Eu estou emburrecendo. Sim. Estou com 37 anos e, com horror, constatei que minha cabeça está parando de pensar. Está literalmente enferrujando. Os espaços em branco e cheios de nada estão cada vez maiores e até “pegar no tranco” está cada vez mais complicado. Comecei a perceber aos poucos. Eu me pegava parada, olhando para o vácuo, com o celular na mão. Meus olhos começaram a doer, ficar irritados e, por algum motivo que minha cabeça cada vez mais emburrecida não conseguia entender, essa irritação coincidia com alguns dos momentos em que eu me pegava com a mente parada, flanando no nada.

Um dia eu estava em casa, era fim de tarde, sentei no sofá para dar uma olhada no celular e, quando dei por mim, já era de noite. Haviam se passado duas horas. Duas longas horas que eu não tinha visto passar e, nas quais, não tinha feito outra coisa a não ser dar uma olhada no celular.

Foi então que caiu a ficha. De uns meses para cá, assumi um hábito que até então eu não tinha: acessar a internet pelo celular, dar aquela fuçada básica enquanto a gente espera o elevador chegar, a fila do banco andar, o sinal abrir, o intervalo na TV terminar, a água do café ferver, a hora da consulta chegar, a pessoa do outro lado da linha atender, a reunião começar, o microondas apitar, o relacionamento esfriar, a amizade se perder, o filho crescer, a vida passar.

Resolvi marcar durante um dia quanto tempo eu “ficava no celular”. O absurdo é grande, mas não existe outra maneira de se recuperar de um desastre a não ser encará-lo de frente. 4h, 28min. Para não ficarem dúvidas, vamos por extenso: QUATRO HORAS E VINTE E OITO MINUTOS. Numa quarta-feira qualquer, dia de trabalho, dia de casa, família, filhos, marido. Considerando uma noite de sono devidamente dormida por oito horas, passei quase um terço do meu dia acordada no celular, inutilmente, emburrecendo enquanto via – ou não via – a vida passar.

Fiquei assustada. Não que eu acredite que devamos aproveitar de forma produtiva todas as vinte e quatro horas do nosso dia. Fazer nada faz parte, tanto quanto fazer muito. O ócio é sadio e necessário. É fazendo nada que se observa o mundo, e a si mesmo. Mas um fazer nada por completo, por inteiro. Ao ficar tanto tempo navegando pelo celular, fazemos nada pela metade. Não estamos lá, nem cá. Preenchemos nosso tempo com o não estar – e o completo deseforço de pensar.  Você está conectado, como se estivesse funcionando no automático, ligado na tomada ou na bateria e, como tudo no automático, vai perdendo a capacidade de funcionar por si só, e de pensar.

Antes, quando eu ia ao banco e sabia que enfrentaria uma fila, levava um livro para ler ou, se não levava, aproveitava para observar. As pessoas, as coisas, as dinâmicas entre elas. Hoje, dou uma olhada no celular e, quando chega a minha hora de ir ao caixa, nem sei direito o que estou fazendo ali, demoro um tempo até desconectar e me localizar de novo no mundo – isso quando não perco a vez, porque não vi nem ouvi chamarem o número da minha senha. Comecei a refletir sobre todas as coisas que eu estava perdendo, e no muito pouco que eu estava ganhando, no quanto eu estava ficando fora de órbita, no quanto eu estava emburrecendo e em todos os momentos que passaram por mim nos últimos meses sem que eu me desse conta.

Perguntei para o meu filho adolescente como fazia para tirar o navegador de internet do meu celular, e, sem dó nem arrependimentos, o removi. Mantive o e-mail e whattsapp. Preciso trabalhar e não quero ser uma alienada. Continuo a passear à toa pela rede – porque é divertido, porque ninguém é de ferro – mas só quando estou diante do computador, sentada e preparada para fazer isso. No resto do dia, nas brechas, nos intervalos, nas tantas esperas que conectam cada etapa da nossa existência, me reconectei com o mundo, me livrei do celular e, aos poucos, vou reassumindo o controle da minha vida.