Com a volta às aulas, pais devem ficar atentos ao que os filhos levam na lancheira

Zé Enrico Teixeira - O Estado de S.Paulo

Obesidade infantil afeta um terço das crianças do País; problema pode estar no consumo excessivo de produtos industrializados

Com a volta às aulas, os pais devem ficar atentos com aquilo que as crianças consomem nos lanches na escola

Com a volta às aulas, os pais devem ficar atentos com aquilo que as crianças consomem nos lanches na escola Foto: Divulgação

De acordo com dados do Ministério da Saúde, uma em cada três crianças no Brasil está acima do peso. Apesar de não estar restrito apenas a isso, uma alimentação saudável é um dos fatores mais importantes na manutenção do nosso peso e saúde, ainda mais quando pensamos em crianças. As férias escolares são geralmente vistas como um período de maior liberdade, onde abusos estão permitidos. "O ideal é mesmo nas férias manter uma alimentação saudável.  Uma opção é escolher apenas um dia da semana para comer guloseimas e, mesmo assim, sem grandes excessos", explica Lívia Nogueira, nutricionista da rede Oba Hortifruti.

Porém, em determinado momento as férias acabam, as aulas voltam e com elas uma nova preocupação dos pais: a lancheira. Cada vez mais, as crianças consomem alimentos industrializados como bolachas recheadas, salgadinhos, refrigerantes e doces - produtos cheios de açúcares e gorduras - o que contribue muito para os dados mostrados acima. Por isso, pais e responsáveis devem dar muita atenção àquilo que as crianças comem na escola, quando estão longe do seu olhar. Uma lancheira saudável e completa deve ser constitúida por itens dos três grupos alimentares: construtores (as proteínas, como queijos, iogurtes, leite, frango); reguladores (frutas e verduras); e os energéticos (os carboidratos em pães, bolos e biscoitos). Uma opção básica de combinação seria, por exemplo, uma fruta, como pêra ou maçã, um pedaço de bolo caseiro, e um queijo processado.

Uma dica é deixar a criança participar da formulação do cardápio. "Ela (a criança) escolhendo o que vai comer aschances de dar certo são grandes", afirma Lenycia Neri, nutricionista do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da USP)."Importante é o processo de educação nutricional no dia a dia, não só no momento da lancheira. Assim, o momento da escola será somente um a mais para o consumo de alimentos saudáveis", continua ela.

Uma das maiores preocupações dos pais quando se trata de alimentos saudáveis é a perda dos nutrientes de frutas e sucos, e nesses casos uma grande aliada entra em cena: a lancheira térmica. "Após picadas, as frutas perdem parte das vitaminas, mas não tudo", explica Lígia. "Para melhor preservar as vitaminas e minerais também deve-se acondicionar as frutas em lancheiras térmicas".  

"Esta perda de nutrientes é gradativa e depende de vários fatores: quanto mais tempo exposto à luz, oxigênio etc, maior é a perda. Portanto, quanto antes consumir, melhor", diz Lenycia. O ideial, explica a nutricionista, é sempre preparar a fruta ou o suco o mais próximo possível do seu consumo, mas quando não for viável, mais uma vez, a lancheira e a garrafinha térmica ajudam a manter os nutrientes.

Outro problema que sempre acontece é o da fruta oxidar e escurecer do momento em que ela é preparada até o consumo pela criança. "Uma boa saída é espremer limão ou laranja nas frutas, o ácido vai inativar a enzima que causa o escurecimento da fruta". Outra dica de Lenycia é optar pelas frutas que não oxidam, como mexericas, caquis, uvas, melancia, ou outras tantas mais resistentes a esse processo do que as tradicionais maçã e pêra. "Tem muitas opções de frutas que duram um tempo maior sem oxidar: manga, kiwi, mamão, melão, uva e morango", enfatiza Lígia.

O suco de laranja é outro ponto "polêmico". Apesar de ser o mais popular, muito se fala sobre a perda de vitamina C pouco tempo depois do preparo do suco. Mais uma vez, os compartimentos térmicos entram em cena ajudando a preservar esse componente. Sendo assim, também é possível optar pelos sucos de maracujá, abacaxi, goiaba. Os sucos a base de polpa que podem ser congelados e o descongelamento acontece até o momento do consumo pela criança, o que mantem a bebida mais fresca.

