Amamentar

 

Imagine a cena: uma leoa amamenta seus filhotes. Do lado dela, palpiteiros da mesma espécie não cansam de… palpitar. Com achismos dos mais variados:

“Esse seu leite é fraco, melhor dar mamadeira.”

“Que pouca vergonha você colocando essas tetas de fora!”

“Dar o peito vai deixar seu filho mimado.”

Isso não acontece no mundo animal, mas acontece no mundo do Homo Sapiens. Sim. E todos os dias com as mulheres que querem amamentar seus filhotes filhos. Por essas e por outras a Semana Mundial do Aleitamento Materno foi criada em 1948. Estamos nela, aliás. É uma semana cheia de boas intenções e de matérias sobre o assunto, mas se você pensar que amamentar é algo fisiológico, um comportamento repetido por todos os mamíferos, parece surreal que tenhamos de falar anualmente sobre algo que deveria ser tão natural e socialmente aceito como respirar. Mas não é e os números comprovam: a média de aleitamento no Brasil é de míseros 51 dias, segundo a última pesquisa feita sobre o assunto no país, enquanto a Organização Mundial da Saúde, o UNICEF e o Ministério da Saúde orientam que as crianças sejam amamentadas até os dois anos de idade.

Desde quando amamentar virou tabu? “Desde o surgimento das fórmulas infantis”, arrisca o pediatra Moisés Chencinski, membro do Departamento de Aleitamento Materno da Sociedade de Pediatria de São Paulo. Ele afirma que “a pressão da mídia, do marketing e dos profissionais de saúde” também é a responsável pelo fracasso do aleitamento materno no Brasil. Dr. Moisés decidiu fazer uma campanha ainda maior pelo aleitamento e não apenas por uma semana, como acontece em todo o mundo. Desde o dia 10 de maio ele lançou nas mídias sociais a hashtag #euapoioleitematerno e pretende passar 365 dias falando sobre a importância da amamentação. “A ideia é estimular, sensibilizar, de forma positiva e sem agressões, sem ameaças, sem discriminações o aleitamento materno. Quem quiser pode se juntar ao movimento. Mães que amamentam e mães que não amamentam têm a mesma voz. Ninguém é menos mãe ou mais mãe por amamentar”, afirma.

R: Amamentar é difícil?

M: Amamentar é natural. Isso não quer dizer que seja simples ou fácil. Falta, em nosso país, a cultura do aleitamento. Para que a mãe possa amamentar de forma simples, ela precisa de apoio. Para que seja fácil, ela precisa de orientação. E parece que ela não tem nenhuma dessas coisas. De quem deveria vir o apoio? Da família, da sociedade, da mídia, do governo e dos profissionais de saúde. Quando esse apoio vem ele é incompleto, na forma de uma licença maternidade de apenas quatro meses – enquanto a licença de seis meses já deveria ser um direito de todas as mães – ou uma licença paternidade de apenas 5 dias, que considero indecente e imoral. O pai é um apoio importante e estudos mostram que há uma maior adesão e uma maior duração do aleitamento materno quando os pais estão em casa com suas esposas e filhos.

Moises

“Os pediatras além de não observarem, não estimulam e não ajudam as mães em suas angústias em relação ao aleitamento materno”, afirma Chencinski

R: Quais são as principais dificuldades encontradas pelas mulheres que querem amamentar?

M: A falta de apoio é um dos principais fatores que promovem o desmame precoce. A falta de informação também. De quem deveria vir a informação? Principalmente dos profissionais de saúde, desde o pré-natal passando pela maternidade que deveria fazer o possível para não oferecer fórmulas já que o colostro tem todos os nutrientes necessários ao recém-nascido e nem mamadeiras, já que a prática pode gerar uma “confusão de bicos”, levando ao desmame. Os pediatras além de não observarem, não estimulam e não ajudam as mães em suas angústias em relação ao aleitamento materno. Através de pesquisas em grupos de mães que eu coordeno ou participo fiz algumas enquetes que mostraram resultados que eu considero, no mínimo, assustadores:

Das 650 mulheres que responderam a pesquisa que propus, 85%  afirmaram não terem recebido nenhuma orientação sobre aleitamento materno no pré-natal; 65% delas também não tiveram suas mamas examinadas durante as consultas durante a gravidez e nem no retorno em consulta após o parto; 66% afirmam não terem sido observadas amamentando pelos seus pediatras na primeira consulta. Isso fica mais preocupante porque foram dados retirados de um grupo “privilegiado” de mães, que buscam informações sobre aleitamento materno constantemente.

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R: Quais são as lendas da amamentação repetidas por aí e que fazem com que muitas mulheres desistam de amamentar?

