Cabelos brancos e rugas? Adote-os

Gina Barreca - The Hartford Courant

As linhas no meu rosto são, de certa maneira, a capa do meu livro e por isto estou feliz em deixá-las à mostra

Que tal começar a achar que o mundo deve se ajustar a nós e não construir nossa imagem de modo a que ela se adapte ao mundo?

Que tal começar a achar que o mundo deve se ajustar a nós e não construir nossa imagem de modo a que ela se adapte ao mundo? Foto: Pixabay

"Tenho 59 anos de idade e peso 69 quilos". É deste modo que inicio todas as palestras, porque assim as mulheres na plateia ficam sabendo diretamente em vez de tentar adivinhar minha idade e meu peso.

É o que habitualmente ocorre: "ela é mais jovem ou mais velha do que eu? Usamos o mesmo tamanho de roupa? É o que se perguntam."

É sério! Mulheres que jamais vi antes perguntarão o tamanho de roupa que uso nas sessões de perguntas e respostas depois de um debate relativo, digamos, ao futuro das ciências humanas ou se a educação mista é benéfica para as meninas do ensino médio. E levarão a conversa para o problema da autoestima. 

Mulheres inteligentes, eruditas, sofisticadas indagam diretamente: "que tamanho de roupa você usa? E eu digo a verdade: na Armani meu tamanho é 46 e na Dot's Dress Barn é o G.

O problema é este: as mulheres têm sido levadas a acreditar que existe por aí um bando de supermulheres que fazem tudo perfeitamente. E nenhuma mulher se encaixa nessa imagem porque ela não é real. É um holograma. Ou talvez seja Gwyneth Paltrow; difícil saber a diferença. 

Mas quando não nos encaixamos nesta imagem, acreditamos que há alguma coisa errada conosco. Que tal começar a achar que o mundo deve se ajustar a nós e não construir nossa imagem de modo a que ela se adapte ao mundo? Afinal a arquitetura da feminilidade convencional da maneira como foi projetada e padronizada não teve em mente um ser humano real.

Por exemplo, eu me recuso a gastar dinheiro em produtos chamados "anti-idade". Eu quero ter idade. O oposto de envelhecer não é permanecer jovem. A opção não é esta. O oposto de envelhecer é a morte. E para isto você não precisa de cremes para o pescoço.

As rugas são sua autobiografia. Como escritora, escrevo linhas em minha página; como coautores da minha existência, destino e natureza escrevem suas linhas no meu rosto. Cada linha em meu rosto foi conquistada e nesta altura da vida, apesar de todos os defeitos que vejo cada vez que olho no espelho, não os trocaria por nada. Do mesmo modo que não mudaria por nada a minha caligrafia, minha imaginação ou minhas memórias, também não mudaria meu rosto para ficar mais na moda ou com aparência mais juvenil.

As linhas no meu rosto são, de certa maneira, a capa do meu livro e por isto estou feliz em deixá-las à mostra.

Fico também animada com meu cabelo à medida que surgem os fios brancos. É decorativo. Quando vivi na Inglaterra nos anos 1980, premeditadamente branqueei partes do meu cabelo como se já estivesse me preparando para o look atual. Quando minhas alunas dizem, "mal posso esperar para meu cabelo ficar como o seu!", respondo a elas: "há poucas coisas que posso prometer na vida, mas esta é uma delas".

Em raras ocasiões sou alvo de comentários nada sutis vindos das policiais do corpo e da idade, algumas me perguntando: "não vai pintar seu cabelo?". Eu respondo dizendo a elas que não estou tentando emagrecer - que meu plano para o próximo verão é ter um corpo bronzeado ainda maior, e as vejo rubras explicando que não se trata de emagrecer, mas pintar meu cabelo. Desconcertar esse pessoal é o que gosto de fazer, mais do que assistir a um evento esportivo.

E se você está interessada em experimentar algum produto caro que promete deixar seu rosto igual ao de uma adolescente, lembre que quem vende o produto está pensando mais na comissão e não no seu rosto. 

Posso escrever uma curta mensagem para você deixar guardada na bolsa: "isto não tem nada ver com rugas e tudo a ver com os resultados finais da empresa".

Beleza real é ser capaz de rir e fazer os outros rirem, não de nós próprios, mas das coisas absurdas da vida que nos dizem que devemos experimentar. 

Tradução de Terezinha Martino