Além da questão do cardápio, outro aspecto que pesa muito para os pais é a praticidade no preparo da lancheira. Afinal, muitos são aqueles com pouco tempo, o que acaba por fazê-los apelar para os alimentos industrilizados. Contudo, ainda é possível se manter prático e saudavel. "Uma dica interessante é padronizar o cardápio. Por exemplo: segunda é bolo com leite e achocolatado, toda terça é pão integral com queijo branco e uma fruta da época, e assim por diante", aconselha Lenycia. Ela ainda enfatiza, mais uma vez, a necessidade da participação da criança nesse processo de escolha dos lanches, para, assim, facilitar o processo de aceitação.

Também vale ficar atento ao que é servido na escola, se informar dos horários das refeições, além de ficar atento se seu filho não está trocando o lanche com os coleguinhas. "Muitas vezes os pais praparam a lancheira mais saudável do mundo, mas eles (os filhos) trocam com os amigos que levam salgadinhos e não adianta nada no final", enfatiza a nutricionista do Instituto da Criança.

Mas não é apenas na hora do lanche na escola que os hábitos saudáveis devem se fazer presentes. E, mais importante do que apenas montar a lancheira do seu filho, o bom exemplo dos pais é essencial para que a criança entenda a importancia de uma alimentação equilibrada. "Os pais devem apresentar bons hábitos de alimentação para que a criança veja como exemplo", esclarece Lígia. "A alimentação saudável não deve ser apenas na hora da lancheira, e sim em todo o dia a dia da criança". 

A isso Lenycia faz coro: "Importante é o processo de educação nutricional no dia a dia, não só no momento da lancheira. É importante incentivar o consumo de frutas nos momentos que se está com a criança, dar exemplo, ter disponibilidades destes alimentos em casa, incentivar nos finais de semana..."

A obesidade já é considerada uma epidemia no Brasil, e as chances de uma criança acima do peso continuar assim pelo resto da vida são muito grandes, e mesmo quando isso não acontece e a situação de obesidade é revertida, os quilos extras na infância pode levar ao desenvolvimento de males como diabetes, hipertensão e colesterol alto. Por isso é muito importante que desde cedo crie-se uma rotina saudável para os pequenos, com a prática regular de atividades físicas e principalmente uma alimentação balanceada.

Peso extra. Outra questão que faz parte do âmbito escolar dos mais novos com reflexos na sua vida e que tem começado a preocupar as autoridades é o excesso de peso nas mochilas das crianças em fase de desenvolvimento. A Associação Brasileira de Reabilitação da Coluna (ABRC) estima que entre 60% a 70% dos problemas de coluna na fase adulta são causadas por sobrecarga de peso e esforço repetitivo durante a infância e a adolescência. "O excesso de peso pode gerar lesões musculares e articulares, atingindo até mesmo pés, joelhos e quadris, assim como ombros e pescoço", alerta Helder Montenegro, presidente da ABRC e do Instituto de Tratamento da Coluna Vertebral (ITC).

O excesso de peso que crianças e adolescentes carregam diariamente pode ter reflexos em problemas de coluna durante a vida adulta

O excesso de peso que crianças e adolescentes carregam diariamente pode ter reflexos em problemas de coluna durante a vida adulta Foto: Bo/ Creative Commons

Com isso em mente, um Projeto de Lei da Câmara (PLC) de 2012 e aprovado pelo Senado no fim do ano seguint propõe um peso limite para ser carregado nas mochilas: 15% do peso da criança. Ou seja, para uma criança de 50kg, o máximo que ela poderia transportar seria 7,5kg. No início de cada ano, os alunos enformariam à escola o quanto estão pesando, para assim ser estipulado o peso da sua mochila. O projeto de lei voltou à Câmara dos Deputados devido a um aperfeiçoamento: a inclusão de um artigo que obriga a instalação de armários nas escolas. A expectativa é que a norma entre em vigor ainda esse ano.