Desde criança, ela sempre esteve acima do peso. Fez várias dietas. Emagreceu. Engordou de novo. O processo foi repetido inúmeras vezes. Atingiu a marca de 105 quilos na balança. Fez cirurgia de redução de estômago. Emagreceu. Engordou mais uma vez. Decidiu virar a página da sua vida. Se tornou médica, nutróloga. Hoje, a ex-gordinha Ana Luisa Vilela é quem ensina seus pacientes a optarem por um estilo de vida mais saudável e a ter um corpo mais magro.

Ela acredita que um programa alimentar saudável, combinado com exercícios físicos, pode fazer uma pessoa a perder peso em até dez semanas. A pedido do blog, respondeu às perguntas listadas abaixo.

É possível perder peso de maneira saudável em 10 semanas? 

Sim, desde que tenha um acompanhamento adequado, sabendo o que pode comer e sendo estimulado para a perda da peso prazerosa.

O que é possível ser feito e quantos quilos pode ser perdido até janeiro?

Esse trabalho tem ser muito individualizado, regrado com atividade física, suplementos e uso de aceleradores de metabolismo. Com um trabalho focado, em geral, é possível perder mais de quilo por semana com saúde. Mas isso depende muito do metabolismo de cada um e do comprometimento com a dieta e com os exercícios.

Como enfrentar o final de ano, sempre com festas de confraternização, Natal e Ano Novo, sem jogar fora a dieta?

É importante saber comer e fazer boas substituições. Quem se planeja consegue passar pelas festas comendo bem e saudável. Aumentar os exercícios físicos nessa época é fundamental para compensar as ingestões a mais. Evitar as gorduras e as bebidas alcoólica, que são calorias vazias, em excesso também. Uma boa dica é para uma taça de vinho ingerir duas de agua. Aumentar as ingestões de fibras com folhas verdes e verduras cruas como entrada para entrar na refeição principal mais saciedade. Buscar sobremesas mais leves e dar preferência para as frutas. Substituir o suco industrializado por agua com gás com limão. O peru e uma ótima opção de ceia se assado com a casca. Ele é cheio de proteína e com baixíssima gordura. As carnes defumadas são mais calóricas, evite-as, já que são cheias de sal.

Qual o papel dos exercícios físicos em um programa como esse?

Fundamental. São eles que vão potencializar a dieta e o emagrecimento consequentemente.

Como emagrecer e não voltar a engordar?

Aprender a comer e entender o quanto o organismo de cada um gasta por dia. Sabendo fazer trocas inteligentes, a pessoa nunca mais vai engordar. Ela vai ter prazer em comer saudavelmente. Isso é primordial para, depois de magra, se sentir estimulada.

Quais são as principais aflições dos gordinhos?

Muitas pessoas já estão descrentes, já tentaram tudo e não emagreceram. Minha tática, como já passei por isso, é trocar os hábitos ruins aos poucos. Não adianta tirar o refrigerante, os doces e todos os vícios de uma pessoa de uma vez só. Uma mudança repentina não surte efeito, as gradativas com certeza são as de sucesso. As mudanças lentas são progressivas e vão fazer a pessoa entender mais sobre o seu corpo e suas vontades. Assim fica bem fácil controlar. Se uma dieta é altamente restritiva, e não tem nada que a pessoa goste, ela dificilmente vai seguir. Aprender a comer não é tirar o que se gosta, mas sim ensinar a comer em outras quantidades e fazer substituições inteligentes.

Na sua opinião, omundo caminha para uma alimentação mais vegana? Recentemente saiu pesquisa condenando o consumo de carne processada. A cada dia uma nova pesquisa condena a ingestão de um tipo de alimento. O que fazer para não cometer erros?

Manter o equilíbrio é a peça chave de uma dieta saudável. Os costumes pela carne, na verdade, são culturais e regionais. Não acho que as pessoas estão deixando de comer carne, mas estão buscando de modo geral uma alimentação mais saudável.

Estar de dieta significa nunca mais… o que?

Nada! A ideia é justamente diminuir alguns maus hábitos e restringir as quantidades e não retirar tudo de vez.

Confira aqui o depoimento de Ana, a ex-gordinha que deu a volta por cima.

“Sempre fui gordinha. Quando criança, em minha cidade natal no estado de Minas Gerais, gordura era sinônimo de saúde e por várias vezes escutei: “Que belezinha gordinha! Bochecha até rosada…” Mas com os anos esses quilos a mais começaram a mudar meu dia a dia. Parei para recordar e me dei conta de nunca na vida pesar menos de 90 kg.

Roupas quase nunca me serviam e moda era uma coisa que me incomodava profundamente. Inúmeras vezes quis um jeans, mas… Os anos foram passando e compensava minhas frustrações do corpo tirando as melhores notas e sendo a melhor e mais engraçada colega de turma. Sempre ativa, seguia dietas infinitas alternando momentos de alegria magra e depressão gorda. Escalava, pedalava, andava a cavalo, namorava (lógico, assumindo sempre um perfil bem mais dependente e carente, arruinando a maioria dos meus relacionamentos). Determinada a seguir em frente, fui estudar na Bélgica. Voltei ao Brasil falando cinco línguas. Conheci pessoas, entrei na faculdade, mas ainda faltava algo.

No fim da faculdade, após o rompimento de um namoro que, até então, teria sido o mais importante e significativo da minha vida, me encontrei sozinha, gorda, hiperglicêmica (pré-diabética), com menstruações muito irregulares, dores articulares intensas, hipertensa (já fazia uso de 4 medicamentos) e principalmente muito deprimida. Tinha medo de sair na rua e vergonha de me olhar no espelho. A esta altura estava pesando 105 Kg. Tinha chegado ao limite da obesidade pra mim.

