Cesárea

O Fla x Flu do parto

Por Rita Lisauskas

08/01/2015, 20h01

   
"O Renascimento do Parto". Foto: Divulgação

“O Renascimento do Parto”. Foto: Divulgação

Qualquer uma que seja conectada a grupos de mães virtuais e ao Facebook deve ter observado que o assunto que mais acirra os ânimos entre as mães é sempre esse: parto normal x cesárea. Desde que o Ministério da Saúde anunciou, na última terça-feira, 06/01, uma série de regras para reduzir cesáreas (leia aqui), a temperatura nas redes sociais subiu. E bastou a blogueira de um portal escrever que mesmo com risco as mulheres têm direito a escolher uma cesárea, que a guerra se instalou. E já que o momento pede um posicionamento, vamos lá:

 

Primeiro pedi a ajuda do velho e bom dicionário Houaiss para definir o substantivo “escolha”. Vamos a alguns dos seus significados:

1. opção entre duas ou mais coisas

‹ para ele, era fácil a e. entre o bem e o mal ›

2. capacidade de escolher bem, de escolher com discernimento

‹ a e. de suas amizades não obedecia a nenhum critério ›

E eu vou me ater ao último: “escolher com discernimento”. Para você poder fazer uma opção com clareza, tem de ter informação. No Brasil, quem atende às gestantes são basicamente os médicos ginecologistas e obstetras. Eles fornecem informação primária à gestante. E é baseada nessas informações que ela tomará sua decisão, partindo do princípio do “meu corpo, minhas regras”. Se alguma dessas informações for “truncada”, ou “errada”, ela pode escolher partindo de premissas erradas, confere?

Pois bem. Se o seu obstetra diz que seu bebê é “muito grande”, que você é “muito estreita” ou “não tem passagem” e que, por isso, seu parto normal é “perigoso” e seu bebê “vai entrar em sofrimento fetal”, o que a maioria das mulheres faz? Aceita a cesárea, claro, que mãe quer correr o risco de que o filho morra?

Outros argumentos que levam as mulheres a “escolherem” a cesárea: “passou da hora”/ “passou da data” ou você “não tem dilatação” (adendo meu: quem não entra em trabalho de parto realmente não tem dilatação, essa até eu sei), “parto normal dói – pra quê sofrer”? Que mulher quer perder o filho porque ele “passou da hora” de nascer? Que mulher quer sofrer? Nenhuma. Daí, olha só, o médico já está com a agenda aberta esperando que a mulher “escolha” o dia da cesariana.

Os motivos que levam a mulher a fazer essa “escolha” são inúmeros. Mas o que os médicos não divulgam são evidências científicas. O periódico American Journal of Obstetrics and Ginecology  publicou estudo chamado “Morte materna no século 21”, que analisou 1,46 milhão de partos. Os números mostraram que há um risco de óbito dez vezes maior para a gestante em cesarianas. Comparem: Enquanto a taxa de morte em partos normais foi de 0,2 para 100 mil, no caso das cesarianas ele chegou a 2,2 por 100 mil. Isso são evidências.

E para quem acha que eu sou contra a cesárea faço minhas as palavras da médica obstetra Fernanda Macedo, no documentário “O Renascimento do Parto”: “A cesariana é uma cirurgia maravilhosa que salva vidas todos os dias, mas ela não é pra ser feita em todas as pacientes de uma maneira desnecessária fora do trabalho de parto”

O que os médicos não dizem também é que o índice de prematuridade das crianças que nascem de cesárea é muito maior do que as que nascem na hora certa (pode até ser de cesárea, mas depois de um trabalho de parto mostrar que o bebê está sim pronto para nascer).

Segundo a OMS, Organização Mundial da Saúde, em 2010, nasceram 15 milhões de crianças prematuras (abaixo de 37 semanas de gestação). O Brasil está na décima posição entre os países onde mais nascem prematuros.A prematuridade é a principal causa de morte de crianças no primeiro mês de vida, segundo dados do Ministério da Saúde (2011). Sabe qual a melhor forma de evitar prematuros? Não marcando cesárea. Deixando o corpo agir.

Agora, se a mulher souber disso tudo e alguém disser a ela que cordão enrolado no pescoço não é indicação de cesárea, que nem sempre mecônio é sinal de cesárea, que parto normal não precisa ser com dor e outras cositas mais… será que ela realmente “escolheria” a cesárea? (Dra. Melania Amorim dá 150 indicações fictícias usadas para se fazer uma cesárea e, de quebra, ainda conta em seu blog quais são os motivos reais para um procedimento como esse, dê uma olhada aqui.)

Dizer que temos que deixar a mulher decidir sua via de parto é lindo. Mas como isso é legítimo se o profissional de saúde dá um “mapa” errado para a mulher e ela se confunde e se amedronta no meio do percurso? Se acusado, o autor da façanha se defende: “Mas foi ela quem escolheu o caminho!” Mas…será que foi mesmo?

PS: Não te acho “menos mãe” porque você fez uma cesárea, tá? Vamos elevar o nível da discussão e nos unir por mais informações e por jogo limpo por parte da classe médica.

Leia também: “Os médicos não fazem mais parto normal nem em suas próprias esposas”, afirma uma das parteiras mais engajadas do Brasil

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