"Recalculando a rota".

“Recalculando a rota”

 

Dia desses eu e meu filho chegamos adiantados à aula de natação e só por isso percebi que não havia alunos matriculados na turma anterior, também reservada às crianças. Pensei então em trocá-lo de horário, porque assim ele teria atenção exclusiva do professor e “aproveitaria mais”. Na sua turma atual há mais duas crianças, um casal de gêmeos. Decidi perguntar o que meu filho pensava sobre essa suposta mudança. “Mamãe, eu tenho amigos na natação e quero continuar nadando com eles”, sentenciou. Respeitei, claro. E refleti: Por que mexer em time que está ganhando? Samuca dava sinais de estar feliz e satisfeito e, entre um mergulho e outro, não parava de fazer gracinhas típicas da idade com os novos colegas. De onde vem essa obsessão nossa de pensar em “desempenho” e “resultado” em detrimento da liberdade, felicidade e das amizades conquistadas pelos nossos filhos?

Cada vez que o ranking do ENEM com as melhores escolas é divulgado, muitos pais, cheios de boas intenções, claro, fazem planos para o futuro de seus filhos de olho na tal lista. Procuram os estabelecimentos mais bem posicionados. Colocam seus filhos para fazer “testes”. Tiram as crianças daquela escolinha de educação infantil tão simpática, acolhedora e cheia de amigos e colocam naquela onde há aulas de alemão. Onde já se ensina mandarim desde a educação infantil. Matriculam os pequenos tão pequenos em cursos extra curriculares, que os “ajudarão a entrar nas melhores universidades”. Isso dali a… 15 anos. Ou mais.

Eu já fui um desses pais cheios de planos e estratégias, confesso. Adorava pesquisar sobre escolas bilíngues, sonhava em ver o Samuca aprendendo o “the book is on the table” ao mesmo tempo em que aprendia o nosso português. Mas um belo dia decidi parar de olhar para os meus bem traçados planos e comecei a olhar para o meu filho com mais atenção. Quem era aquele menino? Era um menino que, como todas as outras crianças da mesma idade, adorava brincar. Se fosse ao ar livre, ainda melhor. Era um menino que trocava tudo para passar um tempo maior com seus pais. Era um menino com sede de aprender tudo o que seus pais estão dispostos a lhe ensinar.

Uma escola bilíngue exigiria que ele ficasse tempo demais longe de casa – escolas que ensinam os dois idiomas são, geralmente, em período integral. (Recalculando a rota.) Então em vez de período integral, meio-período. Em vez de aula de idiomas, parques. Em vez de alfabetização aos 5 anos, bichos, música, tintas, pincéis e amigos de todos os gêneros, etnias e necessidades especiais. Aprender a ser um menino gentil e tolerante sempre foi, pra nós, mais importante do que aprender o abcdário.

Da mesma forma que o melhor caminho não é necessariamente o mais curto ou o que foi o mais planejado (olha o Waze aí, propondo-nos trajetos alternativos a todo momento), nossos filhos não serão necessariamente melhores se tirarem a fralda antes dos colegas, se aprenderam a ler antes dos filhos dos nossos amigos, se falarem inglês, espanhol, mandarim ou se frequentarem as melhores faculdades. Eles serão melhores, se forem mais felizes. Eles serão melhores, se forem gentis. Se aprenderem a dizer bom dia, muito obrigado, por favor. Se aprenderem a se relacionar, conviver em sociedade. E isso eles vão aprender com a gente, a cada recálculo de rota, e não naquela escola estrelada no topo da lista do Enem. 

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