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Uma vez li sobre um restaurante que não aceitava crianças e que, ao ser acusado de preconceito e de engrossar o horroroso movimento child free, disse que nãoooo, imagina, a proibição era motivada por uma “preocupação com a segurança” dos pequenos, porque o ambiente era “cheio de escadas” e “perigoso”. Também existem hotéis onde os filhos não são bem-vindos e a desculpa são as “piscinas muito fundas” e a “falta de estrutura” para as crianças.

Cada vez que um lugar se posiciona desta forma, excluindo nossos filhos com a desculpa que, no fundo, no fundo, a preocupação é com o bem-estar deles, os pais são tirados dessa equação, como se não coubesse a nós a decisão sobre o que é melhor ou não para as crianças, quais os lugares podem ou não frequentar – um lugar cheio de escadas pode ser o responsável por um tombo daqueles, mas também pode ser a chance de ensiná-las a subir e descer em segurança, segurando no corrimão, assim como uma piscina funda pode ser a oportunidade de se aprender a nadar, ou temer a água, dependendo das sensibilidades de cada família.

Semana passada fiquei sabendo, da pior forma possível, que as crianças também não são bem-vindas como visita nos hospitais, “são regras, senhora”,  feitas para “o bem-estar do seu filho”. Eu nunca tinha planejado levar uma criança em uma UTI até meu pai sofrer um infarto e, depois de passar por uma série de exames, começar a pedir pelo neto. Ele não escondia a decepção ao se deparar, durante as visitas, apenas com os de sempre: eu, meu marido e minha irmã, seus parentes mais próximos. Toda a vez que entramos para vê-lo, a pergunta: “Mas onde está o meu pequeno?”

Meu filho e o avô são os melhores amigos que podem existir. Se veem todos os dias. Meu pai é quem busca o neto na escola, assiste aos jogos de futebol e às lutas do judô. E ele que apresenta os pais das crianças recém-matriculadas aos das que estudam no colégio há mais tempo, sabe quando vai ter reunião, que feriados a escola vai “emendar” e quando há festinhas de aniversário. Aposentado, tem no neto sua ocupação principal. E foi retirado abruptamente dessa rotina quando infartou.

Meu filho também se mostra mexido e mesmo sabendo que o avô não corre mais perigo de morte, quer vê-lo com os próprios olhos, abraçá-lo, cheirá-lo. Diz que está com o coração “pequeninho”, que sente saudade, e pede para ir ao hospital. Decidimos levar, tentar a sorte, apelar para o bom senso da enfermeira-chefe da ala onde meu pai está internado. No primeiro dia deu certo: ela escreveu uma autorização simples em um desses blocos de receituário, permitindo a visita, e deu um sorriso ao ver o abraço apertado entre os dois, que fizeram planos, falaram do Corinthians e do Fluminense, seus times do coração, e prometeram se encontrar no dia seguinte, domingo de Páscoa.

Enquanto as crianças faziam a tradicional caça aos ovos, meu filho se arrumava todo para ver o avô, seu presente desta Páscoa. Quando chegamos ao hospital, nada feito: a enfermeira de plantão impediu que ele entrasse na UTI, que estava mais calma e emotiva que nos dias anteriores. “Regras são regras”, disse. Lembro que existem diversos estudos que comprovam que a proximidade dos familiares ajuda na recuperação dos doentes, conto que meu pai está doido para ver o neto, apelo para o coração, é Páscoa, dia da ressurreição de Cristo.  Tudo em vão.

Quem fez essas tais regras? Não sabemos. Mas elas estão escritas lá, em algum livro empoeirado em uma sala daquela instituição. E são tão importantes que não se curvam à informação de que o pequeno está na recepção, decepcionado, enquanto o avô com os olhos cheios de lágrimas, frente à negativa. “Não posso abrir exceção”, ouvimos. “É para o bem do seu próprio filho”. Claro que é. Todos sabem o que é melhor para as crianças, menos sua mãe.

Depois de uma busca em lugares confiáveis – afinal nosso instinto vale quase nada – li que tal proibição se remete a um “risco de infecção hospitalar”, descartado pelo próprio estudo onde encontrei essa informação, publicado pela Revista Brasileira de Terapia Intensiva. O texto também revela que as crianças podem até ficar impressionadas com o ambiente de uma UTI, mas isso não deve servir como obstáculo à visita, porque os pequenos, veja só, “têm capacidade cognitiva, intelectual, afetiva e emocional” de lidar com a dor e o sofrimento e podem ficar até menos ansiosos quando conseguem visitar alguém que amam e que está internado. Palavras de psicólogas, não de mãe. Então talvez os hospitais possam agora mudar de ideia, não é mesmo?

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