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Até ‘ontem’ ela ia para a sua cama todos os dias e precisava da sua ajuda para comer, escovar os dentes e se vestir. Não, ela ainda não é alguém completamente independente, é só uma criança que, olha só, já não grita mais de dentro do banheiro para que limpem seu bumbum. Quando você percebe já está de volta à brincadeira, depois de dar a descarga e lavar as mãos sozinha.

Mas alguma coisa mudou. Algo grandioso, porque você viu seu até então bebê organizar os próprios brinquedos para levar em uma viagem. Sim, ele foi viajar sem você. Várias vezes em um mês, aliás.  Vocês já tinham se separado algumas vezes, apenas por uma noite, quando deixou que dormisse na casa do avô. Mas nessas férias ele viajou sozinho com o pai, com a madrinha, com o padrinho, com a tia e os primos, emendou um passeio no outro. Por isso você se viu arrumando uma mala cheia de coisas no plural: shorts, camisetas, meias, calções de banho, cuecas, alguns pijamas, shampoo, condicionador, remédio da alergia. “Olha, mamain, Allegra tem dois “l”, olha só!” Sim, seu filho também já aprendeu a ler e já sabe identificar o xarope que toma quando entra em crise.

Junto com aquela mala de rodinhas que, assim como ele, dispensa ajuda para se locomover por aí, e com aquele tchau, mamain, sem olhar para trás, chegaram também duas certezas: seu filho cresceu. E não precisa mais de você do mesmo jeito que precisava antes.

Iupii! Que alívio.

Hora de dormir tudo o que você não dormiu nos últimos anos.

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Doze horas de sono depois (!) um banho demorado, daqueles que você nem lembra mais como é porque tem sempre alguém batendo na porta.  Procura aquele creme que promete salvar seus cabelos dos maus tratos naqueles 20 minutos que você nunca tem. Agora todo o tempo do mundo é seu e, por isso, decide ostentar e deixa o creme agir por uma hora, enquanto lixa os pés, ouve música, bebe várias taças de qualquer coisa alcoólica. Sua destreza, velocidade, equilíbrio e coordenação motora prometem não ser exigidos nas próximas horas. Ou nos próximos dias.

De repente sente-se poderosa, dona do próprio tempo, e decide encarar um episódio atrasado de sua série favorita. (Paramos em Lost?) Horas depois academia, como é bom fazer ginástica sem pressa, sem olhar para o relógio e parar o exercício no meio porque está na hora de correr para casa para preparar o almoço ou o jantar. Deu tempo até de fazer abdominal sem roubar na conta, isso é luxo.

No dia seguinte decidiu encarar o guarda-roupa de frente, há quantos anos você procurava uma brecha para separar as peças por cores e tamanhos, arrumar aquela bagunça toda, separar o que usa do que não usa, o que não serve mais do que ainda entra (tanta coisa, Deus, o que aconteceu com o tamanho do meu quadril?)

A ida ao mercado parece uma festa. Cerveja, vinhos e queijos se esparramam alegremente pelo carrinho sem dividir espaço com o biscoito de polvilho e o iogurte da turma da Mônica. Quem olha ao redor terá certeza que aquela, sim, é uma compra de uma adulta sem filhos, que mãe ousaria levar para casa tantas barras de chocolate em tempos de epidemia de obesidade e patrulhas sociais? Nenhuma. Se com o filho em casa você joga chia na salada, no arroz, no feijão, com ele fora se vê abrindo a embalagem de Kit Kat à luz do dia, fazia tempo que não comia nada proibido assim, sem ter que se esconder no escurinho banheiro para consumar o crime.

Sai para o trabalho sem hora para voltar para casa. Não ter de desligar o computador correndo no final do dia dá um alívio danado, recomendo. Dá até para esperar um metrô mais vazio, fazer o trajeto sentada em vez de se acotovelando por um espaço onde haja oxigênio para respirar. Até há para onde voltar. Mas não para quem voltar.

Sim. Chegar em casa estava meio sinistro, confesso. Um silêncio ensurdecedor. Tudo milagrosamente no mesmo lugar onde foi deixado horas antes. Nenhum brinquedo espalhado pela sala e corredor, nada de tropeçar em pares de tênis jogados no chão do banheiro, zero roupas cheias de terra para lavar. A casa parecia um daqueles apartamentos decorados pelas construtoras, onde a o sofá combina com o tapete e a cortina, há bibelôs enfeitando a mesa de centro e não se vê marcas de dedos engordurados na parede, nem manchas de Yakult nas almofadas. Tudo assustadoramente em ordem. Que tristeza.

Mas os dias passaram e o filho voltou. O caos também já deu um oi, que alívio, estava com saudades. Cheguei do trabalho e encontrei um montão de roupa para lavar. Amanhã as aulas voltam, será que tem dinheiro no cartão de lanchonete da escola? Os lápis precisam ser apontados, mas o guri já tomou a iniciativa. Vou postar esse texto e sair correndo para checar mochilas e uniformes. Vixi, ficaram curtos. Realmente, meu filho cresceu.

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