidade de vida da pessoa. Foi o caso da bióloga Izilda Gameiro, que já passou por duas cirurgias de retirada de mioma. “Descobrimos o mioma através de exame de rotina e por conta de sangramento mais acentuado na menstruação”. Ela considera que o fato de manter seus exames de rotina em dia foi fundamental para descobrir o mioma precocemente.

Bárbara Murayama, ginecologista e coordenadora da Clínica da Mulher do Hospital 9 de Julho, explica que geralmente são os miomas pequenos e sem sintomas que são descobertos por exames de rotina e que não precisam ser retirados, apenas acompanhados. Por outro lado, “devem ser tratados quando causam sintomas como sangramento, dor, infertilidade, compressão de órgãos vizinhos pelo tamanho ou localização, dificuldades para engravidar e devem ser analisados com cautela”, explica.

Caroline Bueno, analista de logística, começou a menstruar com intensidade acima do seu normal. O ginecologista lhe sugeriu tomar pílula anticoncepcional sem cessar. Porém, como não surtiu efeito, o médico iniciou um tratamento que incluía injeções no umbigo. “Enquanto fazia esse tratamento estava tudo bem, mas depois de dois meses voltei a menstruar muito forte. Então ele pediu ultrassom e exame de sangue hormonal”, conta Caroline. Mesmo após os dois exames, ela diz que o problema não foi detectado. Somente com um terceiro exame, intrauterino, que o ginecologista lhe informou que ela estava com alguns miomas no útero. Ela agora está com cirurgia agendada e aguarda para remoção dos tumores.

Henrique Elkis, radiologista intervencionista do Hospital São Luiz Morumbi e sócio titular da Sociedade Brasileira de Radiologia Intervencionista e Cirurgia Endovascular (SOBRICE), explica que o tratamento clínico à base de hormônios ou anticoncepcionais pode ser uma alternativa boa para mulheres que não pensam em engravidar a curto e médio prazo, porque melhora a qualidade de vida das pacientes ao anular os sintomas do mioma. “Eu não considero isso como um tratamento porque ele não trata a doença, apenas melhora os sintomas. Quando a mulher para o tratamento, os sintomas costumam voltar até com mais força”, opina.

A retirada dos miomas que Caroline agora espera é uma das formas de tratamento que, vale lembrar, são recomendadas apenas quando os sintomas atrapalham a vida da mulher. Pode ser feita tanto por cirurgia aberta, através de corte na região da barriga, quanto por videolaparoscopia, que é feita com a ajuda de uma câmera inserida na cavidade pélvica. O radiologista intervencionista Henrique Elkis diz que a recuperação após a miomectomia leva em torno de 20 dias e a considera um bom procedimento se feita por mãos capacitadas.

No entanto, ele afirma que há possibilidade de retirada do útero por complicações na cirurgia. “Na miomectomia, o útero sangra bastante. E o ginecologista, às vezes, fica sem opção se há muita perda de sangue e acaba tirando o órgão para preservar a vida da paciente. Isso não é comum, mas há a possibilidade de acontecer, e claro que a paciente tem que saber que essa possibilidade existe”. Ele ressalta que essa consequência não é comum de acontecer.

No entanto, médico e paciente podem decidir pela retirada do útero como tratamento para o mioma. A doutora Bárbara Murayama explica que a remoção do útero, procedimento conhecido como histerectomia, depende de fatores como a idade da paciente, desejo de manter a fertilidade, se já tem filhos ou não, tamanho dos tumores, quantidade de tumores, localização dos tumores no útero, intensidade dos sintomas e risco de malignidade. “Somente após a avaliação de todos esses fatores é que médico e paciente decidem juntos qual o melhor tratamento”, resume.

A assistente administrativa Lúcia Bechara conta que optou por remover o útero por conta de sua idade: “Eu estava tendo hemorragias fortes e, pela idade, achei desnecessário manter o útero. Inicialmente o médico queria retirar somente o mioma, mas um dia antes da cirurgia pedi que retirassem o útero”.

O doutor Henrique Elkis é totalmente contrário à retirada do útero para tratamento de mioma. Além do equilíbrio hormonal e de manter a capacidade de engravidar, ele acredita que o útero é importante para o sentido de feminilidade e, como o mioma não oferece riscos à paciente, deve ser mantido: “A histerectomia era a única opção há 20 anos. Hoje em dia há outros procedimentos mais modernos que fazem com que ela não se justifique mais.”

Existe um outro tipo de tratamento que se aplica às mesmas pacientes da miomectomia e que é menos invasivo e possibilita recuperação muito mais rápida. É a embolização, feita por um radiologista intervencionista. Ela usa apenas anestesia local e não precisa de pontos, pois não são feitos cortes.

Henrique Elkis conta como é esse procedimento: “Pega-se uma artéria da virilha e com cateteres acha-se as artérias que estão irrigando o mioma e as entope. Quando isso é feito, o mioma simplesmente morre, diminui de tamanho, sua atividade zera e os sintomas que incomodavam acabam desaparecendo”. O médico ainda diz que o período de internação é de apenas um dia e que de três a quatro dias após o procedimento, a mulher já pode voltar a trabalhar.

A economista Claudia Barbosa teve seus primeiros miomas há 15 anos. De lá para cá, já foi submetida a três cirurgias e tratamentos hormonais mas os miomas insistiam em voltar. Quando sua ginecologista sugeriu, no ano passado, a retirada do útero, ela decidiu buscar novos tratamentos na internet. Foi assim que conheceu a embolização.

“Depois de tentar os procedimentos convencionais, encontrei a embolização que preservou meu útero e me deu maior qualidade de vida”, conta. Ela passou por todos os tratamentos, exceto a remoção do útero. “É um processo rápido e que demonstrou ser eficaz no meu caso”. Ela relata que entrou em uma quarta-feira no hospital, na sexta-feira foi para casa e na segunda-feira seguinte já voltou ao trabalhar normalmente.

O médico Henrique Elkis explica que a chance de gravidez após embolização permanece entre 30% e 40%, o mesmo observado por pacientes que passam pela miomectomia. Ele afirma que essa técnica já é bem conhecida no Brasil entre a comunidade médica e é praticada há mais ou menos 20 anos. No entanto, poucas mulheres a conhecem. Dentre as sete mulheres com quem o E+ conversou, somente duas tiveram contato com a opção da embolização. Ela é mais um passo da medicina na tentativa de oferecer qualidade de vida para as pessoas e reduzir os riscos de seus procedimentos.

*Estagiário sob supervisão de Charlise Morais