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Uma jornalista amiga minha, a Tatiana Kinoshita, recebeu uma mensagem da escola de suas filhas com a seguinte reclamação sobre o uniforme de uma delas, comprado na própria escola. “Informamos que a aluna compareceu à aula com short curto. Foi orientada que não será mais permitido. Contamos com a sua compreensão”, assinou a direção de um colégio particular de Florianópolis, onde as temperaturas no verão são superiores aos 35 graus.  Em um post no Facebook, a mãe expôs o bilhete, com a seguinte reflexão: “Enquanto alimentarmos a ideia de que é a roupa que provoca estupro, cantadas idiotas e coisas do gênero, nós mulheres sempre seremos culpadas pela violência que sofremos. Não é melhor educarmos nossos meninos a se controlarem? Não é mais fácil explicar para eles que a roupa da mulher não é um convite a nada?”, escreveu. (O nome do colégio não será citado nesse post porque queremos apenas refletir sobre a educação de meninas e meninos. Quer saber qual é? Pergunte à Tatiana.)

Será que as mães dos meninos que usam short curto já receberam um bilhete como esse abaixo? Aposto que não. Será que se algum menino fizesse alguma piadinha sobre o tamanho do uniforme de uma aluna a reprimenda da escola seria a mesma? Olha, duvido.

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Desde pequenos os meninos ouvem na escola, na televisão e nas conversas no portão de casa que é “um horror, um escândalo” que as meninas se vistam com saias e shorts curtos ou com o colo de fora. Também escutam que a prima da cunhada da vizinha, que foi abusada por um garoto em uma casa noturna, tem culpa no cartório. “Claro que aconteceu isso, essa menina não se dá ao respeito!” O mesmo comentário faz o pai, ao saber que a filha adolescente da vizinha está grávida.

Sobre o comportamento masculino ouve-se pouco ou quase nada. Também é comum que no recreio da escola/sofá da sala/portão de casa todos entendam e até desculpem os meninos que fazem comentários vulgares às meninas. “Isso é coisa da idade, deixa ele!” Se os garotos crescem e logo começam a namorar, ou pior, se colecionam namoradas, são elogiados:  “Esse é macho como o avô!” ou o clássico da homofobia contemporânea: “melhor assim do que ser viado”. Muitos pais se mostram orgulhosos dos predadores que crescem debaixo do seu teto. Perder a virgindade com prostitutas e manipular as mulheres também são comportamentos aceitáveis e propagados de forma positiva na frente das crianças e dos adolescentes por alguns pais e também, pasme, por suas mães.

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Educadores preocupados com o tamanho do shorts das meninas (sempre com a desculpa de protegê-las) deviam se interessar, isso sim, pelo exemplo que estão dando às crianças quando afirmam publicamente que uma roupa curta é algo vergonhoso ou inadequado. Mas, em vez disso, debruçam-se sobre o planejamento deste ano para o Enem, afinal, escola boa mesmo é aquela que tem alunos com notas altas no Exame Nacional do Ensino Médio e grandes aprovações no vestibular. Só que mais do que se preocupar se o nosso filho homem vai ser médico ou engenheiro, a gente tinha mesmo era cuidar para que ele não fosse um canalha. Porque ninguém nasce mau caráter (assim como ninguém nasce médico ou engenheiro), então se ele se tornar um cafajeste a culpa é da educação que se deu (ou que se deixou de dar).

Anos atrás, no carnaval, uma amiga jornalista não conseguiu fazer uma reportagem em um bloco na Vila Madalena, em São Paulo, porque foi continuamente assediada pela Acadêmicos dos cafajestes. Ela estava devidamente identificada com o microfone da empresa onde trabalha, mas nem assim foi respeitada. Alguns homens se sentiram no direito de tocá-la de forma desrespeitosa e insistente mesmo depois que ela gritou e mostrou de todas as formas que não, eles não eram bem-vindos e nada daquilo era engraçado ou apropriado. Muitos homens não aceitam o “não” e acreditam que algumas mulheres “merecem ser estupradas”. Minissaia? Tá provocando! Calça justa? Coisa de quem está querendo se mostrar e quer sexo (e com eles, claro.) Tudo isso ainda por cima do carnaval! Aqui ninguém é de ninguém!

Eduque seu filho pequeno para que ele não seja o cafajeste da próxima geração. Comece lembrando a ele todos os dias que ‘não’ é não, que existe algo chamado consentimento e que as mulheres podem se vestir como bem entenderem – isso não quer dizer que queiram ser interpeladas, tocadas ou assediadas. Depois, cada vez que o mundo culpar a mulher quando ela na verdade for uma vítima, ensine-o a também levantar a voz. Porque a mãe dele, a irmã, a tia, a madrinha, a avó e a professora são mulheres, que podem ser vítimas do silêncio de alguém como ele no trem, no ônibus, na rua, na boate, no shopping e na escola. Não podemos mais ficar em silêncio. Ou como bem notou a Tatiana: “Não é mais fácil explicar para eles que a roupa da mulher não é um convite a nada? Até quando seremos as provocadoras? Até quando nossas roupas serão usadas como desculpa pelo comportamento masculino?  Os meninos podem usar bermuda. Afinal, as meninas não irão nem provocá-los e nem estuprá-los não é mesmo?”

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