Conheça a distimia, um tipo mais leve da depressão

Ludimila Honorato - O Estado de S.Paulo

Os sintomas são os mesmos da depressão maior, porém mais brandos e com longa duração de tempo

Diferente de quem tem depressão, o distímico continua a realizar as atividades do dia, mas com qualidade rebaixada.

Diferente de quem tem depressão, o distímico continua a realizar as atividades do dia, mas com qualidade rebaixada. Foto: Pixabay

Você tem se percebido mais pessimista, melancólico ou impaciente? Sente que é necessário um esforço muito grande para fazer as atividades do dia a dia e fica irritado com facilidade?

Se esses sintomas estão se prologando por meses ou anos, talvez seja um sinal de distimia, um tipo de depressão leve e crônica que pode desencadear um transtorno maior.

Mas calma que 'crônico' não significa grave. O termo vem de 'cronologia' e é utilizado porque a doença se prolonga por mais tempo, cerca de dois anos.

"Ela começa com sintomas típicos da depressão, porém mais leves, de longa duração e bem demarcados, ou seja, a pessoa consegue definir quando está bem e quando não está", explica o psiquiatra Ricardo Alberto Moreno, coordenador do Programa de Transtornos Afetivos (Gruda) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Embora os sintomas de tristeza, melancolia, falta de apetite ou de vontade de realizar atividades possam aparecer de vez em quando, é a duração e a frequência deles que vai determinar a distimia. Uma pessoa distímica pode passar dois ou três dias por esses momentos e depois melhorar, mas voltar a senti-los em poucos dias.

Antônio Geraldo da Silva, diretor tesoureiro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e presidente eleito da Associação Psiquiátrica da América Latina, diz que a distimia é uma doença que pode acometer qualquer pessoa em qualquer fase da vida. "Doenças psiquiátricas ocorrem porque o cérebro adoece. Isso tem uma característica genética e em algum momento da vida esse quadro pode aparecer", afirma.

O estresse também é um fator de risco para episódios de depressão, mas não estamos falando do estresse cotidiano causado pelo trânsito, trabalho ou contas a pagar. "É o estresse que causa um impacto muito grande na pessoa e, geralmente, ela não tem capacidade para absorvê-lo", alerta Moreno. O especialista aponta que todos sofrem com estresse, mas muitos conseguem suportar e são poucos os que deprimem por conta dele: apenas 18%.

Crianças e pré-adolescentes que tiveram experiências traumáticas também têm maior vulnerabilidade para depressão, que pode iniciar com a distimia. Desde essa fase da vida, é preciso estar atento para evitar o estresse tóxico em crianças, conforme mostramos aqui.

Distimia versus depressão. Enquanto a depressão, sobre a qual ouvimos falar com frequência, afasta as pessoas do convívio social e do trabalho, pacientes distímicos seguem uma vida quase normal. "A pessoa continua trabalhando, produzindo, estudando, mas com qualidade de vida rebaixada, sente tristeza, desânimo e desinteresse", explica Silva.

A distimia também é conhecida como a doença do mau humor, uma vez que a fácil irritabilidade é um dos sintomas. "A pessoa é tida como sistemática, fechada, séria e cheia de manias. Isso pode ser confundido com a maneira de ser e acabam normalizando algo que não é normal, é doença", alerta o especialista da ABP. Por achar que faz parte da personalidade, a maior parte das pessoas com esse transtorno não busca tratamento.

Mas é preciso atenção à doença, uma vez que a distimia pode levar à depressão maior. "A maioria dos pacientes, com o tempo, apresenta episódios depressivos mais graves com todos os sintomas característicos. Talvez 90% dos casos evoluem para esses episódios", diz o psiquiatra da USP.

Como identificar a distimia? Além dos sintomas leves de depressão que duram muito tempo, os distímicos vão somando pequenas perdas que, ao longo do tempo, se tornam muitas. Pode ser nos relacionamentos, sofrimentos ou excesso de trabalho. É preciso verificar se esse acúmulo ocorre e como a pessoa lida com ele.

Outra dica é quantificar os estágios de ânimo, disposição e humor. Contar quantos dias você está bem ou mal, alegre ou triste é importante para saber se esses sintomas são naturais ou se estão se prolongando mais do que o normal.

Se a insatisfação, impaciência, melancolia e pessimismo começarem a se repetir e durar por semanas, meses ou anos é bom procurar ajuda. A distimia tem cura, e o tratamento é feito com antidepressivos e psicoterapia.

Os especialistas afirmam que os antidepressivos não causam dependência, desde que sejam prescritos por profissionais capacitados, pois há protocolo de dose e tempo a ser seguido.

A fim de promover uma qualidade de vida melhor e proteger a saúde mental, os especialistas dão algumas dicas que você confere na galeria abaixo: