A crise econômica que atinge o País e o bolso de milhares de pessoas chegou também às academias de ginástica e aos consultórios de nutricionistas. Mas como continuar cuidando da saúde sem comprometer ainda mais o orçamento? Pedimos a dois renomados profissionais da área de educação física, Marquinhos Lins, de Recife, e Paulo Gentil, de Brasília, dicas para não descuidar da malhação e da alimentação, apesar dos tempos bicudos.

Boa leitura e até a próxima semana!

 

1) Em tempos de crise, a maioria precisa fazer ajustes.Uma das primeiras coisas sujeitas a corte é o personal, o nutricionista. É possível malhar direito e comer bem sem a ajuda desses profissionais?

Marquinhos Lins: Exercício físico e alimentação são assuntos sérios. Muitas pessoas negligenciam esses serviços em busca de economia ou, por falta de orientação adequada, costumam seguir blogs, programas de TV e dicas de pessoas sem a qualificação adequada. Isso é muito perigoso. Os exercícios devem ser prescritos de forma individualizada, de acordo com as necessidades, objetivos, características físicas e limitações de cada indivíduo. Somente o profissional de Educação Física está capacitado para isso. As pessoas precisam entender que a afirmação “qualquer coisa é melhor que nada” não se encaixa na nossa área. Exercícios mal orientados podem sem ineficientes e também trazer grandes prejuízos à saúde. Da mesma forma, deve ser tratada a prescrição de uma dieta, seja ela para fins estéticos ou apenas para adotar um estilo de vida mais saudável. A todo instante pessoas optam por retirar componentes da alimentação sem a real necessidade, como é o caso do glúten e da lactose. Fazer dieta por conta própria pode levar a um estado de carência nutricional e gerar frustração em quem não conseguem atingir os objetivos, aumentando o número de desistências dos hábitos saudáveis. Em meio a crise é preciso adaptar. Para exercícios físicos existem bons profissionais no mercado que trabalham com assessoria esportiva e fazem consultoria online e presencial. Porém, é importante lembrar que esse tipo de modalidade, na qual o profissional prescreve um treino à distância ou vai até a academia que o aluno frequenta para ensinar como fazer, precisa de muitas informações, uma boa avaliação física que contenha o máximo de informações possíveis, para que essa prescrição saia bem direcionada aos objetivos e em certos casos uma avaliação médica. Não existe “receita de bolo”. Um bom profissional vai saber adequar isso. É importante frisar que existe muita gente se passando por professor, praticantes e atletas que acham que conhecimento prático pode sobressair ao conteúdo teórico científico. Já na nutrição não é possível realizar esse tipo de consultoria. Os órgãos que regem a prática nutricional não autorizam a prescrição de dietas online. É preciso marcar uma consulta. Cortar o nutricionista pode ser uma faca de dois gumes, não que seja impossível viver sem uma dieta prescrita,. A ideia não é ser dependente eternamente. O nutricionista deve orientar e fazer o seu cliente aprender a ter bons hábitos e seguir sozinho. Se não há a possibilidade de continuar pagando pelo serviço é necessário uma conversa para adequar a situação. Apesar de estarmos vivendo esse turbilhão de informações nas redes sociais, vemos uma crescente busca por alimentos mais naturais, menos industrializados e isso gera muitas dúvidas, portanto antes de sair por aí seguindo A ou B, converse com seu nutricionista.

Paulo Gentil: É possível sim. No entanto, eu acredito que deva se fazer uma análise adequada do que realmente está se cortando. Por exemplo, um personal trainer certamente requer um investimento mais elevado pois te acompanhará diversas vezes na semana. Uma solução para a prescrição adequada dos treinos é procurar uma academia que tenha um bom acompanhamento, pois você poderá bons resultados sem precisar contratar um personal trainer. Para quem não quer ir às academias, eu recomendo buscar os serviços de consultoria, pois o profissional poderá te acompanhar periodicamente e você seguirá o programa em sua casa ou mesmo em espaços públicos. O nutricionista não tem custo elevado, pois será consultado uma vez a cada vários meses, o que diluí o custo. Além disso, lembro de uma análise feita pelo Felipe Nassau da “Alimente”, em que a economia gerada pela escolha adequada dos alimentos acaba sendo muito maior do que o preço da consulta de um bom profissional. Portanto, no final das contas, se estará gastando menos dinheiro e não mais. Agora é importante destacar que isso deve ser feito com acompanhamento adequado de pessoas formadas e registradas em seus Conselhos (CREF e CRN).

2) Para quem opta por malhar sozinho, quais as dicas para não se machucar?

Marquinhos: Seguir um programa de exercício requer atenção, disciplina e respeito ao tempo de descanso. Na medida certa, o exercício promove várias alterações fisiológicas e psicológicas que melhoram a nossa qualidade de vida. Porém, treinar demais não é sinônimo de mais resultado. É preciso recuperar a musculatura e descansar as articulações para receber os benefícios de uma vida saudável.

