Depois das propagandas fofas, de reportagens mostrando como somos “super-heroínas” porque aguentamos uma jornada dupla com um sorriso no rosto e de recebermos presentes que “não são mais eletrodomésticos”, olha como evoluímos, estamos de volta à programação normal: o segundo domingo de maio passou e já podemos ser tratadas mal por aí, principalmente pelo mercado de trabalho, justamente porque colocamos no mundo aquelas crianças fofas da propaganda, olha só que contradição.

A primeira pergunta da sua entrevista de emprego é claríssima: “Vai faltar ao trabalho se seu filho ficar doente?” Ao contrário das questões de química orgânica no vestibular, parece não haver resposta certa. Quais seriam as alternativas?

a) “Não, claro que não, esse emprego é mais importante que meus filhos”,  passando, assim, a imagem de pior mãe do mundo, mas de profissional de sucesso destemida que não mede esforços para chegar no topo da carreira ou

b) “Sim, óbvio, se minhas crianças ficarem doentes eu tenho de socorrê-las” – perdendo a chance de conseguir uma vaga em um país que tem, atualmente, 13 milhões de desempregados.

Mas, verdade seja dita, existem anúncios de emprego que nos poupam de ter de responder a uma pergunta descabida como essa porque já deixam bem claro que a mulher, para se candidatar à vaga, não pode nem ter filhos. Nem estar grávida – e sua palavra não vale, tem que fazer um exame de sangue na admissão. E assinar um compromisso de não engravidar durante um certo período de tempo, se não paga multa! (Lei trabalhista pra quê?). Acha que isso não existe? Segue uma pequena colagem dessas oportunidades imperdíveis compiladas por uma página no Facebook especialista em vagas indecentes.

 

 

Está grávida? Azar o seu.  O segundo domingo de maio já passou e nós, mulheres, continuamos obrigadas a trabalhar em lugares insalubres com os filhos ainda no nosso ventre em nome da “recuperação da economia do País” – não importa se pode fazer mal para você e/ou para o seu bebê. E como se não bastasse tudo isso, ainda temos um pré-candidato à Presidência que culpa a mulher em período fértil pela diferença salarial entre ela e os homens que é líder nas pesquisas de opinião. (Sim, ele falou isso mesmo entre outras barbaridades, não é fake news, basta saber ler.) Só existe amor no dia das mães.

Se você tem a sorte de ter voltado ao trabalho depois da licença maternidade, parabéns! Mas não comemore muito não. Segundo uma pesquisa feita pela FGV, metade das trabalhadoras brasileiras perde o emprego até dois anos após a licença. E seu colega homem (e às vezes até sua colega mulher) podem colaborar com seu desemprego iminente repetindo por aí que você “não é mais a mesma” já que tem que sair no horário (não antes, mas não também depois) para buscar seu filho na creche.  A mão que afaga, entregando flores e bombons em maio, é a mesma que apedreja quando você vira as costas para levar seu filho pequeno ao médico.

Pararam de chegar sugestões de pauta com lindas histórias de mulheres que superaram todos os obstáculos para serem mães, mas agora a realidade nua e crua voltou à minha caixa de e-mail. Uma pesquisa do site de empregos Catho, divulgada essa semana, mostrou que o número de mães que deixam o mercado de trabalho (nem sempre voluntariamente) para cuidar de seus filhos é quatro vezes maior que o de pais. E 31% delas demoram cerca de três anos para conseguir um novo emprego, enquanto para os homens seis meses costumam ser suficientes.

Mas daí nós, da imprensa, em vez de mostrar ao mercado de trabalho que, ao apoiar a paternidade ativa com ações como licença estendida, home office e horários mais flexíveis, as mães conseguirão ser mais eficientes na gestão do seu tempo, apostamos no nosso ponto inicial: a de que as mulheres são guerreiras e super-mulheres, são elas que têm que ‘aguentar o tranco e aceitar as adversidades’. O mercado de trabalho não te respeita? Vá empreender! Que tal vender brigadeiro? Não importa que você não seja muito fã de cozinha e que tenha pós-graduação na área da saúde: o importante é ficar perto do seu filho e, claro, e garantir a reportagem sobre o empreendedorismo materno para o dia das mães do ano que vem.

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