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Você coloca seu filho na cadeirinha do carro e segue para deixá-lo na escola, antes do trabalho. Liga o rádio para conseguir algumas informações sobre a vida e o trânsito, mas é brindado com a série de notícias de sempre: denúncias de corrupção, prisão de políticos e comentários cínicos não somente dos acusados pelas más práticas, mas também de alguns jornalistas que apelam ao discurso fácil de que a Política é isso aí, uma porcaria sem tamanho.

A lição de casa do meu filho semana passada foi escolher um livro de sua pequena biblioteca para dividir na roda de leitura da classe. Sugeri “A democracia pode ser assim”, da Boitempo, que ganhamos ano passado. Ele torceu o nariz quando eu disse que era sobre Política, certamente influenciado por todas as coisas que ouve e vê aqui e ali. Mas se rendeu assim que contei que a democracia nasceu na Grécia e significa o “governo do povo”, ou seja, é a forma de governo que coloca em nossas mãos o poder de escolha dos governantes. O pai ajudou na primeira leitura, que tinha que ser feita para que ele pudesse explicar aos colegas, durante a aula, porque tinha escolhido aquela publicação para apresentar à sala.

No final da tarde encontrei meu filho empolgado na saída da escola.  Ele me contou que a professora “adorou o livro” e acabou dedicando um tempo maior do que o previsto ao assunto (adoro educadores que aproveitam os ganchos do dia a dia para inserir alguns temas em sala de aula). Samuca disse que a roda de leitura tinha virado um “bom bate-papo” com os amigos.  Sem pré-conceito, porque não ouviu nem de mim, nem do pai, tampouco da professora nenhum juízo de valor sobre Política, disse que achava legal o conceito de eleições diretas. Ficou contente quando eu contei que fui eleita quatro vezes representante de sala na minha época de escola. Logo perguntou se também podia ser candidato. Eu disse que sim e acrescentei que, além de representante de turma, também poderia ser vereador, prefeito, governador, deputado, presidente da República.

“Será que só os meus amigos votariam em mim, mamain?”, perguntou. Eu disse que se ele tivesse boas propostas poderia conquistar os eleitores que votam em projetos, não em pessoas. Perguntei por quais ideias lutaria se eleito. Ele logo concluiu que “não ter mais lição de casa” era uma proposta que tinha apelo junto aos pequenos eleitores, mas sabia que, no fundo, não era boa para ninguém. Daí decidiu que “aumentar o tempo do recreio” para que as crianças possam brincar mais parecia “muito justo” e, por isso, proposta mais fácil de ser negociada com a diretora da escola. Aproveitei para lembrá-lo que prometer algo e não cumprir poderia fazer com que seus colegas se sentissem enganados e nunca mais votassem nele. “Eles ficariam decepcionados comigo, né?”, concluiu. Demos risadas de algumas ideias absurdas que poderiam surgir em uma eventual campanha eleitoral para representante de classe e um pouco sobre o conceito filosófico de “bem comum”.

Um papo assim, tão produtivo, fez com que eu pensasse em como estamos errando ao deixar que nossos filhos se contaminem pelas barbaridades que repetimos na frente deles, à exaustão, sem pensar. Quantas vezes dissemos em voz alta que “não adianta nada votar”, que “os políticos não valem nada” e “são todos iguais”? Dezenas de vezes. Mas se a gente pensar bem, não são todos iguais não. Basta olhar ao redor, com um pouco de atenção. Olha aí o Samuca ensaiando seus primeiros passos na política, cheio de boas intenções? Uma conhecida, a Andréa, que luta lindamente pelas crianças com autismo, também contou dia desses que considera a hipótese de se candidatar à deputada federal. Também tenho algumas amigas-mães porretas que, cansadas de esperar sentadas por melhorias na educação, na saúde e no respeito aos direitos das mulheres e das crianças, já se apresentaram ao jogo e foram eleitas membros dos conselhos participativos regionais da cidade de São Paulo no final do ano passado.

Ah, mas Política é sinônimo de corrupção, é coisa de quem joga sujo! Poxa, não é mesmo. Corrupção é dar um “dinheirinho” para alguém “resolver” aquelas multas da sua carteira de motorista ou comprar uma carteirinha falsa de estudante para pagar mais barato o ingresso do cinema. Corrupção é contratar alguém para fazer um “gato” na energia/na água/na tevê a cabo. Política é outra coisa.

Precisamos fazer um mea-culpa e conversar mais sobre política com os nossos filhos, mas também precisamos discutir política de forma séria entre nós, durante o café da manhã, o almoço e o jantar. Não estamos sendo imaturos quando colocamos a responsabilidade pelos nossos infortúnios na forma de governo em vez de enxergar que ela deveria recair sobre nós? Se estamos mal representados, a responsabilidade é nossa, só nossa, que não fazemos a lição de casa direito, não cobramos nossos candidatos e desperdiçamos a chance de escolher pessoas que realmente acreditam que a Política é o caminho para uma vida mais justa e digna. Olhe ao redor. Quem sabe tenhamos candidatos como o Samuca daqui a alguns anos. Para a eleição em 2018, talvez a Andréa, mãe do Theo, crie coragem. Se a gente conversar mais sobre o assunto, talvez um monte de gente boa deixe o preconceito de lado e decida se candidatar. Gente como eu. Como você.

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