Paulo: É muito difícil dar dicas genéricas sobre algo tão complexo. Mas eu diria que evitar o exagero seria uma observação bastante útil. A pressa costuma levar ao excesso de treino, com treinos muito longos e repetidos com muita frequência. Além disso, não gera os resultados esperados, leva a um desgaste excessivo das articulações e expõe o praticantes a vários riscos.

3) Correr na rua pode ser uma solução? E em relação à musculação, o que fazer?

Marquinhos: Correr na rua, sem orientação, não é um bom negócio. Pode trazer efeitos negativos como qualquer exercício. Então, se a pessoa gosta de praticar corrida, é preciso estar apta para tal atividade. Não é só colocar um tênis e sair correndo por aí. A musculação é possível fazer sozinho, porém, devem ser seguidas orientações de um profissional. O mercado está cheio de espaços “low cost”, onde não existe acompanhamento do treino. Algumas fazem apenas o primeiro contato, prescrevem de forma genérica, utilizam treinos pré-montados e se esquivam da responsabilidade de orientar a execução dos movimentos. Entretanto, temos muitas academias com profissionais sérios e bem capacitados para desenvolver um programa e acompanhar seus alunos durante todo tempo. Existem locais públicos com bons profissionais, o que não pode haver é exercício por conta própria.

Paulo: Hoje existe a possibilidade de fazer treinamentos resistidos em sua própria casa ou em espaços públicos. Existem prefeituras ou mesmo iniciativas comunitárias em que profissionais de Educação Física estão à disposição dos praticantes. Musculação é um termo genérico que usamos para definir o treinamento resistido, que é a prática de exercícios contra uma resistência externa. Por mais que em nossa mente essa resistência seja fornecida por equipamentos específicos, ela também pode vir de elástico, objetos da sua casa ou mesmo o próprio peso do seu corpo! Mas, novamente, não sigam as maluquices de pessoas sem formação, pois há quem faça orientações aleatórias e prescreva exercícios perigosos, tanto que há casos de acidentes graves, inclusive levando à tetraplegia, com exercícios indicados por pessoas não formadas.

4) Para comer bem é preciso gastar muito?

Marquinhos: Não. Comer bem pode sair muito mais barato. A grande procura por alimentos saudáveis e suplementos geram a oferta de produtos caros, muito comuns nas dietas da moda. Mas, na verdade, a grande diferença vem dos alimentos mais simples, como feijão, arroz, frutas, verduras, ovos, frango, peixe, leite e derivados. É claro que em todas essas classes de alimentos existem os tipos que podem custar muito mais, mas estamos falando do básico. Evitar alguns produtos industrializados, ditos light ou integrais, ajuda a economizar, pois muitos além de não serem o que prometem, ainda custam muito mais. O grande problema é o estilo de vida moderno, que força as pessoas a comerem na rua, com menos opções saudáveis. Em todo caso, procure comida de verdade e uma boa orientação, pois um bom nutricionista vai adequar a alimentação a sua realidade.

Paulo:  Pelo contrário. Comer bem sai bem mais barato do que se imagina. Como falei antes, os colegas da “Alimente” (Felipe Nassau, Dania Sanchez e Talita Reis) fizeram análises interessantíssimas e mostraram que a alimentação saudável sai mais barata do que a alimentação regular. O problema é que há umas modinhas de alimentação a base de frutas exóticas e alimentos raros que acabam sendo muito caros e não oferecem nada além do que teríamos com nossos frutos. Tipo o caso da “berries” que custam fortunas mas possuem os menos benefícios que nossos morangos, açaí, etc. Existe também um forte apelo da indústria dos suplementos, que usam “celebridades” para associar seus físicos aos produtos e levar o consumidor a crer que eles sejam importantes para se ter um bom resultados. Um exemplo disso são os suplementos de proteínas, que não oferecem nenhuma vantagem real sobre os alimentos normais (carne, ovo…). Coisas simples, como aproveitar as variações sazonais e locais, e consumir alimentos que são mais baratos em determinado período e região ajudarão muito!

5) Quais as dicas que o senhores podem dar em relação a exercícios e alimentação para quem se preocupa com a saúde?

Marquinhos: Confie a sua saúde a quem é capacitado, quem é comprometido com a verdade e não siga práticas sem fundamento, dietas restritivas demais ou uso de substâncias que prometem mudanças radicais. Toda mudança requer tempo e atropelar fases pode trazer efeitos contrários aos desejados e infelicidade. A prática de atividades lúdicas e recreativas, como as peladas de fim de semana, são importantes para o bem estar mental, mas o exercício físico tem que ser realizado de forma sistematizada, a fim de minimizar possíveis lesões. Fortalecimento muscular e capacidade cardiorrespiratória são pontos tão importantes para quem pratica esportes esporádicos, quanto para as atividades do dia a dia, já que com o passar dos anos, as capacidades físicas vão ficando cada vez menores.

Paulo: Após muitos anos estudando e vivenciado essa área, eu estou cada vez mais convicto que o equilíbrio é a chave de tudo. Seguir orientações extremistas de alimentações monótonas e programas genéricos de exercício é o caminho mais rápido para frustração. Estabeleça metas reais e justas, trace planos para alcançá-las e siga esses planos! Sem a união dos três, não se chega a lugar algum!