Foto: Pixabay

“Sabe por que o YouTube é melhor que a TV, mamain? Na TV a gente só pode assistir o que tá passando, no computador eu posso ver o que eu quiser!”

E foi com nesse momento eureka! que meu filho se deu conta de algo que já sabíamos há alguns anos: O YouTube veio para mudar o consumo de audiovisual. Eu me lembro que, quando pequena, era um desafio e tanto acordar cedo, cedíssimo, para não perder o Gato Félix, meu desenho favorito que passava nas manhãs da TV Globo nos longíquos anos 80. Se eu dormisse um pouco mais e perdesse a hora, já era. Tinha que ser mais disciplinada no dia seguinte se quisesse ver meu gato favorito e sua bolsa mágica, sempre carregada para todos os lugares. Tanto sacrifício hoje não faz mais sentido, nem para mim, que encontrei vários episódios do tal gato da minha infância no YouTube, nem para o meu filho que, desde pequeno, aprendeu a navegar pela plataforma e descobrir, com a minha ajuda, que lá tem tudo e muito mais. Garimpando, como quem não quer nada, encontramos o Pocoyó,  um desenho espanhol fofíssimo e super bem feito que depois ganhou a TV. Samuca, na época com 4 anos, logo caiu de amores pelos companheiros desse menino esperto: o pato, a Elly e a Sonequita. Também descobrimos o TroTro, um desenho animado francês que conta a história de um burrinho. Quantas vezes ele assistiu e riu das historinhas mesmo sem entender nadica de nada – inclusive, às vezes, o YouTube sugeria uns episódios de TroTro dublados em alemão que a gente só conseguia entender quando o TroTro chamava sua “Mama”.

Mas meu filho foi crescendo, aprendendo a escrever e não precisando mais da ajuda de sua Mama para navegar pela plataforma. Compramos uma smartv e o YouTube ganhou a sala de casa. Com a ajuda do irmão mais velho, que vem aos fins de semana, meu filho descobriu o videogame e, na sequência, os Youtubers e os canais de games, que ensinam às crianças os segredos dos joguinhos. Pocoyó e TroTro ficaram para trás. Nada mais natural. Meu filho estava crescendo.

O YouTube e seu algoritmo foram sugerindo sucessivos canais ao Samuca. Em pouco tempo ele já tinha seus apresentadores favoritos e eu vi meu filho mergulhar em um mundo de gritaria, palavrões e um conteúdo nada legal, embora, claro, ele achasse tudo o máximo. (Ressalva ao Leon Martins e a Nilce Moretto, do Coisa de Nerd, que oferecem entretenimento sem palavrão, machismo e gritaria e para o Manual do Mundo, do Iberê Thenório e da Mariana Fulfaro, que publica vídeos muito legais que ensinam as crianças a fazerem desde os próprios brinquedos a experimentos clássicos de ciências.)

Saudades, TroTro

Mas o interessante do YouTube é a liberdade. Todos podem postar, todos assistem, todos comentam. Tentei restringir o que ele podia assistir – mãe foi colocada no mundo para cortar as asas dos filhos, não é mesmo? Não adiantou muito dizer que ele só podia ver esse ou aquele canal, o algoritmo está lá para acabar com a sua autoridade e logo oferece coisas novas que ele nem precisava clicar para ter acesso, a própria plataforma roda automaticamente o vídeo seguinte em um looping perigoso. Aos poucos percebi que meu filho incorporava ao seu vocabulário palavras que não falávamos em casa e, claro, que não eram legais. A televisão, com todos os seus defeitos, é obrigada a tomar cuidado com isso graças a tal classificação indicativa. O YouTube é quase terra de ninguém.

A cereja do bolo foi descobrir, depois de avisada por amigos, que um YouTuber tinha publicado um vídeo onde falava cobras e lagartos de mim usando diversos palavrões como muleta para enfatizar seu discurso, depois que publiquei um texto aqui no blog argumentando que as músicas da Anitta não deviam ser tocadas em festa de criança. Em quanto tempo o algoritmo, sempre super inteligente, iria ligar lé com cré e oferecer aquele vídeo ao meu filho? Jamais saberemos. Em breve, era a minha aposta.

Claro que eu poderia ativar o modo de segurança que restringe o conteúdo adulto e também não permite que vídeos denunciados por usuários sejam vistos pelas crianças, no caso o meu filho. Qual a eficácia disso? Pouca, na verdade. Eu teria de montar uma força-tarefa e passar os dias e as noites dizendo para a plataforma que sim, esse vídeo é ofensivo. Sim, tem conteúdo “violento ou repulsivo”. Sim, sim, tem “conteúdo abominável”. O YouTube também passaria dias e mais dias analisando caso a caso e me responderia, mecanicamente, que o que eu considero perigoso ou enganoso nada mais é do que a tal “liberdade de expressão”. Liberdade por liberdade, decidi exercer a minha. E proibi o acesso.  “Mas todo mundo assiste, mamain!”. “Mas você não é todo mundo!”, respondi, usando uma das frases que minha mãe usava e que eu, claro, detestava. Iria emendar com um “quando você tiver seu filho vai me entender!”, mas, segurei. “Quando você for maior a gente conversa”, disse, enquanto a maravilhosa Elis começava a cantarolar uns versos proféticos de Belchior na minha cabeça: ‘Ainda somos os mesmos, e vivemos como os nossos pais’. Sim, Elis. Vivemos. E isso não é de todo ruim.

Leia mais: Sobre como é difícil criar um filho não machista em um mundo machista 

Leia também:

Editora Belas Letras