Arte no Tapume. FOTO: Arquivo Pessoal

Começou antes da adolescência e resistiu à fase adulta. Não foram poucas as vezes que engoli a raiva e disfarcei uma indiferença banal quando os caras (a maioria amigos) me reportavam os atributos físicos e as supostas fantasias que nutriam pela minha irmã, um ano e meio mais nova do que eu. Brincadeira típica de moleque (a maioria sem irmã) que eu fingia ignorar de forma estratégica para  não fomentar meu próprio calvário. Havia uma máxima de que quem mais se irritava com as provocações era o mais cristianizado.

Na maioria das vezes minha tática até que funcionou, embora tenha alimentado, em algumas ocasiões, um certo ódio (mais do que ciúmes) da minha irmã porque, embora ela não soubesse, eu estava sendo zuado por causa dela. O fato é que tolerei por muito tempo esse assédio cruzado como se eu tivesse de pagar nessa vida algum pecado masculino cometido em outra encarnação.

Agora, quinze anos se passaram e aqueles velhos pressentimentos reapareceram, de forma mais dolorida e em ações mais sutis. Desta vez, o alvo são as minhas filhas, um golpe ainda mais duro na hombridade. O tom continua sendo de brincadeira, agora com um verniz juvenil, mas a vertente permanece machista e o resultado, uma ofensa muitas vezes difícil de digerir.

Se no passado eu me recolhi, até porque naqueles anos de Teste de Fidelidade e Banheira do Gugu essas angústias não tinham tanta ressonância na sociedade, hoje eu uso as armas que tenho à disposição  para combater essas pequenas agressões, que vitimizam meninas e meninos.

Não quero que meu filho sofra o mesmo bullying que sofri (na época nem tinha esse nome moderno) só porque tem duas irmãs. Não quero que o autor dessa pequena violência seja o seu filho, muito menos o meu filho. Mais do que isso, quero que as minhas filhas e todas as meninas cresçam e vivam numa sociedade menos machista, onde homens e mulheres se respeitem de forma igual. Elas não são mercadorias e você, por mais que seja meu brother, não pode tratar nenhuma delas dessa maneira hostil.

Eis abaixo as respostas que queria dar (não o fiz pessoalmente para não perder a amizade) para cada um dos comentários torpes que vira-e-mexe ouço por aí, na rua, no bar, na minha casa, no meu trabalho, na brinquedoteca do condomínio.

Não, eu não sou fornecedor de ninguém só porque tenho duas meninas. Você é quem deve parar de consumir essa cultura retrógrada para ensinar melhores valores ao seu filho.

Não, eu não serei o sogro do seu filho a não ser que uma das minhas filhas ou o meu filho (eles podem ser gays, já imaginou?) queiram.

Não, seu filho não vai ficar com as minhas duas filhas só porque elas são “iguais”.

Não, meu filho caçula não veio para botar ordem na casa.

Não, minha casa não é um harém.