Na terça-feira, no Dia Internacional da Mulher, as mais diversas homenagens a nós, mulheres, circulavam pela internet, pelos aplicativos de celular, pela tv, pelas ruas. Sempre é bom receber uma homenagem, ter um dia especial para ser seu. Além da enorme quantidade de posts e mensagens, o que mais me chamou a atenção foi que a grande maioria delas traziam dois juízos bastante estabelecidos sobre a mulher:  1) o ideal da super mulher, que se divide em mil papeis e alcança o sucesso em todos eles. 2) o ideal da mulher guerreira, que batalha por seus direitos ou defende uma bandeira. Nos dois casos, as homenagens traziam uma obrigação e uma expectativa. Com uma mão, os parabéns. Com a outra, o alerta: “hoje é seu dia, portanto, faça por merecê-lo”.

Mas nem todas somos, infelizmente – ou felizmente – heroínas capazes de atingir a excelência nas diferentes esferas da nossa vida, impostas pela sociedade ou auto-impostas por nós mesmas. E nem todas nós defendemos os nossos direitos civis – por mais que nos sejam caros e necessários – e tampouco nos agarramos a uma causa para levantar bandeira. Muitas de nós somos mulheres comuns, sujeitas ao fracasso e à culpa, e nos deparamos com eles com indesejada frequência.

Falhamos em muitos dos nossos papeis, algumas vezes em todos eles – e sofremos por isso. Não bradamos por aí em defesa dos animais, da mata atlântica, da igualdade entre os sexos ou dos oprimidos. Não por não nos importarmos, mas por termos as 24 horas do nosso dia consumidas com questões menores, como a nossa própria sobrevivência e a dos que dependem diretamente de nós e, exaustas, passamos nosso tempo livre compartilhando posts idiotas nas redes sociais ou assistindo a um programa igualmente idiota na telinha da tv.

Portanto, faço aqui a minha homenagem às mulheres imperfeitas. Às que trabalham duro e, mesmo assim, não atingem o sucesso profissional. Às que não trabalham tão duro, porque não gostam do que fazem e o trabalho é apenas seu meio de vida e não uma via de realização. E também às que não trabalham, porque não conseguem ou porque não querem. Se é uma homenagem à mulher por ser mulher, não deveria haver pré-condição para merecimento ou não.

Às mulheres que não cumprem nem um item da sua lista de propósitos para o próximo ano e às que não mantem um regime por mais de uma semana, porque lhes falta força de vontade suficiente para serem atléticas e diets como algumas das suas amigas ou vizinhas. Às mulheres que choram silenciosas no banheiro porque não sabem o que fazer das suas vidas, porque se sentem inseguras ou porque ainda sonham com o príncipe encantado, mesmo tendo descoberto há algum tempo que ele não existe e que os homens, assim como elas, são seres invariavelmente imperfeitos.

Às mulheres que tentam ser boas mães, mas muitas vezes erram – e repetem os erros. Porque mais difícil que lapidar o corpo com regime e academia é lapidar o espírito e o comportamento com a mudança de hábitos enraizados por uma vida. Às mulheres que desistiram do grande amor, da carreira, da autoestima ou dos filhos porque não foram capazes de conquistar aquilo que, segundo consta, deveria ser o mínimo: o equilíbrio fundamental para serem felizes. E, finalmente, minha homenagem às mulheres que, como péssimas atrizes, mandaram todos os papeis para os ares e seguem como podem no palco do dia a dia, tentando interpretar o único papel que realmente deveriam: o papel de si mesmas, com todas as suas tristezas e alegrias.