É no banheiro de uma casa que se conhece quem mora nela. Foi o que descobri em anos entrevistando pessoas e – depois de horas de conversa, copos de água e café – usando os banheiros delas. Anônimos. Famosos. Velhos. Mulheres. Homens. Crianças. Nada é mais revelador sobre a alma de alguém do que o banheiro da casa onde mora.

A alma do Ariano Suassuna era azul clara de linhas retas com cerdas firmes e uniformes, sem limpador de isso ou aquilo, sem curvatura desenvolvida pela NASA, sem cerdas de diferentes tamanhos para diferentes tipos de dentes, sem firulas nem modernidades. Uma escova azul clara num copo de porcelana sem água, na pia de um banheiro antigo, de azulejos antigos sobrepostos em paredes antigas como antigo o casarão onde morava. Um banheiro de gente comum. Gente que se sabe como é e não precisa tentar ser o que não é quando se vê diante do espelho. Gente como Ariano Suassuna.

Eu queria ser uma grande escritora. Viajei 2.672 quilômetros atrás dele porque acreditava que só ganhando o mundo e conhecendo pessoas como ele eu teria material suficiente para escrever uma grande história. Precisava conhecer grandes personagens, grandes tragédias, diferentes culturas, o auge e a decadência das nações, a desigualdade dos povos, a crise econômica, o Himalaia, as disputas religiosas.

Dois dias de entrevistas e conversas e Seu Ariano me mandou voltar para casa. Se eu quisesse realmente escrever, deveria partir da minha própria realidade, do lugar de onde eu vim, ele me disse. Sim, eu queria ganhar o mundo. E foi preciso viajar quase três mil quilômetros para descobrir que eu devia era fazer o caminho de volta. Porque no lugar de onde se vem é que estão os grandes conflitos da humanidade, e voltar o olhar para si é a maneira mais sólida, inspiradora e verdadeira para se contar uma história.

Não me tornei uma grande escritora. Mas, estou escrevendo uma grande história. A minha história, que só eu sou capaz de escrever. Obrigada, Seu Ariano.