A fome e as dietas pobres

Perri Klass - O Estado de S.Paulo

Quando se trata de legumes e verduras, o consumo de homens e mulheres de todas as idades é significativamente menor que o recomendado

Ah, o apetite do rapaz adolescente. Aqueles garotos em fase de crescimento, sempre famintos, que comem de pé, bebem toda a embalagem de leite ou suco e são capazes de "bater" uma lasanha inteira, a panela do refogado ou a carne assada que seria o jantar da família apenas como "lanchinho". Eu mesmo passo por isso: tenho em casa um que recebe os pais, chegando do trabalho, com a geladeira vazia, a pia cheia de pratos e a inevitável pergunta: "O que tem para o jantar?".

Em janeiro, quando as Novas Diretrizes Dietéticas saíram, eles foram especificamente mencionados em um contexto um tanto quanto inesperado: "Alguns indivíduos, especialmente rapazes e homens adultos, também precisam reduzir a ingestão geral de alimentos proteicos diminuindo o consumo de carnes, frango e ovos e aumentando as porções de legumes e verduras ou outros grupos alimentícios menos consumidos".

Será que os adolescentes estão comendo muita proteína? O que realmente sabemos sobre os hábitos alimentares deles, além das piadas tradicionais?

Será que os adolescentes estão comendo muita proteína? 

Será que os adolescentes estão comendo muita proteína?  Foto: Anna Verdina/ Creative Commons

Elsie Taveras, diretora de Pediatria do Massachusetts General Hospital for Children, é especialista em obesidade infantil. "As forças que trabalham contra a qualidade de uma boa dieta começam com o famoso apetite deles. Estão sempre com uma fome que não é saciada com porções pequenas; com isso, vem a comilança impulsiva, e em grandes quantidades. Só que as opções também não fazem com que se sintam fartos, pois raramente envolvem alimentos com alto teor de fibras, que é o que dá a sensação de saciedade."

O novo guia alimentar inclui gráficos do que as pessoas de diferentes faixas etárias consomem, baseado nos dados da National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES), além de mostrar como esse volume se compara aos valores recomendados em termos de grupos alimentícios e idade - e que ninguém se surpreenda ao saber que, quando se trata de legumes e verduras, o consumo de homens e mulheres de todas as idades é significativamente menor que o recomendado.

Em termos de proteína, a história é bem diferente: entre os homens, o consumo aumenta consistentemente da faixa etária de 9 a 13 anos até 31 a 50, ou seja, quando alcançam o fim da adolescência e o início da maturidade, estão comendo muito mais proteína do que deveriam. As mulheres, por outro lado, comem porções próximas do mínimo recomendado diariamente, com as garotas entre 14 e 18 anos revelando consumir menos do que deveriam.

Meninos famintos têm um apetite voraz e, no geral, não se contentam com salada

Meninos famintos têm um apetite voraz e, no geral, não se contentam com salada Foto: Geronimo De Francesco/ Creative Commons

"Há poucas pesquisas voltadas só para os meninos. Sabemos que, na puberdade, eles adquirem mais massa muscular e as meninas acabam acumulando mais gordura. Durante o período de crescimento, que é mais longo que o das garotas, o apetite deles é tremendo", explica Alison Field, especialista em obesidade e transtorno alimentares que também é diretora de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade Brown.

Esses famintos têm um apetite voraz e, no geral, não se contentam com salada. O conselho nutricional básico para eles é comer mais legumes e verduras na esperança de que consumam menos carne. "O que está implícito nessa recomendação é que os meninos deveriam consumir mais calorias de legumes e verduras e menos das carnes para equilibrar melhor a ingestão de nutrientes", escreveu Marion Nestle, professora de Nutrição, Estudos Alimentares e Saúde Pública da Universidade de Nova York, em um e-mail.

Sabemos muita coisa a respeito dos hábitos alimentares das garotas adolescentes por causa da grande preocupação com a obesidade e os transtornos alimentares; muitas, se não a maioria, das jovens tentam emagrecer, precisando ou não. Embora menos frequentes, os distúrbios também ocorrem entre os rapazes, mesmo que eles se preocupem mais em desenvolver músculos, principalmente se praticam algum esporte como o futebol americano, onde tamanho é documento. "Eles querem ficar grandes, aumentar de tamanho", reitera Alison Field.

"Nós subestimamos a importância que o peso e a forma física têm para os homens", prossegue ela, sugerindo que as fotos retocadas de modelos e atletas na imprensa prometem resultados rápidos. "Eles, assim como elas, são muito influenciáveis por essas imagens."

A proteína extra contida nos suplementos que muitos garotos compram, na esperança de inchar os músculos, pode ser inútil. "O corpo só consegue armazenar um volume 'x'. Se você continuar a consumir, só vai conseguir calorias, tipo açúcares e gorduras", revela Jerel Calzo, professor assistente de Pediatria da Faculdade de Medicina de Harvard e psicólogo de desenvolvimento que estuda transtornos alimentares em meninos adolescentes. Pior que isso, os suplementos não são regulamentados como deveriam e quase sempre são alvo de propaganda enganosa.

Na pior das hipóteses, podem danificar os rins, especialmente se a pessoa ficar desidratada; assim, aqueles que os consomem têm mais razões para ingerir uma quantidade maior de líquidos - o que dá margem a outro tipo de problema, pois a maioria das bebidas esportivas, voltadas principalmente para rapazes com ambições atléticas, inclui açúcar refinado e calorias vazias. "Fazemos questão de frisar que os jovens não necessitam desse tipo de bebida. Água é mais que suficiente", ensina Elsie.

Embora uma parte dos adolescentes se mostre muito preocupada com o corpo, há também aqueles que comem muito a adolescência toda sem fazer uma relação mais precisa entre quaisquer aspectos de dieta e saúde.

O apetite desenfreado do garoto adolescente, as ambições atléticas e o desejo de desenvolver músculos, combinados com um marketing forte e direcionado, também contribuem para uma dieta pobre. "Para mim, a proteína, sozinha, não significa nada. Não se pode falar de um grupo alimentício isolado", atesta Marion Nestle.

A recomendação mais importante para os meninos e homens jovens é uma variante da base já conhecida do relatório como um todo: consumir mais verduras e legumes e substituir a 'junk food' por opções mais saudáveis, menos processadas. Ah, aproveitando a deixa, cuidado com as proteínas em pó. Definitivamente, não é desse excesso que vocês necessitam.