Você já ouviu falar sobre programação metabólica ? Sabia que muito do que acontece pode ter sido fruto de algum evento registrado ainda na vida intra-uterina?

Para tratar o tema, convidamos a conceituada médica Bruna Pitaluga Peret Ottani, ginecologista e obstetra, pós-graduada em Nutrologia e membro do The Institute for Functional Medicine (IFM). Veja, a seguir, a entrevista:

 

O que é programação metabólica?

Bruna – Programação metabólica é o conceito de que todo o evento que acontece com o indivíduo, na vida intra-uterina e na lactação, pode ter repercussões na vida adulta. Por exemplo, se durante a gestação uma mulher ingere álcool, o feto pode ter repercussões tardias, como retardo do desenvolvimento em decorrência dos efeitos metabólicos do álcool sobre o cérebro do feto. Esse é um conceito atual, e extremamente relevante, em decorrência da pandemia de doenças crônico-degenerativas que a humanidade vivencia, como diabetes e hipertensão arterial sistêmica. Pesquisadores do mundo todo estudam os efeitos da exposição dos fetos à agentes externos como cigarro, fumo, excesso de açúcar (quando a mãe tem diabetes), deficiência de nutrientes (por exemplo folato), deficiência de ácidos graxos (por exemplo ômega 3).

 

O que define os estudos da programação metabólica?

Bruna – A epigenética é a denominação da influência do ambiente sobre nossos genes. Esse conceito define os estudos de programação metabólica. O conceito dos 1000 dias, tão utilizado pelas Sociedades de Pediatria do mundo, é baseado na epigenética e estende a programação metabólica até os dois anos de vida.

 

Uma gestante pode determinar o futuro metabólico do seu filho, então?

Bruna – Imagine que o corpo é uma Ferrari. Agora, imagine colocar gasolina adulterada na Ferrari. O funcionamento será o mesmo? Não. A mesma coisa acontece com uma gestante. O combustível que ela fornecerá na forma de nutrientes pode interferir no metabolismo do bebê. No entanto, claro, esse não é o único fator determinante. Uma criança que teve uma exposição intra-útero às toxinas pode na vida adulta manter um estilo de vida saudável e não desenvolver doenças. O que os pesquisadores entendem é que, se dentro do útero os fetos são expostos a uma situação prejudicial, e na vida adulta adotam hábitos de vida ruins, como sedentarismo e tabagismo, a chance de desenvolver doenças crônicas é maior. Um exemplo fácil é o uso de ácido fólico. Toda mulher que quer engravidar suplementa com comprimidos de ácido fólico para prevenir doenças do tubo neural. Logo, a deficiência dessa vitamina é um fator que pode interferir na programação metabólica do feto.

 

O que uma mulher pode fazer para oferecer as melhores condições para o desenvolvimento do seu filho?

Bruna – Toda mulher que deseja engravidar deve procurar o seu médico obstetra para consulta pré-concepcional, no mínimo, 90 dias antes do período que ela começará a tentar engravidar. Isso é importante porque o profissional que irá atende-la deve realizar uma consulta completa com história clínica, incluindo doenças, uso de medicamentos, hábitos de vida, prática de atividade física etc, exame físico, com medida da pressão arterial, e solicitar exames complementares, como glicemia de jejum. Diante desses dados, o profissional deve orientar a mulher quanto as mudanças de estilo de vida e, em caso de necessidade, correção de deficiências nutricionais e orientações personalizadas. Durante o pré-natal, com as consultas regulares, a mulher deve ser avaliada quanto a detecção de possíveis alterações, por isso as consultas devem ser periódicas. Ganho de peso acima do esperado pode ser indicativo de diabetes gestacional. Filhos de mães que tiveram diabetes na gestação são mais propensos a obesidade, doenças cardiovasculares e até câncer na vida adulta. Creio que o conceito de programação metabólica é uma oportunidade que toda a mãe tem para assegurar o melhor potencial de saúde que ela pode dar aos seus filhos. E não é esse o maior presente que podemos receber das nossas mães?

 

Até a próxima semana!