Foto: Renascimento do Parto 2

A violência é algo que pode ser bem sutil.

As primeiras cenas do documentário “O Renascimento do Parto 2”, que estreia nessa quinta, 10/05, em São Paulo, mostram um parto normal que ocorreu em algum hospital do Brasil. Desconfiamos que seja no sul do País, pelo sotaque de médicos e enfermeiros. Uma mulher está deitada em uma maca, em trabalho de parto. Ela geme, mas logo é repreendida pelo médico.

– Não faz assim ãh, ãn, não abre a boca!

Uma enfermeira sobe na barriga da gestante. E começa a fazer movimentos ritmados em sua barriga, empurrando o bebê para baixo. A legenda explica: é a manobra de Kristeller, que pode levar a ruptura do períneo e reduzir a oxigenação do bebê. A OMS, Organização Mundial da Saúde, condena a prática. A gestante se contorce de dor. E o médico a repreende novamente.

–  Tu ‘tá’ trancando.

A enfermeira continua a empurrar a barriga da gestante, em um movimento que lembra a tentativa de desentupir uma pia com as mãos. O marido pede para que a esposa faça força. Ela explica, chorando, que não dá.

– Ela tá me tirando (a força). Eu não consigo.

– Tu tá trancando o neném aqui, ó, esbraveja o médico.

Então a enfermeira usa o braço e empurra a barriga da gestante para baixo. Ela berra. O neném nasce. A mãe estica os braços para pegar o filho. É repreendida pelo médico pela terceira vez.

-Não bota a mão! Ih, tu contaminou tudo. Mas tu tá por fora!

O pediatra leva o bebê para ser examinado, o marido diz que a esposa ‘foi linda, incrível’. E ela começa a chorar copiosamente. É acalmada pela equipe, que insiste à “mãezinha” que está tudo bem com o bebê e que isso, afinal, é o que importa.

Em apenas cinco minutos de filme, entendo: o assunto principal de Renascimento do Parto 2 é a violência obstétrica, ou seja, o documentário mostra o constrangimento, a humilhação e os procedimentos aplicados sem o conhecimento ou autorização das gestantes, algo assustadoramente comum no Brasil.  O diretor Eduardo Chauvet conta como ficou alarmado quando percebeu que o nascimento de um bebê pode ser transformado em um momento de terror para muitas mulheres. “Entendi porque muitas pessoas dizem: ‘o parto é horrível’. Antes eu me perguntava: ‘mas como a chegada de um bebê pode ser ruim?’. E foi quando eu assisti a algumas imagens que recebi de famílias de todo o Brasil que entendi como o nascimento de uma criança pode não ser lindo”, conta o brasiliense, formado em produção audiovisual pela Universidade Temple, da Filadélfia, nos Estados Unidos.

Eduardo Chauvet, diretor de “O Renascimento do Parto 2

Grande parte das imagens de parto, cirurgias e de violência obstétrica que fazem parte do Renascimento do Parto 2 foram enviadas a Chauvet, que também produziu e filmou o Renascimento do Parto 1, ao lado da doula Érica de Paula. “As famílias souberam do segundo filme pelas redes (sociais), pela força do coletivo”. E foram as militantes do parto normal humanizado que divulgaram e apoiaram o ‘crowdfunding’ que, em 2013, arrecadou os cerca de 140 mil reais que permitiram a exibição da primeira parte do filme em mais de 50 cidades – 30 mil pessoas assistiram ao RP 1, que obteve a segunda maior bilheteria  de documentários em 2013. A cultura da cesárea no Brasil e suas consequências foi o tema da primeira parte da trilogia idealizada por Chauvet e Érica. O diretor revela, ainda,  que a terceira parte do documentário, o Renascimento do Parto 3, já tem estreia programada para o final de 2018.

RP2: Mulher que dá à luz seu filho em casa, na água, junto com o marido.

Mas o Renascimento do Parto 2 vai além e mostra também o outro lado da moeda: as mulheres brasileiras estão cada vez mais empoderadas, bem-informadas e organizadas. São elas que são responsáveis pelos momentos mais emocionantes do filme, quando assistimos a partos onde suas escolhas são respeitadas e as crianças chegam ao mundo da forma que suas mães escolheram: em casa ao lado dos filhos mais novos, ou no hospital, com o acesso a diversas formas de alívio para a dor e a presença de seus companheiros, que também emocionam a audiência.

O parto normal humanizado, oferecido a todas as mulheres que procuram o Hospital Sofia Feldman, que atende em Belo Horizonte, pelo SUS, é comparado ao premiado NHS britânico, que recentemente esteve sob os holofotes com o nascimento do terceiro filho da duquesa Kate Middleton, esposa do príncipe William. “Bem que a Kate poderia ter esperado pelo menos mais um pouco para a dar à luz, não?”, brinca Eduardo Chauvet, lamentando que o documentário tenha ficado pronto antes de Kate ter o seu terceiro bebê e ficar apenas seis horas no hospital, impedindo que essa discussão tenha sido incorporada pelo filme. Mas quando sua majestade, o bebê, é protagonista de sua história, a agenda médica ou das estreias nos cinemas ficam em segundo plano, ainda bem.

O Renascimento do Parto 2

Ficha Técnica:
2017 | Brasil | Documentário | 91 minutos
Direção, roteiro, produção e montagem: Eduardo Chauvet, Produção Executiva: Diogo Moyses, Eduardo Chauvet, Direção de Fotografia: Rafael Morbeck: Direção de Fotografia (cenas Além D’Olhar): Vívian Scaggiante, Pesquisa: Ana Lúcia Keunecke, Eduardo Chauvet, Desenho de Som, Mixagem e Masterização: Marcello Dalla, Produção 808 Filmes Fora da Lata em associação com Merun, Artemis, Além D’Olhar e Mulher sem violência.

Sessões em São Paulo: Cinesystem Morumbi – Espaço Itaú Frei Caneca – Espaço Itaú Augusta – Espaço Itaú Pompéia – Iguatemi Alphaville.

Leia mais: Kate Middleton, por aqui, não teria a menor chance

Leia mais: ‘Os médicos não fazem mais parto normal nem em suas próprias esposas’, afirma uma das parteiras mais engajadas do Brasil