“Sai! Sai! Não chamei você. Eu quero a mamãe. A Mã-Mãe!”

Quase sempre aos berros, às vezes sobra até um pontapé.

Você salta da cama no meio da madrugada para tentar apagar um ‘incêndio’, mas é recebido assim no quarto da sua filha. Em ‘chamas’, ela repele sua presença. Você amansa a voz apesar da vontade de subir o tom e oferece carinho, em vão. Volta para o seu quarto cansado e desolado, anunciando mais uma derrota para sua companheira, que já está exausta.

“Não teve jeito. Ela só quer você”.

Dupla frustração. FOTO: Pixabay

Na manhã seguinte, a prova de que aquilo não era um episódio de terror noturno. Sua filha ‘surta’ novamente ao perceber que a mãe está prestes a sair para ir trabalhar. A porta da casa se fecha e vira alvo de duros golpes. O choro é sentido e ouvido de longe no condomínio. Você tenta acalmá-la com os mais variados argumentos, um abraço. Novamente, em vão. Somente quando já não há mais ar nos pulmões, ela cansa do esperneio e baixa a guarda. É a sua chance de estabelecer contato. O dia começa.

As cenas se repetem nas noites e manhãs seguintes. Se alguém assistisse poderia até achar que você é um crápula, que não há afeto nenhum na sua relação com a cria. Muito pelo contrário. Você se sente aquele veterinário havaiano do filme Como se Fosse a Primeira Vez. Na ficção, Henry (personagem de Adam Sandler) precisa conquistar Lucy (interpretada por Drew Barrymore) todos os dias porque ela sofria de perda de memória recente. Na vida real, porém, sua filha não sofre de nada, está apenas amadurecendo. Mas você também precisa conquistá-la todos os dias.

Esse foi meu drama durante algumas semanas (com menor intensidade durou meses), quando as minhas filhas tinham cerca de dois anos de vida. Talvez, no seu caso, o roteiro seja (ou tenha sido) um pouco diferente, mas a sensação de rejeição deve ser semelhante. “Loser! Loser! Loser!” ecoa na mente.

Uma pesquisa feita com 17 pais pelo PaterPoll* (grupo de pais no WhatsApp) constatou que 59% já se sentiram rejeitados pelos filhos nesta fase da primeira infância. Além disso, a maioria dos 41% que não vivenciaram isso disseram que o filho ainda é muito novo e não descartam passar por essa experiência no futuro próximo.

Mas, afinal, é possível evitar isso?

Bom, não precisa ser pai para saber que criar um filho está longe de ser uma ciência exata. Não existe fórmula quântica e as variáveis são infinitas. Mas antes de lançar mão do famigerado método tentativa e erro é preciso entender como a criança enxerga o pai na primeira infância e a simbiose entre ela e a mãe desde a vida intra-uterina até a amamentação.

“A mãe, de um modo geral, representa o grande outro da criança, o lugar de pertencimento dela. É uma conexão psíquica muito profunda e por isso é angustiante para a criança ter de lidar com a ausência da mãe. Já o pai representa a conexão com o mundo e tem de construir uma relação própria com o filho. Ele precisa compreender essa dinâmica para não tomar a atitude do filho como uma recusa e se afastar dele”, explica a psicóloga e psicanalista Raquel Jandozza, mãe de um casal de 6 e 3 anos.

Curiosamente, é justamente quando seu filho começa a desenvolver autonomia, depois de ter se descoberto um ser individual separado da mãe, e passa a interagir mais com você é que essa falsa rejeição se aflora. O maior indicativo dessa fase é quando o pequeno adquire o controle do esfíncter e isso costuma ocorrer por volta dos dois anos (fase do desfralde). São muitas descobertas, carregadas de medo e frustrações.

“Nesta primeira fase da conquista da autonomia a criança começa a se distanciar mais da mãe, mas ainda se equilibra naquela balança emocional onde a mãe ainda é a principal referência para os seus sentimentos e por quem ele nutre um medo inconsciente de perder. O pai entra na fase da conquista  da autonomia e é extremamente  importante que ele estimule a autoconfiança e a autoestima para que ela se liberte dos medos e explore o mundo”, conta o terapeuta e consultor das relações humanas Plínio Teodoro, pai de um casal de 2 anos e de 6 meses.

Raquel conta que as mães tem papel fundamental nesse desmame, confiando na capacidade do pai em estabelecer conexões igualmente profundas com a criança sem medo de ver seu lugar ameaçado. “O pai pode ter conexões com o filho tão fortes quanto a mãe. É importante que não haja nenhuma disputa. Ninguém está sendo trocado. A mãe não pode ter medo de o marido ameaçar o lugar dela”, relata.

Mamãe de barba
Além do vínculo materno na primeira infância, a maioria dos pais que já se sentiram rejeitados percebeu que as crianças se manifestam desta forma quando estão cansadas, irritadas ou frustradas. Nestes momentos preferiram agir com naturalidade, respeitando a vontade da criança e se colocando à disposição dela. Sair de cena acreditando que isso é apenas uma fase passageiro pode ser um erro com seqüelas mais difíceis de reverter.

Mas e quando mãe, único ‘objeto’ de desejo da cria naquele momento, não está? E quando você precisa assumir a função porque só sobraram você e seu filho na casa?

Sem nenhuma comprovação empírica prévia, nenhuma referência bibliográfica, eu apelei para a mamãe de barba, uma personagem que criei em casa no desespero daquelas semanas de tensão e que até hoje é lembrada pelas meninas como uma gostosa brincadeira. Toda vez que a minha mulher saía de casa para o trabalho a mamãe de barba surgia em nosso lar. Dona de uma voz ridiculamente fina, com os trejeitos da mãe (que a Fernanda não me peça para imitar agora) e a bobeira do pai, ela conquistou o coração das meninas e tornou nossas manhãs e até as noites mais leves.

Bom, pra você que não tem barba sei que já existem no mercado as versões mamãe de bigode, mamãe careca, mamãe peluda, mamãe barriguda ou o que a sua imaginação permitir.

Se você já se sentiu rejeitado compartilhe com a gente seu relato e como agiu diante desse desafio.

* Pesquisa não-científica feita com grupo de pais pelo WhatsApp