Estou nesse quarto de maternidade, com o berço vazio ao lado, esperando a gravidez se desfazer aos poucos. No mesmo quarto onde, três anos antes, recebi meu segundo filho. Lembro que estava chovendo. Lembro do barulho da chuva na veneziana de madeira. Lembro do choro dele pequenino e de outros recém nascidos invadindo o corredor de chão de ladrilhos.  Hoje a maternidade está vazia. Um parto normal. Uma cesariana. Duas mães. Dois bebês. E eu.

Essa terceira gravidez não foi planejada. Foi uma surpresa e um susto, seguidos pela alegria e a expectativa por aumentar a família, ter mais uma criança para encher a casa de vida e alegria. Mas, numa tarde veio a cólica. Depois o sangramento. E agora estou aqui, dando tempo ao meu corpo, esperando paciente a natureza se desfazer de uma gravidez que não foi adiante. Me despedindo devagar e silenciosa de um filho que não veio.

Não sei porque tudo isso aconteceu. Nem a gravidez inesperada, embora nessa eu pudesse ter tido um controle melhor, nem a despedida repentina. Mas uma verdade é certa e absoluta: há coisas que não podemos controlar. Não dependem do nosso querer ou não querer. Fazer ou não fazer. Simplesmente estão fora do nosso alcance e sobre elas não temos nem o mínimo e mísero controle.

No dia a dia corrido de hoje, queremos tudo a tempo e a hora. Pra ontem. Tudo do nosso jeito, nesse exato momento, whatsapeando. Mas a realidade não é bem assim. Não somos um ser superior, magnânimo e mágico que tem o poder e o controle sobre tudo. Algumas vezes nos deparamos com situações e acontecimentos que fogem ao nosso controle, totalmente. Quando isso acontece, podemos perder o chão e entregar os pontos. Ou podemos assimilar, aceitar e, da melhor forma possível, seguir em frente. Porque, apesar de não termos controle sobre tudo o que nos acontece,  depende só de nós e da nossa vontade decidir o que fazer com aquilo que nos acontece.

Tomar decisões e iniciativas sobre situações que podemos controlar é uma posição confortável.  Enfrentar o que podemos escolher, mesmo que seja uma escolha complexa, é fácil, ou deveria ser. O difícil e o segredo é enfrentar o que não podemos controlar. Entender isso e seguir em frente é o grande segredo e o maior desafio.