JP SAO PAULO 09.06.2005-00:30 HS/ JT VARIEDADES DIVA DO FUNK/ ENTREVISTA COM A FUNKEIRA TATI QUEBRA BARRACO, NA CASA DE SHOW LOVE, RUA PEQUETITA 189, VILA OLIMPIA. FOTO DIGITAL JOSE PATRICIO/ ESTADAO

Foto: José Patrício/Estadão

Quando o avião da empresa aérea LaMia caiu na Colômbia matando jornalistas, dirigentes e atletas, o país se comoveu com várias histórias, mas teve uma que tocou o coração dos brasileiros de forma particular. A mãe do goleiro Danilo, do time da Chapecoense, expôs toda a sua dor e força na televisão ao falar sobre a perda do filho, que chegou a ser socorrido depois do acidente com o avião que levava a Chapecoense para a final da Copa Sul-Americana, mas não resistiu.

“Meu Deus! Quanta tristeza! Essa mulher é uma guerreira! Que deus força para essa família!” , um internauta comentou.

“Não dá nem para imaginar o que essa mãe está passando, que sofrimento!”, li no Twitter. “Que mulher maravilhosa! Não merecia passar por isso!”.

Pouco mais de uma semana depois, foi a funkeira Tati Quebra Barraco que perdeu o filho, Yuri, morto a tiros na favela de Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. A cantora recebeu a notícia pelo telefone, durante um show, e também estava há centenas de quilômetros de onde o filho morreu. Também desabafou. “Mas meu filho… porque isso com a mãe? Em que eu errei? Em que não fui rude? O que eu deixei faltar? Você e seus irmãos sabem o que eu fiz e venho fazendo pra dar o melhor pra vocês”, escreveu em seu Facebook.

Mas a opinião pública, desta vez, não se emocionou. A acolhida à Tati foi oposta. Ou melhor, não houve acolhida. A funkeira foi chamada de “cretina” e o filho dela de “vagabundo” e de “lixo”. “Compaixão por essa péssima mãe? Me poupe, se poupe e nos poupe. Ele e ela não tinham compaixão das vítimas que ele roubava”, li há pouco no Twitter.

Segundo o dicionário Houaiss, a compaixão é “um sentimento piedoso exclusivamente humano de simpatia para com a tragédia pessoal de outrem, acompanhado do desejo de minorá-la”. É também a “participação espiritual na infelicidade alheia que suscita um impulso altruísta de ternura para com o sofredor”.  Houaiss não sabia que, dezesseis anos depois de sua morte, estaríamos vivendo tempos de tanto ódio que seria possível atualizar esse verbete do dicionário – e para pior. As redes sociais trouxeram à tona um novo sentimento, o da “compaixão seletiva”, e ele funciona assim: Eu só sinto piedade com sua tragédia pessoal se, ao medi-la pela minha régua, achar que você é uma “pessoa de bem”. Tatiana é funkeira, canta coisas como
‘Tenho fama de putona só porque como seu macho, não adianta, de qualquer forma eu esculacho”. Foi mãe cedo, é negra, gorda, desbocada e da periferia. Fez dezenas de cirurgias plásticas. Usa camisetas onde está escrito: ‘Quem tá comendo, não tá reclamando’. Ou seja. ‘É puta’. O filho dela que morreu já tinha passagem pela polícia. ‘É bandido’. 

Bandido tem que sofrer, puta tem que sofrer, bandido bom é bandido morto, prega a família tradicional brasileira. E não sou quem digo isso, faça uma busca nas redes com #TatiQuebraBarraco e veja com seus próprios olhos como a morte de um menino de 19 anos e o sofrimento de sua mãe têm levado algumas pessoas ao êxtase. Claro que há gente se compadecendo do episódio, sempre tem, mas a compaixão não me surpreende, o ódio sim.

Tati nasceu em Cidade de Deus e conhece violência como ninguém. E depois de passar a vida pisando em poças de sangue, vendo jovens e crianças sendo assassinados sem comoção alguma e criar coragem de dizer publicamente que a PM foi a responsável pela morte de seu filho, não iria se curvar aos caluniadores e agressores covardes que se escondem cada vez mais por trás das telas dos computadores. Ela avisou, em seu Facebook, que “a consequência tá formada” e que já há “uma equipe cuidando das denúncias informáticas”. “Um ótimo dia a todos”, desejou Tati em uma mensagem hoje em seu Facebook. “A luta é minha e eu vou até o final”, avisou. Um abraço em você, Tati. E outro abraço também na dona Alaíde, mãe do Danilo. Quem é mãe sabe que a dor de vocês é igual.