Pedir panela de presente de Natal significa perder o amor próprio? Ontem descobri que o que eu mais quero ganhar neste final de ano é um novo jogo de panelas, mas fiquei com medo de pedir esse presente e, ao mesmo tempo, perder a dignidade… Resolvi me aconselhar com as minhas amigas pelo grupo de whattsapp – já que não contamos mais com a boa e velha roda de cadeiras de balanço na calçada, em frente à porta de casa.

Algumas foram totalmente contra. “Compre você mesma!”. “Se fizer esse pedido nunca mais vai ganhar outra coisa, só ventilador, fogão, prato, talher”. “Presente tem que ser uma coisa pra você, precisa marcar seu espaço”. Uma das minhas amigas teve a boa vontade inclusive de me enviar um link para comprar um jogo novo pela internet, dividido em dez vezes no cartão. Algumas, em bem menor quantidade, disseram que seria um bom presente, ficariam felizes em ganhar panelas. E uma prima, sozinha no ninho, me aconselhou a pedir o que me desse na telha, o presente é meu, quem escolhe sou eu. Simples assim.

Confesso que tendo a concordar a minha prima. Quem quer sou eu, portanto, quem escolhe sou euzinha aqui. Concordo que panela não é um presente único e exclusivo da pessoa a ser presenteada. É um presente de uso geral. Você ganha, mas todos usufruem. É um objeto de uso comum, cotidiano, sem qualquer charme ou glamour. Concordo também que panela representa, talvez como nenhum outro objeto, a “mulher do lar, dona de casa” que se anula enquanto indivíduo e vive apenas para a casa, o marido e os filhos, uma mulher que todas nós, mulheres de hoje, nós esforçamos dia após dia para deixar para trás.

Mas aí é que vem. Não é pedir uma panela que vai anular a minha individualidade como mulher e colocar de volta no passado, na categoria de mulher submissa. O que determina os meus limites enquanto indivíduo e o que define quem eu sou é o que está dentro de mim, e não o que vem de fora. É o que eu sinto e o conjunto da minha história diante do mundo. Infelizmente, em uma boa parte das ocasiões, guiamos as nossas escolhas para nos encaixar em algum estereótipo – ou fugir dele.

Tomamos decisões – muitas vezes equivocadas – baseadas no que as pessoas vão pensar e de que maneira irão reagir, em vez de nos preocuparmos com o que NÓS pensamos e queremos. A segurança sobre quem somos e a medida da nossa autoestima dependem única e exclusivamente de nós, é algo que vem de dentro, e não de fora. Quanto mais passarmos a definir nossas escolhas através desse critério interno e pessoal, mais concretos e firmes serão os limites da nossa individualidade, não importa o que o mundo possa ou não pensar à respeito. Então, se eu quero panelas, vou pedir as panelas. Elas não definem, e nunca irão definir, a pessoa que eu sou.