amamentação

Uma das coisas que aprendi desde que meu filho nasceu é que a amamentação é uma das maiores “pegadinhas” da maternidade. Você assiste a televisão e ela mostrada tanto na novela, na propaganda de margarina ou nas ações do Ministério da Saúde como se fosse algo fácil: o bebê rosinha sempre está calminho enquanto é alimentado por sua mamãe linda vestida em tons pastel. Não há choro descontrolado de mãe e bebê que ainda não se entenderam, não há bicos rachados sangrando, problemas na pega, não há mastite, olheiras ou madrugadas insones.

Por isso, quando a mulher se vê na situação oposta à da propaganda, só pensa uma coisa: isso tá dando errado. Ninguém, muitas vezes nem o médico, diz que esse dar errado pode ser parte do processo de dar certo. Ninguém vai lá e diz faz assim, faz assado, vamos tentar de novo, vamos esvaziar um pouco esse peito antes, vamos beber mais água, vamos trocar de peito. Muitas vezes a ajuda que é oferecida às mães que estão no meio desse processo é uma só: a lata de leite artificial.

E também há os palpiteiros, sempre eles, que desencorajam as mães que persistem, principalmente aquelas que amamentam até o bebê completar o segundo ano de vida, como preconiza a OMS, Organização Mundial da Saúde. “Você ainda dá peito para essa criança? Não sustenta nada!” ou então “Esse seu leite é só água” e por aí vai. Duro mesmo é quando essas mães guerreiras escutam isso do próprio pediatra e isso não é invenção minha: participo de diversos grupos de mães nas redes sociais e as histórias nesse sentido estão sempre lá, aos borbotões, semanalmente. Profissionais da saúde que perpetuam esse discurso de que ao leite de peito não é importante dizendo que isso só vale para países da África, “para mulheres que não tem dinheiro para comprar leite em pó”. Sim. Várias mulheres que eu conheço ouviram isso. Leite artificial é status, leite de peito é coisa de pobre.

Todas as pesquisas mostram que não há nada melhor que o leite materno. Ele muda de composição: quando o bebê nasce é um, cheio de anticorpos da mãe, quando ele está maiorzinho é outro. É de graça. É um alimento tão poderoso que durante os seis primeiros meses o bebê não precisa de mais nada. Nem a água que sua tia-avó insiste para que você dê ao bebê é necessária. Que outro alimento é assim tão completo?

Que bom que aumentamos em 20 vezes o número de bebês amamentados nos últimos 30 anos, segundo os números divulgados neste 2 de março de 2016 pelo Ministério da Saúde. Mas ainda temos 61% de crianças que não são amamentadas exclusivamente até o sexto mês: isso é muita coisa. E daí lembro que tivemos “comediante” da tv aberta fazendo piada com doadora de leite materno em rede nacional (e ela teve de mudar de cidade depois de virar chacota em rede nacional enquanto ele também mudou, só que de emissora, e com um contrato milionário), que a esmagadora maioria dos escritórios não se preocupa em reservar uma sala confortável para que as mulheres ordenhem e estoquem seu leite, que muitas mulheres ainda são constrangidas ao amamentar em público, que nossa licença maternidade é de míseros 6 meses, (mas não para todas as mulheres, a maioria tem apenas 4), e que os homens, parceiros indispensáveis para o sucesso da amamentação, ainda ficam em casa por míseros 5 dias (que podem virar inacreditáveis 20 dias em breve!!!). São tantos obstáculos a serem transpostos para amamentar que, olhando por esse ângulo, parece incrível que tanta mulher consiga chegar até o final do segundo ano de seu filho amamentando no peito. A elas, meus parabéns. Mas ao olhar em perspectiva para esse copo, cheio de leite materno, não consigo vê-lo meio cheio e sim, meio vazio. Na verdade, bem vazio.

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