M: São várias as (des)informações que essas mães recebem de todos os lados. Entre as mais comuns é a de que o leite materno é fraco. Não existe leite fraco. O leite materno é um alimento vivo, ou seja, ele muda durante a mamada (começo, meio e final), e muda desde o parto (colostro) até enquanto a criança mamar (dois anos ou mais). Ouve-se também que depois do primeiro ano de idade o leite materno “é só água”. Pelo contrário. Esse leite fornece, em 550 ml de volume, 30% da energia e das calorias/dia necessárias para a criança , 40 a 50% das proteínas, 50 a 65% da vitamina A e quase 90% da vitamina C. Você acha que esse leite é fraco? Que esse leite que não faz diferença após um ano de idade?  A resposta para essas perguntas é um imenso e triste NÃO. Essa informação tão importante sobre a composição do leite materno não é transmitida às mães.

Frases como “a OMS recomenda aleitamento materno até dois anos para os países pobres e esse não é o seu caso que pode comprar mamadeira e fórmulas” ou “criança de um ano de idade amamentada com leite materno ou com fórmula não têm diferença nenhuma na sua saúde” passaram a ser ouvidas pelas mães ansiosas por informação em consultas obstétricas ou nas consultas pediátricas. Quem acompanha os grupos de mães nas redes sociais hoje em dia pode observar, infelizmente, que é isso que elas escutam e recebem de quem deveria prezar pela saúde de seus filhos. Há também outros mitos: que o peito vai “cair”, que a criança fica “viciada” no peito, que não come porque mama o leite materno em livre demanda. Essas desinformações são responsáveis, em grande parte, pelo desmame precoce.

R: Por que alguns médicos ajudam a propagar ideias que são comprovadamente equivocadas?

M: Essa é uma pergunta de difícil avaliação. Desinformação, falta de aulas sobre aleitamento materno tanto na maioria das escolas médicas, quando nas residências de Pediatria e Obstetrícia. Existem muitos temas que chamam a atenção dos médicos, muitas atualizações e, algumas vezes, tanto os médicos quanto as próprias mães menosprezam as dificuldades naturais do aleitamento materno e tratam o assunto como algo que todos já soubessem e, por isso, não buscam atualização. A cada dia são publicados estudos mundiais sobre a importância do aleitamento materno. Será que esses profissionais se dão ao trabalho de pelo menos se informar sobre esses estudos?

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R: O que o senhor acha de empresas que fabricam alimentos para criança como papinhas industrializadas e leite para recém-nascidos patrocinarem congressos de pediatria e até cursos para esses profissionais?

M: Em novembro de 2014 foi amplamente noticiada a prisão de 12 pediatras italianos por supostamente aceitaram presentes de indústrias fabricantes de fórmulas infantis para substituírem o leite materno por seus produtos. Dois desses pediatras eram chefes em seus hospitais. Além deles, cinco representantes de vendas de três diferentes companhias foram presos. O problema está tando na empresa que assume uma atitude como essa, oferecendo gentilezas em troca de prescrição, quando do profissional que aceita ir contra o que acredita para se beneficiar dessas ações.

No Brasil, as empresas que fabricam leites e alimentos infantis estão sujeitas a uma legislação regulamentada pela ANVISA. É proibida a promoção comercial de fórmulas infantis, mamadeiras, chupetas e protetores de mamilo. Não se pode oferecer cupons, descontos, prêmios, brindes ou vendas vinculadas. Se não houvesse patrocínios, teríamos menos congressos, menos cursos, menos possibilidades de atualização ou aprimoramento. Mas é importante é que esse patrocínio seja ético, respeitando as normas estabelecidas.

R: Na sua opinião, quais mudanças deveriam ser implementadas para que as mulheres brasileiras passem a amamentar os dois anos preconizados pela Organização Mundial da Saúde?

M: Temos que ser otimistas. Apesar de vermos que a situação não é das mais confortáveis, há muitas possibilidades de ações que podem ser tentadas e cada uma delas pode fazer alguma diferença. É importante um planejamento amplo, que possa abranger todos os setores interessados. Precisamos legitimar a licença-maternidade de pelo menos 6 meses, já que existe comprovação de quem quanto maior ela for, melhores são os resultados sociais e econômicos obtidos e uma licença paternidade mais digna, de pelo menos um mês.

As empresas poderiam ampliar sua colaboração, criando salas para amamentação, com condições adequadas e funcionários treinados para esse apoio. Já as televisões, rádios, jornais, internet e redes sociais poderiam dedicar um espaço cativo, regular, em que pudessem ser transmitidas, de forma ética, atualizada e compreensível, informações e esclarecimentos a respeito do aleitamento materno.

As escolas médicas deveriam dedicar pelo menos uma carga horária razoável para orientar, nos cursos de formação, os estudantes de saúde de forma constante, tanto na teoria quando na prática. Todas as residências médicas de pediatria deveriam ser obrigadas a ter em sua grade curricular pelo menos alguns meses entre aulas teóricas e práticas sobre aleitamento, visitas para que se conheça o funcionamento dos bancos de leite, consultas de orientação de aleitamento, observação da mamada, aprendizagem sobre pega e posicionamento adequados. Enfim, há muito o que se fazer.

Quer participar da campanha? Visite as páginas e use a hashtag #euapoioleitematerno

Enfim, há muito o que se fazer.

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