– Você é uma mulher ou um saco de batatas? – perguntou.
– (…)
– Onde está a força que existe em você?
– (…) 
– Responda, não tenha medo!
– …Posso ser um saco de batatas?

***

Eu não sabia mais o que fazer e procurei ajuda. Primeiro nos manuais das livrarias. Depois nas listas da internet. Entrevistas dos especialistas, das bem sucedidas, das felizes e famosas. Por fim, procurei um psiquiatra. Guardar a maldita meia na gaveta certa e devidamente etiquetada passou a ser o meu objetivo de vida. Manter a bolsa limpa também ou, pelo menos, sem qualquer fungo proveniente de alimento esquecido, tal qual pão de queijo, chiclete ou palha italiana. Entrar na academia – e me manter nela três vezes por semana. Responder às mensagens na agenda escolar do meu filho de três anos regularmente, como uma boa mãe deve fazer, e não aos montes, atrasada, acumulada e culpada. Beber dois litros de água todos os dias. Atravessar a rua pela faixa de pedestre. Olhar para os dois lados. Ouvir. Fazer as unhas uma vez por semana. Soltar o rabo de cavalo. Levar ecobag para as compras, em vez de usar os saquinhos plásticos do supermercado, diante do olhar inquisidor dos outros clientes na fila do caixa. Comprar uma saia lápis, conforme recomendado por um dos manuais de como me tornar uma mulher feliz, antenada e bem sucedida. Parar de assistir às séries de detetive, que me fazem esquecer do resto, mas me deixam ansiosa. Aumentar a produtividade no trabalho. Não me oferecer para o que não posso cumprir. Nem dizer sim quando, no fundo, a prática será não. Não por falta de interesse, mas por completa e absurda falta de tempo. Organizar meu tempo de modo que eu consiga cumprir a lista de tarefas do dia. Elencar prioridades. Fazer previdência. Poupança. Planejar o futuro e as finanças. Ter uma palavra sábia para meu filho adolescente pré-vestibulando. Dormir mais e com mais qualidade. Comprar uma panela que frite sem gordura. Montar um cardápio saudável. Emagrecer três quilos.

Se você colocar no papel todas as coisas que precisa fazer, quer fazer ou fazer melhor, talvez se sinta tão perdida e desorientada quanto eu. É uma lista que não termina. Um fim que não chega. Ouço algumas pessoas falando e dando dicas sobre a maneira espetacular como elas dividem seu tempo e conseguem equilibrar tudo e realmente não entendo como conseguem. Porque tentamos desesperadamente controlar e vencer o tempo. Mas o tempo é invencível. Ele sempre ganha. Nós só corremos atrás. E talvez o primeiro passo para vivermos mais felizes, seja entender e aceitar isso. A partir do momento em que aceitamos a nossa imperfeição, a nossa incapacidade de dar conta de tudo, o peso fica menor. Nos livramos da culpa, o que é incrivelmente libertador. Você não precisa acertar sempre e fazer tudo bem para ser uma pessoa boa, comprometida e capaz. Você pode, de vez em quando, ser um saco de batatas. E por que não? Isso é ser humano.