Meus médicos, então professores, me sugeriram pela primeira vez a cirurgia de redução de estômago. Não aceitei muito bem, porém, incentivada por um primo que sofria do mesmo problema e iria se operar em alguns meses, acabei marcando uma consulta. Em três meses fui operada. No dia 17 de setembro de 2005.

Apesar dos ótimos cuidados da equipe cirúrgica e anestésica, evoluí no pós-cirúrgico com uma hemorragia digestiva grave. Fiquei na UTI e depois internada por vários dias. Hoje sei que só sobrevivi porque estava com a melhor equipe médica e cercada de cuidados. O pior passou e evoluí muito bem, mantendo meu acompanhamento médico e psiquiátrico. Emagreci 40 kg. Não usava mais medicamentos de pressão, voltei a menstruar, conseguia agora correr sem dor, minha glicemia estava estabilizada.

Comprei minha primeira calça jeans em um shopping. Saí da loja chorando como uma criança, abraçada naquele pacote tão significativo. Iniciei meus estudos em cirurgia na mesma equipe por quem fui operada. Convivia diariamente com pessoas que, como eu, sofriam de inúmeras formas com a obesidade.

Aprendi muito, sofri junto. Para elas eu era um exemplo que tudo podia melhorar, dar certo, e elas me incentivavam a estudar mais e preencher as lacunas de uma doença que afetou profundamente minha existência por 27 anos e me segue até hoje.

Como nada é fácil, emagreci, mas mantive terríveis hábitos comuns à obesidade que, associados a rotinas exaustivas e privações de sono comuns aos médicos, voltei a engordar. Foi difícil entender que só a cirurgia não me manteria saudável e magra, que precisaria mudar hábitos, melhorar as escolhas alimentares, mudar meu pensamento e vida, pois o estômago já estava reduzido.

Iniciei minha pós-graduação em Nutrição Clínica e voltei a emagrecer. Percebi junto a meus pacientes que voltar a engordar era muito comum e que este novo aprendizado seria importante para minha vida e para o pós-operatório de todos os obesos que eu tratava. Aprendi aos poucos o valor da qualidade e quantidade.

Hoje tento distinguir sabores pequenos e delicados. Mantive o prazer de comer, porém agora em restaurantes mais elaborados. Transformei meu prazer alimentar em um pouco mais de variedade e amor próprio. Continuei estudando e, após estágio em Nutrição Clínica no Hospital das Clínicas em São Paulo, fiz cursos de Estética Médica.

Queria melhorar minha pele, acabar com a flacidez e substituir a gordura. Um mundo novo se abriu, cheio de possibilidades.

Neste momento nasceu a minha grande vontade de ajudar com a minha profissão. Um tributo aos meus conhecimentos, à minha nova forma magra e às possibilidades de ensinar a meus pacientes tudo que aprendi para me cuidar. Sei agora que sofro de uma doença crônica, que influencia não só minha saúde física mas também a mental. Hoje vivo como uma gordinha anônima um dia de cada vez… Descoberta em descoberta, aprendizado em aprendizado, sou com certeza mais feliz.”

 

Quem também nos auxilia neste post é o educador físico Michel Gaido Garcia, da rede Just Fit de Academia. Confira as dicas dele por meio da entrevista abaixo:

 

Qual o treino ideal para quem está fazendo reeducação alimentar saudável, sem altas restrições, para acelerar a perda de peso?

O programa de reeducação alimentar convergente com um programa de atividades físicas pode contribuir consideravelmente para a melhora da composição corporal. Um bom programa é aquele que deve incluir treinamentos diários, aproximadamente de 1h a 2h de duração, com um dia de folga por semana. Os treinamentos que visam acelerar a perda de peso, juntamente com o de reeducação alimentar, devem conter: Treinamentos de Força (Ex: musculação) e Treinamentos de Predominância Aeróbia (Ex: corrida). Se possível, devem conter doses de treinamentos intervalados, ou ainda exercícios circuitados, com o objetivo de promover uma estimulação intensa ao metabolismo para a promoção da queima de gordura. Vale a pena lembrar que a combinação destes exercícios de diferentes predominâncias é que faz o programa ser ideal a cada indivíduo. Esta combinação deve ser feita sempre por um profissional de Educação Física habilitado.

Qual o papel dos exercícios físicos para quem está participando de programa de dez semanas de dieta (reeducação alimentar)?

Um programa de dez semanas de dieta, acompanhado por um médico especialista, deve apresentar condições energéticas mínimas para a prática de atividades físicas diárias. Isso tendo em vista a melhora da composição corporal através da redução dos percentuais de gordura presentes no organismo, que serão alcançados através dos exercícios físicos como consumidores da energia anteriormente armazenada na forma de gordura. Desta forma, os exercícios físicos têm extrema importância para a colaboração do sucesso de um programa de dez semanas de dieta.

Como emagrecer e não voltar a engordar?

Emagrecer não é difícil. Difícil é manter-se em seu peso de forma saudável. Isso porque há muitos que ao alcançarem seus objetivos abandonam o hábito saudável que os conduziu até a realização. Via de regra, quando falamos de emagrecimento, não podemos esquecer de crédito e débito de energia. Crédito pelo que já temos armazenado em forma de gordura, acrescido da ingestão calórica diária em nossa alimentação. E débito pelo quanto gastamos em nossas atividades cotidianas, somadas às atividades físicas que praticamos. Não há milagre. Para a manutenção de uma boa composição corporal, é preciso manter a boa nutrição adquirida pela reeducação alimentar aliada à prática de atividades físicas diárias, ambas controladas por profissionais da saúde.

 

Até semana que vem!