Símbolo da Justiça. FOTO: Pixabay

Ela passou o fim de semana sozinha com os três filhos porque o marido viajou a trabalho. Ela é mãe, não fez mais do que a obrigação.

Ele passou o fim de semana sozinho com os três filhos porque a esposa viajou a trabalho. Uau! Que paizão!

Ela saiu correndo mais cedo da empresa para buscar a filha doente na escola e levá-la ao médico. Ele é mãe, era isso que se esperava dela.

Ele saiu correndo mais cedo da empresa para buscar a filha doente na escola e levá- la ao médico. Ele não é qualquer pai, é um exemplo de pai.

Basta trocarmos o sujeito da oração, ou melhor, o gênero do autor dessas ações para chegarmos a predicados distintos no final.

O que muitas vezes é visto como negligência da mãe é destacado como autoconfiança do pai. O que é tachado de desleixo materno se torna originalidade sob a batuta paterna. Enquanto que a maternidade acarreta um ‘descompromisso profissional’, o compromisso familiar ganha ares de virtude na paternidade.

No dia a dia nem percebemos que essa é a métrica que baliza a maioria dos julgamentos (reais e virtuais) dos pais nos tribunais de cada esquina.

No meio político, esse tipo de benefício jurídico atribuído ao cargo que uma pessoa ocupa recebe o nome de foro privilegiado, um mecanismo colocado na Constituição para garantir proteção ao exercício de uma determinada função de extrema relevância e que não pode ser ameaçada a qualquer preço, como um chefe de Estado.

Na nossa cultura machista esse benefício foi marginalmente atribuído à função de pai, então chefe de família, ao longo da história, mas a sua injustiça só foi ficando escancarada a medida em que os pais começaram a executar as mesmas funções domésticas das mães e, ainda assim, permaneceram recebendo um tratamento privilegiado.

“Deixa ele dormir a noite porque amanhã ele trabalha”.

Em tese, esse foro especial serviria para garantir um julgamento mais justo, sem atropelo, diante de um colegiado qualificado e menos propenso a pressões externas. Mas, na prática, virou sinônimo de imunidade e, por vezes, impunidade.

No caso dos políticos, o STF acabou de restringir tais vantagens, em uma decisão histórica na semana passada e após um apelo da sociedade, cansada do excesso de proteção aos engravatados.

Mas e o foro da paternidade? Até quando restará de pé?

Não serão homens e mulheres de toga, ministros do Supremo, que vão acabar com esse foro em uma sessão televisionada numa tarde de quinta-feira, até porque ele sequer está previsto na Carta Magna. Essa desconstrução precisa ser construída e o primeiro passo é reconhecer essa desigualdade.

No mês passado, defendi a extinção do foro em um debate sobre paternidade promovido pela Revista Crescer. Minha fala foi destacada na página do evento no Facebook e, em pouco tempo, fui criticado por dois pais revoltosos na internet (a maioria que comentou comprendeu meu argumento).

“Somos julgados o tempo todo”, rebateu um dos críticos. “A diferença é que pais não julgam uns aos outros. Na maioria das vezes, somos julgados dentro da família mesmo: você é desajeitado, não sabe dar banho, não é assim que se dá comida, não fala assim com ele, você está agitando demais, pai não deve dar banho em filhas meninas, lugar de filho é com a mãe, pai não sabe cuidar”.

Respondi a ele que sei que muitos homens sofrem esses julgamentos dentro de suas casas ou perante toda família. Mas acredito que isso seja reflexo de um histórico de omissão paterna nessas tarefas domésticas que a nossa geração está se vendo obrigada a mudar. “Pai não sabe cuidar” porque no passado não se cuidava. “Lugar de filho é com a mãe” porque no passado esse era o único lugar.

Não estou dizendo que os pais de ontem se furtaram a ajudar suas companheiras em casa de forma deliberada e maquiavélica, mas que esse aspecto cultural da nossa sociedade produziu um efeito danoso que ao longo do tempo sobrecarregou as mães.

Uma das sequelas do machismo é fazer com que homens e mulheres vivam em permanente (por vezes oculta) disputa parental, numa guerra dos sexos na qual não há vencedor e cuja primeira vítima são os filhos.

Não agrega nada vitimizar o pai ou a mãe dependendo da circunstância. Sei que as condições variam conforme as familias e se alteram bastante quando os pais se separam, por exemplo. Mas precisamos reconhecer algumas injustiças históricas para desconstruir juntos (pai e mãe) essa visão ultrapassada de que não sabemos ou não podemos fazer determinada coisa com o filho ou filha só porque somos homens.

Repensar nossa conduta, parar de elogiar o pai que apenas cumpre a sua função paterna e começar a questionar esse foro especial já seria um presente nosso (homens e mulheres) para esse Dia das Mães.

Leia mais:

Tá de babá?

Minha casa não é um harém