Mães De Porta De Escola

O que aprendemos com as amigas que ganhamos na porta da escola dos nossos filhos

Por Rita Lisauskas

04/04/2017, 16h37

   

Eu aprendo, tu aprendes, nós aprendemos

Foto: Pixabay

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Elas não seriam suas amigas se você tivesse escolha. Não, não, elas são ótimas, mas é que você costumava escolher como amigas pessoas muito parecidas com você, que pensam igual a você e elas nem de longe são assim. Mas, de repente, vocês começaram a conversar na porta da escola, “nossa, que calor, que tempo louco, não é mesmo?”. Seus filhos eram bebês, ainda estavam se acostumando com a nova realidade, choravam todos os dias, vocês tinham que passar horas ali para servir de consolo se eles não se adaptassem ao novo ambiente. E não eram eles os únicos que choravam, eu chorei, tu chorastes, nós choramos, uma no ombro da outra e, de repente, aquela distância tão comum entre os desconhecidos não existia mais.

Mães podem se tornar amigas por afinidade, mas também por cumplicidade. Você estava ali, vulnerável, pensando que podia estar errando (e muito) quando decidiu colocar seu filho tão novinho na escolinha. Qualquer outra pessoa do mundo poderia alimentar esse autoflagelo “por que não deixou o trabalho para trás e ficou mais um tempo com seu filho? Que droga de mãe você é!” Mas as amigas mães da escola te dão um abraço que só quem está no mesmo barco é capaz de dar, jogam uma bóia e te puxam para a superfície. Aproveitam a proximidade recém-conquistada para confessar que, olha só, também têm se questionado, algumas por que mesmo sem ter um trabalho para onde voltar decidiram prosseguir com o projeto já que precisam de um tempo só, sem crianças. E em vez de julgá-las, o que seria tão natural tempos atrás, você se compadece pensando como seria incrível conquistar um tempo assim só para você, vai fundo, amiga, eu mereço, tu mereces, nós merecemos.

O tempo passa e de repente você é a mãe da criança que morde e, sua nova melhor amiga, a mãe da criança mordida. Em tempos de ódio, tentar entender com amor “o que é que está pegando” é uma grande prova de civilidade e de amizade. Dias depois os papéis se invertem e você se transforma na mãe da criança mordida e ela na mãe da criança que morde, que lição. Eu, você e a escola entendemos juntas que a tal mordida nada mais é do que a linguagem que as crianças que ainda não sabem se comunicar direito usam para contar aos adultos como estão frustradas. Somos as adultas desse quadrilátero e decidimos, desde então, que resolveríamos tudo com diálogo, um cappuccino e algumas risadas. Momentos bons e ruins se alternaram e a gente lá, firme no propósito, eu cresço, tu cresces, as crianças crescem, nossa amizade também.

Cada festinha infantil vira uma oportunidade fora do calendário escolar para as mães se encontrarem, e por mais tempo. O papo não é mais apenas sobre as crianças. Os pais também se aconchegam, a roda se alarga, enquanto os laços ficam cada vez mais estreitos, “vamos fazer um churrasco?”, “Topa um cinema/ teatro? Há coisas ótimas em cartaz!” Aqueles casais que levam a vida de um jeito tão diferente do seu ampliam o seu olhar, mostram que existem outros jeitos e formas de criar os filhos que podem até ser opostos ao que você acredita ser o melhor para a sua família, mas não são certos ou errados, são apenas diferentes do seu.  Opa, pera, não era seu filho que tinha várias lições a aprender ao entrar na escola? Ele aprende, eu aprendo, tu aprendes, nós aprendemos, amigas.

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