No começo o carnaval é uma festa. Aos dezoito você conta os dias para chegar, mal consegue controlar a ansiedade e passa semanas preparando o figurino, comprando lantejoulas, colares, tomando sol nas pernas pra ficarem bem no shortinho e lactopurga para diminuir, na marra, a barriga. Promove encontros com a turma para organizar o esquema, paga em mil parcelas a viagem, o abadá, a fantasia, o KG ou sabe-se lá mais o quê.  Seu foco é único e sem concorrentes: a festa. Nada mais importa. Questões como estudo, trabalho, comida, família e sono são relegadas ao quinto plano. Afinal, a vida só começa depois do carnaval.

Mas aí você faz trinta. Trinta e um, trinta e dois… E dá graças a deus porque o carnaval esse ano vai ser no meio de fevereiro, e não em março. O quanto antes acabar, melhor.  Nada contra o carnaval, você até gosta. Mas tem mil coisas importantes pra resolver, e que só vão desencalhar depois que acabar a festa. A resposta sobre um projeto no trabalho. A consolidação de uma dívida que não era sua na Receita Federal, mas virou sua e você só pode mostrar que não era sua depois de consolidar. A aula de inglês. O foco, os pés no chão. Até o carnaval, paira no ar um sentimento coletivo de que a vida está suspensa e a gente nunca sabe ao certo aonde pisa.

Mas você quer aproveitar o carnaval, uhu! Porque quer e porque não pode perder o prumo. Afinal, você tem está na casa dos trinta, o que, tecnicamente, é quase como ter vinte! E você precisa se agarrar a isso, por uma questão de sobrevivência perante a turma que, aliás, só voltou a se reunir por causa do whatsapp, e basicamente só no whatsapp – e por uma questão de autosobreviência da sua autoestima. Até pouco tempo você amanhecia na rua por quatro dias seguidos e ia direto da padaria para a bacalhoada na quarta-feira de cinzas.  Não vai agora entregar os pontos. Os quarenta vão chegar, depois os cinquenta, mas você não vai se render sem resistir.

Então, secretamente, você faz as contas do quanto vai beber por dia, qual bebida, como e quando, e elege um dia – ou dois, no máximo – para se acabar.  Não porque está mais consciente e quer preservar o seu corpo e a sua dignidade, mas porque sabe que não aguenta. É isso ou perder a folia, e a vida nas semanas seguintes. E você também escolhe o programa e pensa 321 vezes em trocar o carnaval de rua e a fantasia por um churrasco em casa, uma viagem pra praia, pro rancho, pro campo ou pra casa da prima que você há anos não via. Quando, por fim, você decide pelo bloco ou pelo trio elétrico, tenta se organizar pra chegar mais cedo à fim de arrumar um lugar perto de algum banheiro ou de algum meio fio ou de alguma rota de fuga, pelo amor de deus. Então, lá pelas tantas, tudo o que você quer é conseguir uma mesa num barzinho, pra tomar uma bebida tranquila, gelada, curtir a música, a conversa e assistir à muvuca de camarote, a uma distância devidamente segura, lembrando com nostalgia – e um pouco de alívio – de quando você ainda estava na casa dos vinte e tudo o que importava era a folia.