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Eu venho sentindo uma angústia inexplicável, pressão no peito, mãos suadas, taquicardia. Dia desses, dentro do táxi, trânsito pesado, falta de ar: era como se alguém comprimisse meu esterno até eu quase sufocar. Liguei para a endocrinologista, achava que o problema era o remédio da tireóide, essa dose não me serve mais! Também não conseguia dormir, mãe não tem insônia, gente, mãe deita na cama e desmaia, como eu não consigo mais relaxar e dormir?

Acordo, sobressaltada, vítima de sonhos cada vez mais horríveis. No último, eu e meu filho éramos vítimas de um bandido que, além de nos assaltar, jogava combustível em nossos corpos e fazia menção de atear fogo. Acordei aos prantos e corri para o quarto do meu filho para checar se tudo estava bem. Quem é mãe e pai sabe que só o cheiro do filho nessas horas, só a visão de sua barriguinha subindo e descendo em uma respiração compassada é capaz de acalmar o coração.

Exames todos normais, mas a ansiedade continuava. Qual o meu problema? Não, não, não assisto a filmes de terror. Nunca fui fã de Alien, A Bruxa de Blair, O Exorcista, Brinquedo Assassino. Mas, peraê. Eu assisto a telejornais o dia inteiro.

Vejo um após o outro, obrigada pela profissão. Ontem, não consegui conter as lágrimas ao assistir a entrevista do pai de Vanessa, 11, em frente ao IML do Rio de Janeiro, contando que não tinha forças para entrar e reconhecer o corpo da filha, baleada e morta dentro de casa, na zona norte. Poderia ser meu filho, não parava de pensar. Chorei ainda mais quando vi uma amiga repórter, a Vivian Casanova, segurando as lágrimas e o microfone de uma emissora de tv. Ela não tem filhos, mas sabe que existem pessoas por trás desses números que a imprensa nem dá mais conta de somar. São mães e pais que perderam seus bebês para a violência urbana. Estamos em guerra, gente, só falta alguém dar o nome certo para isso que vivemos todos os dias.

Foi aí que eu me autodiagnostiquei: stress traumático. Esse problema psicológico não aflige apenas combatentes diretos dessa guerra particular. Nós, que vivemos cercados de tiros por todos os lados, também somos agraciados por essa paranoia. E ela pode nos incapacitar, aniquilar. Joselita de Souza, 44 anos, mãe de um dos cinco jovens assassinados por PM´s em Costa Barros, zona norte do Rio, depois que o carro onde estavam foi alvejado por 111 tiros (!!!), morreu… de tristeza. Sim. Como aceitar a ideia de que seu filho foi lanchar com os amigos e não voltou para casa porque foi “confundido” com traficantes? Não, não, mãe nenhuma sobrevive a isso.

Como aceitar que Gabriela, 14, foi morta no metrô da Tijuca por uma bala perdida quando saía de casa sozinha pela primeira vez na vida? Ou que João Hélio, 6, tenha sido arrastado pelos bandidos por vários quilômetros, preso pelo cinto de segurança? Ou que Maria Eduarda, 10, tenha sido morta com o tiro nas costas dentro da escola, durante uma aula de educação física?  A ONG Rio de Paz fez as contas e afirma que, nos últimos dez anos, 35 crianças morreram vítimas de bala perdida no Estado do Rio de Janeiro. Mais da metade das mortes nos últimos dois anos e meio. Somente este ano, cinco mortes. Aqui em São Paulo, a situação também é ruim, claro. Há chacinas e balas para todos os lados. Os filhos da classe média aparentemente morrem menos. Mas, na periferia, todos os dias há mães e pais chorando a morte dos seus filhos. Homens e mulheres que nunca mais serão felizes, tenho certeza. Mas quem se importa?  Aparentemente ninguém. “Vamos agora para um rápido intervalo”, avisa o apresentador, que não mais vai tocar no assunto porque amanhã a vítima será outra, depois outra, e ninguém mais vai se lembrar do cadáver de ontem, muito menos da menina assassinada de antes de ontem – só você, se ela for sua filha, sua irmã, sua mãe.

“Você não pode se envolver tanto, Rita!”, uma colega me repreendeu uma vez, quando me viu aos prantos, abraçada a mãe de um dos meninos assassinados em mais uma chacina na grande São Paulo. Claro que ela queria meu bem, claro que ela estava preocupada com a minha sanidade mental. Mas uma sociedade que vê um menino de 14 anos cravado de balas em uma sarjeta e não sente mais nada – essa sim, precisa de ajuda. “Sinto dor: Estou vivo”, escreveu Caio Fernando Abreu, a um amigo em uma carta linda.  Sim. Eu também. E por isso eu lembro, todos os dias. Poderia ser meu filho. Poderia ser meu filho. Só um pensamento como esse pode nos acordar.

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