injecaoSamuca nunca tinha dado trabalho no momento de tomar as tão temidas vacinas. Mas agora que cresceu e entende tudo de tudo e mais um pouco, resolveu surpreender. E não aceitar mais nada calado. Decidi que hoje era dia de levá-lo à clínica para tomar a vacina da gripe depois de duas tentativas frustadas. Na primeira, fila de quase 40 minutos. Na segunda, ele amanheceu resfriado. Com o inverno batendo à nossa porta e a promessa do sábado mais frio do ano decidi que de hoje não passava.

Depois do café da manhã, dentes escovados e tals eu contei que a gente ia se arrumar para sair de casa com esse objetivo. Ele chorou. Na verdade, ele se desesperou. Disse que odiava “doência” – nome que ele usa em vez de injeção e que eu nunca corrijo porque acho fofo (podem me julgar, mãe tá super acostumada). Correu para o colo do pai, soluçando. Enquanto Sérgio o acalmava eu tentava explicar, em vão, que a vacina doía um pouco sim, mas só na hora. E que a dor valia a pena porque a vacina coloca vários soldadinhos no sangue da gente para lutar contra o temido vilão – o vírus da gripe. Nem com essa explicação meio “Alien – O oitavo passageiro” ele se acalmou. Pelo contrário, começou a chorar com os lábios tremendo de medo. Meu marido fez aquela cara de “para com isso”. Parei, pensei e decidi que não ia contar uma história da carochinha para ele ou falar que “tudo bem, você não vai tomar a vacina”, colocar no carro para ele descobrir 15 minutos depois que a mamãe tinha mentido. Isso não estava nos planos.  Pedi para que se acalmasse, peguei a carteirinha de vacinação e mostrei o quanto ele já tinha sido corajoso nessa vida. Cada carimbo naqueles quadradinhos brancos era sinal disso. “Acho que não sou mais corajoso, mamãe”, disse com os olhos cheios de lágrimas.

Ele veio pro meu colo, chorou, chorou e chorou. Saímos de casa e o destino era então conhecido por ele. Ao chegar à clínica duas outras crianças com cara de poucos amigos. Chegou a vez do Samuca e a enfermeira disse que ia ser como uma picada de formiguinha. Ele baixou a cuequinha, deitou no meu colo e aguentou a injeção chorando baixinho. Levantou magoado. A enfermeira correu e o presenteou com um pirulito. As crianças da sala de espera olharam imediatamente para ele quando a porta se abriu, naquela tentativa de ver o rosto do coitado do menino que deu azar e entrou antes naquela sala dos horrores. Mas viram uma criança calma, pirulito na boca com cara de “não é que minha mãe tinha razão?” Ele jogou o plástico do pirulito no lixo, parou e pensou como quem sente algo que nunca sentiu antes e falou: “Mamãe, é verdade! Os soldadinhos estão subindo pelo meu corpo para lutar contra o vírus. Eles passaram pelo bumbum e estão agora aqui no meu joelho!”, apontou, feliz com a descoberta.