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Seu filho acabou de nascer, você está feliz pra caramba, igualmente cansado, mas não mais do que a sua mulher, que é sugada pelo rebento quase que de hora em hora como propaganda da Tele-Sena.

A vida ganha um ritmo insano com a dupla jornada e a rotina te consome de tal forma que no fim do dia você só consegue lembrar de metade do que esqueceu de fazer. Parece que nada vai voltar a ser como era antes até que ela resolve sair do cativeiro.

A abstinência.

Neurônios masculinizados que ficaram esse tempo todo de quarentena grelhando numa panela de testosterona agora pulam como pipoca alertando que o desejo sexual está em ebulição. Você precisa voltar a transar.

Isso não significa que a vontade tenha hibernado naturalmente – é mais provável que você tenha feito um pacto de castidade provisório, tipo um acordo de paz entre Israel e Palestina, em prol do nascimento do seu filho, com a convicção de que logo o jejum acabaria.

Agora, sabe-se lá quem acendeu o sinalizador, o fato é que a abstinência resolveu cometer suicídio em meio a toda fumaça do puerpério (já falei sobre ele aqui). Pode ser que tenha sido o ginecologista quando decretou o fim da quarentena e seu subconsciente prontamente entendeu que o ato estava biologicamente liberado. Pode ser que tenha sido seu próprio subconsciente, que de uma forma bem consciente premeditou o ‘crime’ sem combinar com os russos.

Então, você vê sua mulher visivelmente exausta, entregue aos zumbis, mas aquelas olheiras parecem maquiagem borrada de festa de casamento, quando já está todo mundo bêbado fazendo juras de amor. Você a encontra na cama com um dos seios à amostra (porque foi isso que ela fez enquanto você esteve fora, ficou com o seio de fora amamentando seu filho até ficar sem energia inclusive para se recompor) e acha aquilo sexy. Seus hormônios estrilados te projetam numa cena na qual vocês dois decidem “dar uma rapidinha” sabendo do risco do coito interrompido pelo choro do bebê e depois dormem saciados.

Esse é o fetiche.

Daí você volta pra Terra, deita na cama e dorme mais um sono mal dormido. Acorda novamente frustrado pensando que será mais uma semana sem balançar as redes. A real é que suas investidas tradicionais não funcionam mais como funcionavam antes da gravidez. Ela rejeita seu toque porque no fundo rejeita o próprio corpo recém-transformado pela maternidade.

Você quer falar algo, testa alguns elogios, mas no fundo nem sabe como introduzir o assunto sem que pareça uma cobrança por amor carnal, mais uma diante de tantas demandas impostas a ela. Você não divide isso com ninguém até porque essas coisas de intimidade homem não conta nem pros brother, guarda e vê o que faz depois.

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Enquanto sua mulher troca experiências com outras mães na busca de melhorar a libido, você enfrenta só o luto sexual esperando o retorno da normalidade ou, pior, velando o término do casamento (um estudo britânico apontou que 25% dos casais se separaram após a chegada do primeiro filho e 40% antes da cria completar 3 anos de vida).

Esse é o tabu.

Diante desse dilema paterno resolvi consultar as bases para tentar saber o que poderia ser padrão ou não entre os pais quando o assunto é sexo pós-parto. Lancei na semana passada o tema no PaterPoll, grupo de pesquisa com pais ativos pelo WhatsApp. O saldo foi duplamente surpreendente.

Primeiro pelo resultado em si.

A maioria dos pais (42%) afirmou que o sexo melhorou ou melhorou muito após o parto na comparação com o período pré-gravidez, e 31% disseram que a versão papai-mamãe não se alterou em relação ao período sem filho, considerando satisfação e frequência. Ou seja, apenas 27% dos pais relataram que a relação sexual com a companheira piorou após a chegada da cria.

Em segundo lugar, pela reação dos pais ao resultado.

A maioria dos que se manifestaram desconfiou dos números apresentados dizendo que não é bem isso que eles têm ouvido por aí nas rodinhas. Um pai sugeriu que a pesquisa fosse feita com uma ferramenta que garantisse o anonimato para que o resultado pudesse ser mais fiel à realidade, enquanto outro pai apontou uma possível distorção na pesquisa devido ao quórum – apenas 27 dos 43 participantes do grupo responderam ao questionário acessível a todos. A hipótese levantada neste caso é a de que pais insatisfeitos com a vida sexual com as companheiras tenham preferido não participar da pesquisa.

O fato é que o que parecia ser um alento para muitos pais (não só existe vida sexual pós-filho como ela pode ser melhor do que antes) caiu em descrédito justamente por ser uma boa notícia.

Um exemplo concreto de que nós homens enfrentamos entraves de toda sorte para falar sobre a sexualidade que também é nossa e não somente uma questão da mulher. Fazemos isso, acredito, porque agimos na maioria das vezes para atender a um estereótipo desenhado com as canetas da masculinidade tóxica (estar sempre pronto, ereto, sem direito a reflexão) ou porque tememos encarar que a falta de desejo sexual também afeta o nosso universo masculino. Pode ser nossa a dificuldade de adaptação, de reconstruir uma nova relação que nunca mais será a mesma por causa da chegada do filho.

Deixar o assunto preso no armário não resolve, bem sabemos (escrevi aqui a importância de você procurar sua turma). Do tabu ao fetiche, há possibilidade de existir o melhor sexo pós-parto de todos… O sexo real.

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