Calma, paizão! Parece uma provocação juvenil, mas é um conselho master da paternidade.

Tem um palavrão chamado puerpério que a maioria de nós só descobre depois que vira pai. É tipo uma TPM elevada à enésima potência que se apropria da sua mulher no pós-parto.

Imagina que em vez de sentir aquela cólica básica, que a grosso modo representa uma ‘gravidez furada’, ela pariu seu filho depois de carregá-lo nove meses na barriga. Foi dilacerada, sedada, costurada e agora é testada a cada segundo.

Imagina a transformação biológica e hormonal que ocorre no corpo dela, acompanhada de alterações psíquicas que decorrem da fusão emocional que se dá entre a mãe e o bebê nesse período de quarentena. Faz sentido, não?

Então, no meio dessa loucura toda, você decide entrar em campo. Assume uma série de tarefas ligadas ao bebê, como trocar fralda, dar banho e pôr a cria para dormir, com o intuito de aliviar a barra da mãe e criar vínculo com seu filho. Boa, paizão!

Mas aí vem a Laura Gutman, psicoterapeuta argentina referência mundial em maternidade, e dá esse tapa na sua cara.

“Há uma grande confusão acerca do papel dos pais nessa fase de perda de identidade [da mãe]. Honestamente, não é fundamental que um pai troque fraldas ou ponha o bebê para dormir, embora sejam atitudes sempre bem-recebidas pela mãe esgotada (…) A função de um pai maduro se desenvolve em dois tempos: o primeiro diz respeito ao apoio emocional da mãe e o segundo, ao apoio a favor da lenta separação emocional entre a mãe e a criança”, escreveu em seu best-seller A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra.

Como assim?

Ponte levadiça. FOTO: Pixabay

Ponte levadiça

Segundo Laura, para que a mãe tenha condições de submergir na fusão com o bebê o pai deve assumir todas as preocupações materiais e mundanas, todas as tarefas que não sejam imprescindíveis à sobrevivência da criança, como cuidar da casa, fazer mercado, pagar as contas, cuidar do filho mais velho, lidar com as relações intra-familiares etc.

É como se você fosse uma uma ponte levadiça num castelo medieval. Na primeira hora você funciona como uma grande porta protegendo o novo reino familiar das ameaças terrestres, permitindo que a mãe viva numa esfera celestial com o bebê sem pudor e sem você questionar as decisões ou intuições sutis dela. No segundo momento você deve virar ponte e apresentar o caminho para que ambos possam viver suas vidas como seres individuais fora do reino.

Mas que hora o pai deve soltar as correntes e deixar de ser porta para virar ponte? Quem apoia o pai nessa metamorfose nada ambulante?

Laura diz que o homem é “prioritariamente apoiado pela própria estrutura emocional, que não foi devastada pela erupção do vulcão interior depois do parto”. Para ela, o pai, “sem feridas físicas ou psíquicas, equilibrado e íntegro, emocionado e comovido pela presença da criança, conserva intactas suas capacidades intelectuais e sua conexão com o mundo”.

Será mesmo?

O psicólogo e terapeuta familiar Alexandre Coimbra Amaral, outra sumidade no tema, constatou que muitos pais ficam desorientados diante dessa dupla missão, até porque os sinais de quando você deve ‘virar a chave’ nem sempre são claros. Ele sentiu que os homens também precisavam narrar o que estão vivendo no puerpério, dividir angústias e encontrar respostas ou, no mínimo, um acolhimento.

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Há mais de um ano, Alexandre promove uma roda de conversa de pais aberta e gratuita, o Grupo Terapêutico de Homens, no espaço Lumus Cultural, na zona oeste de São Paulo. Na semana passada, realizou um bate-papo online sobre o papel do pai no puerpério pelo Instituto Aripe.

“Os pais precisam se conectar em rede, procurarem um grupo. Se você olha para o seu pai e o seu avô você não encontra par sobre a identidade de pai. O nível do envolvimento que você está querendo construir com seu filho é muito novo”, relatou.

Resistência

Como boa parte dos homens eu resistia bravamente em participar de uma terapia individual ou coletiva, apesar dos convites da minha companheira e de alguns pais conhecidos. Achava meio piegas, meio inútil, coisa de homem sem pulso.

Até que o nascimento do nosso terceiro filho bagunçou o coreto. Fernanda e eu nos perdemos nas funções com um bebê no meio de uma casa caótica habitada por duas meninas de 3 anos. Quem acolhe quem? Qual a prioridade do pai e a prioridade da mãe? E o vínculo, o afeto?

Eu que me achava a própria fortaleza depois da experiência com nossas gêmeas não sabia como fazer ao mesmo tempo a função porta para ela e nosso pequeno e a função ponte para a duplinha. Inconscientemente, sem conversar com a mãe, optei por ‘tirar’ as meninas de casa para permitir a tal da fusão materna. Mas o isolamento e o distanciamento das filhas agravaram o puerpério.

No grupo terapêutico de homens não encontrei respostas diretas até porque não fiz perguntas, apenas escutei os relatos dos outros 16 pais presentes e as reflexões do Dr. Alexandre.

“É normal que nós vivamos um descompasso em relação às nossas companheiras sobre vinculação com nossos filhos. O convite é para você olhar para ela”, disse.

De fato, conversamos em casa. Fernanda externou todo seu incômodo e, pela primeira vez, justifiquei minha conduta abertamente. Ela propôs mudarmos a rotina para reaproximarmos toda a família. Foi uma virada incrível.

No ano passado, publiquei aqui no Estadão uma matéria citando a importância dos grupos de pais nessa nova paternidade (leia aqui). Se não tem uma roda de pais na sua cidade, saiba que existem grupos no Facebook e WhatsApp com vários pais dispostos a ajudar. Participo de um deles, o Paternando, e recomendo: Pai, não segura esse rojão sozinho não. Vai procurar sua turma!

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