Os pequenos prazeres estão em toda a parte. Surgem no nosso caminho como pequeninas pedras coloridas. Depende só de você enxergá-las, ou não. Se passar correndo, com a cabeça por todos os lugares menos no próprio caminho, provavelmente não as verá. Mas se prestar um mínimo de atenção as pedrinhas  vão saltar e fazer do seu dia uma jornada de inúmeras pequenas alegrias.

Outro dia comprei um saco de laranja no supermercado. Na embalagem dizia: laranja pêra – que pra mim significa “laranja comum”. Quando cheguei em casa, no final da tarde, sentei na mesa da sala, descasquei uma delas e coloquei na boca. Uma única sorvida e meu coração se encheu de alegria… E de saudade. A etiqueta estava errada. Era laranja da ilha. Doce e suave. Doce como as laranjas que minha avó e meu avô cascavam e colocavam na bacia de plástico azul para a gente chupar, com tampinhas em formato de cone. Suave como as laranjas que minha tia colhia no rancho em Minas e mandava para mim em São Paulo para aliviar a indisposição na gravidez do meu segundo filho. Doce e suave como são as lembranças que nos mantém de pé mesmo quando não nos lembramos sempre delas.

Fiquei tão feliz com a descoberta que telefonei para minha mãe para contar. Descasquei outras duas e ofereci para meus filhos, contando histórias que aquela simples laranja me ajudou a resgatar. Eu estava feliz, com a sensação de plenitude e alma satisfeita que os pequenos prazeres sabem nos proporcionar.

Semana passada, depois de três anos utilizando única e exclusivamente o botão de “1 minuto” do microondas, meu filho mais velho me ensinou a digitar quantos minutos ou segundos eu quisesse, sem ter que vigiar o monitor toda vez que eu queria esquentar algo. Antes, se eu precisava de 40 segundos, colocava 1 minuto e ficava vigiando o contador. Ao chegar no 20 eu dava pausa-cancela. Se queria 6 minutos, digitava 6 vezes o botão de 1 minuto e assim por diante. Agora aprendi para que servem os algarismos de 0 a 9 no teclado do microondas. Fui esquentar um leite e não tive dúvidas, digitei 1 minuto e 14 segundos, e, então, experimentei a euforia de quem aprende algo novo e se liberta de antigos padrões. Pode parecer pouca coisa, mas não é. Porque é nas pequenas coisas que encontramos satisfação, se estivermos abertos a elas.

As grandes conquistas, as alegrias arrebatadoras, o bilhete premiado da loteria são acontecimentos poucos e raros, ou mesmo inexistentes no decorrer de uma vida. A grandiosidade nem sempre se concretiza, as expectativas e sonhos muitas vezes não se realizam. Mas os pequenos prazeres, as singelas alegrias, ah… esses sim, aparecem diante de nós a todo instante no curto prazo de um dia. Eles nos tornam mais completos e felizes. Satisfazem o nosso espírito, a tal ponto de não precisarmos mais depositar a nossa felicidade no bilhete de loteria. Se ele vier, será bem vindo. Se não vier, viva a “laranja da ilha”! Vivam os “1 minutos e 14 segundos”! Não dependeremos do bilhete para sermos felizes.