Hoje meu convidado é o Psiquiatra Nikolas F. Heine que aborda o mal do século – a depressão.

– Cê viu o Jurandir? Pegou depressão!

– Mentira! Justo ele?! Coitado. Ele era tão alegre, tão cheio de vida…

– Rapaz, seu Jurandir foi moço esbelto, e aprendeu a envelhecer. Fazia seu exercício todo dia. Jogava o bilhar com os colegas e não negava uma cervejinha na padaria. Passava aqui na portaria do prédio todo santo dia bem de manhãzinha, pronto para sua caminhada no parque. Fazia uma brincadeira qualquer com o Timão, perguntava da minha filha e de minha mulher… Dava até gosto de ver. Mas teve um dia que ele nunca mais passou.

– Não foi depois do que aconteceu com a filha dele?

– Não sei!  Só sei que vinha só para pegar o jornal. Vinha reclamando e voltava xingando. E depois nem mais o jornal pegava.

Quando, com pena, eu ia lá entregar os atrasados, mal cumprimentava. Só dizia um silêncio que me cortava o coração.  Deixou de ser o Seu Jurandir.

– Está igualzinho ao Clementino do 33.

 

Depressão vem do latim. De+Primere, ou “para fora”+ apertar”. Deformar-se frente a alguma “pressão” da vida.  Sugestivamente a palavra nos dá o essencial: ceder a uma força externa a nós e que nos deforma e debilita. E, por fim, nos abate.

 

“Manto de ferro” foi a descrição mais acertada dos pais da Psiquiatria. Um corpo pesado, a falta de vontade e tristeza. E como escapar desse “mal-estar” contemporâneo, ou também conhecido como o Mal do Século?

 

No causo do Seu Jurandir percebemos o desmoronar contínuo de si. Deixou de ser Seu Jurandir ao deixar cada uma das atividades que o faziam ser o Seu Jurandir: a “corrida”, o despertar cedo, o interesse em futebol, a brincadeira com o Timão, a preocupação com a família do narrador, as amizades, o Jornal, o bilhar, e até a  “cervejinha”. Ele deixa de ser Seu Jurandir e passa a assemelhar-se com outro que sofre do mesmo mal. Ha infinitas formas de ser saudável, mas poucas de ser patológico.

 

A saúde é conhecida pela pluralidade e flexibilidade, mas também pela incessante procura do bem-estar e da saúde. Não tem receita de bolo, mas o contato humano e o “cuidar de si” sem dúvida são temperos essenciais.

 

Leitura, amizades, música, hobby, atividade física, viagens e, quem sabe, aprender algo novo são formas de preservarmos essa flexibilidade psíquica e enriquecermos a vida mental. De cuidarmos desse “Seu Jurandir” que temos dentro de nós. Tudo isso nos faz viver mais e melhor.