Entrei no metrô, sentei e abri a bolsa. Peguei o livro que acabara de ganhar e ao primeiro olhar torto, meio incrédulo, me dei conta. Não dá para ler em público um livro chamado “Mães Arrependidas, uma outra visão da maternidade”, simplesmente não dá.  Dizem que é comum julgar um livro pela capa, só que mais comum ainda é julgar uma mulher não apenas pelo que ela lê. Mas também pelo o que ela pensa ou deixa de pensar. Faz ou que deixa de fazer. Sente ou deixa de sentir.

“Você vai se arrepender!” – é o que ouve por aí toda mulher que decide não ser mãe. Mas jamais pode se dizer arrependida depois de ter colocado um filho no mundo, jamais encontra espaço para admitir que a escolha pela maternidade foi um erro, não há espaço para mudar de opinião, lamentar ter se deixado levar pelas circunstâncias ou pelas convenções sociais que apontam que esse é o “caminho natural” a ser trilhado por uma mulher, o “próximo passo” depois do casamento, a decisão acertada devido ao tal “relógio biológico”, que está pressionando. Também não há espaço para falar sobre o assunto. Ou não havia.

A antropóloga Orna Donath, ela mesma decidida a não ser “mãe de ninguém” decidiu abrir essa caixa de Pandora e ouviu vinte e três mulheres israelenses que se arrependeram da maternidade. Ela é autora do livro que eu abri no metrô, uma tentativa bem-sucedida de desmistificar a máxima de que mulher “nasce para ser mãe”, tem um “instinto natural para a tarefa”.  Orna se dedicou, durante anos, a oferecer um espaço seguro para que essas mães contassem seus pensamentos e arrependimentos. E conseguiu. Ao ouvir mulheres de todas as idades, algumas já avós, conseguiu driblar os argumentos de que o começo da maternidade ‘é mesmo difícil, depois melhora’, (às vezes não melhora nunca) de que as mulheres logo esquecem as turbulências iniciais e ‘começam a curtir’ os filhos, porque ‘ser mãe é a melhor coisa do mundo’ (pode ser para mim, mas não para você). Existem mulheres que nunca quiseram ser mães. Mas muitas foram. Porque achavam que era sim que a vida tinha de ser.

Tirtza*, mãe de dois adultos com idade entre 30 e 40 anos também e avó. Ela contou à autora que a maternidade nunca se encaixou em sua vida. “Eu faço coisas. Eu ligo, me preocupo, fico angustiada, é claro, pergunto, me interesso, visito, convido eles para passarem os feriados comigo e faço toda essa encenação de família, todo esse teatro – mas não é real, eu não me identifico com isso. Visito meus netos, tenho um relacionamento com eles, mas não é algo que eu me interesse realmente. Não sou eu de verdade. O tempo todo eu penso: quando isso tudo vai acabar para eu poder ir para cama e ler um livro, ver um bom filme, ouvir um programa de rádio? Essas coisas me interessam mais, me agradam mais, têm mais a ver comigo. Cuidar do jardim, tirar as folhas do quintal… isso me agrada mais. Até hoje”.

Mas por que as mulheres, até então, nunca puderam dar ouvidos a algumas de suas vontades mais secretas, entre elas a de não serem mães? Por que decidiram engravidar mesmo que ser mãe nunca tivesse sido um desejo real? Orna também foi em busca dessas respostas.

” Por que você teve filhos?”, perguntou a Sunny*, mãe de 4 , de idades entre 5 e 15 anos.

Em certo momento eu achei que tinha chegado o momento de passar a etapa seguinte. Além disso, achava que era a coisa certa a se fazer e que seria bom para o meu casamento e para mim. Não sabia o que significava na realidade“.

Também perguntou à Debra*, mãe de dois que têm idades entre 10 e 15 anos.

Não foi porque eu queria, mas foi o preço que tive que pagar pelo meu relacionamento. Na verdade, desde que eu me entendo por gente, o tema da maternidade e da família nunca me interessou. Eu encarava essas coisas como alheias a mim, algo que não fazia parte do meu mundo, nem das minhas aspirações. Algo muito distante do meu mundo”, disse.

O senso comum que classifica a maternidade como o passaporte para a família feliz, perfeita e completa, tende a rotular as mulheres que descartam a maternidade como cruéis. Mas não são. Muitas mulheres entrevistadas pela antropóloga, a maioria esmagadora, aliás, mostrou a empatia pelos filhos que geraram, de quem cuidam bem e de forma dedicada.  Sophia*, mãe de duas crianças entre 1 e 5 anos, por exemplo, conta no livro sobre o medo que tem de que os filhos percebam que ela se arrepende de ser mãe.

“Tenho medo de eles descobrirem que eu não os queria. É claro que eles sabem, os filhos sabem de tudo. Eles leem a minha mente; tudo aquilo por que eu passo, eles passam comigo. São sensíveis para esse tipo de coisa”, desabafou. Algumas mães que participaram do estudo exigiram um contrato com a autora para seus dados realmente permanecessem confidenciais, “para proteger os filhos, o vínculo com eles e proteger a si mesma”, avaliou Orna.

“Não quero que meus filhos leiam que, se a mãe deles pudesse escolher, não teria nenhum deles e que, em retrospecto, se arrepende. Como eles iam se sentir, depois de já terem sido abandonados pelo pai, ao saber que sua mãe supostamente também não os queria? Pode imaginar uma coisas dessas?”, perguntou Brenda*, mãe de três filhos entre 20 e 25 anos.

Claro que nem todas as mulheres conseguem elaborar esse tipo de pensamento, porque a frustração pode ser algo difícil de controlar. Mas para evitá-la, precisamos falar da maternidade compulsória. Ser mãe tem de ser uma escolha. Algo muito bem pensado. Como são corajosas todas as minhas amigas que não desejam ser mães e que conseguem se posicionar e dizer o que até então parecia indizível. Claro que muitas se incomodam com as cobranças, mas se sentem fortes o suficiente para dizer ao mundo, à família e à própria mãe que a maternidade pode ser linda, mas não é para elas. Dá para ser feliz trilhando outros caminhos que não passam pela maternidade. Ainda bem.

*Os nomes das mulheres foram trocados pela autora da publicação.

“Mães Arrependidas – uma outra visão da maternidade”

Autora: Orna Donath

Tradução: Marina Vargas

Editora: Civilização Brasileira

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