Foto: Pixabay

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Conheço algumas mulheres que abortaram. Todas tinham dinheiro para o procedimento e foram à clínicas bem localizadas e nem um pouco clandestinas, tiveram a assistência de profissionais preparados e acesso ao que há de mais seguro e moderno quando o assunto é medicina. O que o poder econômico trouxe a elas? Autonomia sobre o próprio corpo, segurança e o direito de decidir sobre ser ou não ser mãe. Com dinheiro na carteira não foram julgadas publicamente, denunciadas à polícia e nem sofreram maus tratos no hospital. Não saíram da clínica saltitantes e “prontas para outra” como o senso comum prega. Nenhum aborto é um passeio no parque, como alguns teimam em acreditar. Mas se uma decisão como essa pode ser difícil de ser tomada – e na maioria das vezes é – decidir pelo aborto não pode ser uma roleta russa, um flerte com a morte.

Por isso, cada vez que alguém vem a público dizer que é contra a descriminalização do aborto é bom que se lembre que as mulheres pobres e periféricas são as únicas afetadas pelo fato de o aborto ser crime no Brasil. E não sou eu quem diz isso, são as estatísticas, basta consultá-las. O aborto clandestino é a quinta causa de morte materna no país e, segundo a OMS, Organização Mundial da Saúde, uma brasileira morre a cada dois dias por causa de procedimentos mal feitos. Oito em cada dez mulheres que optam pelo aborto já têm filhos, ou seja, cada vida que é perdida no meio desse descaminho deixa, além de tristeza, crianças órfãs que, muitas vezes, não tinham mais ninguém no mundo além dessa mãe. Elas vão para as ruas, onde ficam invisíveis aos olhos daqueles que lutam bravamente apenas por aqueles que ainda não nasceram.

Em tempos de redes sociais o debate ficou surdo em vez de ser ampliado: vemos pessoas comemorando a morte dessas mulheres, jogando pedras nessas “Genis”: “na hora do ‘bem-bom’ não pensou em nada, né?” . Vemos gente encarando sexo como pecado e gravidez como castigo, ignorando que métodos contraceptivos falham (e como falham!) e dando opiniões baseadas apenas nas próprias convicções pessoais. Se você é contra o aborto, nunca fez um aborto e nunca faria um aborto, ótimo, seu corpo, suas regras. Se você é católica/evangélica/espírita e acredita que o feto é um bebê desde o momento em que óvulo e espermatozoide se encontraram e, por isso, nunca faria um aborto, não o faça. Mas não coloque os preceitos de sua fé sobre o útero alheio, por favor.

Agora que deixamos Jesus e Allan Kardec fora disso, vamos aos números, porque é baseado neles que as políticas públicas têm de ser feitas. Nosso vizinho Uruguai legalizou o aborto em 2012 e, desde então, é um exemplo de redução de mortes de mulheres. Em 2014, 6.676 abortos foram feitos e apenas uma mulher que praticou um aborto clandestino morreu. Já o número de mulheres que desistiu da ideia de interromper a gravidez depois de conversar com as equipes multidisciplinares do país vizinho cresceu: 30% delas voltaram atrás quando uma rede de apoio se abriu sob seus pés.

Toda essa polêmica veio à tona na última semana depois que o STF entendeu, no último dia 29 de novembro, que interromper a gravidez voluntariamente nos três primeiros meses de gestação não é crime. Para o colegiado, considerar crime o aborto praticado nesse período viola os direitos sexuais e reprodutivos da mulher, o direito à autonomia e à integridade física e psíquica. O entendimento, contudo, vale apenas para o caso julgado. Mas o caminho está aberto para discutir o assunto com menos paixão e, quem sabe, uma dose extra de razão.

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