O anestesista disse que só viria me anestesiar durante o parto se eu fizesse uma cesárea, afirma a arquiteta Karine Possamai

“O anestesista disse que só viria me anestesiar durante o parto se eu fizesse uma cesárea”, afirma a arquiteta Karine Possamai

A arquiteta Karine Possamai, 29, queria que sua filha, Anaísa, 11 meses, nascesse em um parto normal. Por isso fez todo o pré-natal na cidade de Brusque, que fica a 200 km de São Francisco do Sul, onde mora.  A maternidade escolhida foi a do Hospital Evangélico de Brusque, que afirma fazer o tão famoso e sonhado parto humanizado. O “assunto” de uma série de troca de e-mails entre Karine e o hospital, inclusive, era exatamente esse: parto humanizado. Mesmo tendo convênio para cobrir as despesas do nascimento da filha, Karine ainda pagou 1850,00 a mais para garantir sua escolha: 1000 para o hospital, 500 pelo anestesista e 350,00 pelo pediatra, prática controversa e considerada abusiva pelo Idec, Instituto de Defesa do Consumidor. Chegou a perguntar por e-mail se o valor extra da anestesia poderia ser devolvido na alta, se o procedimento não fosse feito. “O valor do anestesista é cobrado de qualquer forma mesmo que não seja usado anestesia, é um valor acordado pois o anestesista fica de sobreaviso”, respondeu a tesouraria do hospital.

Assim que entrou em pródromos, fase com contrações irregulares que precede o trabalho de parto, Karine e o marido viajaram para Brusque e se hospedaram em um hotel. Foram para o hospital horas depois da chegada, às 23:30, assim que o trabalho de parto engrenou. Às 5:30 da manhã Karine pediu anestesia. “Eu implorei por analgesia. O obstetra saiu da sala dizendo que ia ligar para o anestesista, que estava em casa, de sobreaviso. O médico voltou minutos depois informando que o anestesista não iria me atender. Que só viria ao hospital se fosse para fazer uma cesárea, porque era um procedimento mais rápido”, lembra. “Eu e meu marido ficamos atônitos. Acabei aceitando a cesárea porque estava muito cansada”, conta. 

A corretora de imóveis Graziella Richther, 34, também cedeu. Chegou ao hospital que atendia o seu convênio em Santos, litoral de São Paulo, com contrações e ouviu que “parto normal é assim. Com dor”. Se quisesse anestesia, teria de fazer uma cesárea. Com medo, Graziella aceitou a mudança de planos.

“Condicionar a anestesia na gestante no momento do parto à mudança de parto normal para autorização de cirurgia cesariana é violência obstétrica porque influencia negativamente a mulher, tirando dela a possibilidade de decidir”, afirma Ana Lucia Keunecke, diretora-jurídica da ONG Artemis, que luta pelos direitos da mulher. “É como uma chantagem: se quer alívio pra sua dor, tem que fazer cirurgia. O mais grave ainda é que isso acontece num momento de extrema vulnerabilidade”, completa.

Karine e Graziella têm plano de saúde. Nátali Santos, 23 anos, não tinha e foi atendida pelo SUS na Santa Casa de Maringá, no Paraná. Também não conseguiu nenhum tipo de alívio para a dor durante o nascimento do caçula, Joaquim, 6 meses. “Quando eu pedi anestesia o médico me olhou com cara de deboche, cutucou a enfermeira e disse que não estávamos nos Estados Unidos e que eu estava assistindo demais a programas sobre parto na TV “, conta.

Segundo o o obstetra e anestesista Antônio Clarindo, especialista em anestesiologia e obstetrícia pela Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, “não se pode subestimar a dor do parto”. Para ele, dar acesso a anestesia e analgesia à mulher em trabalho de parto é uma forma de ajudá-la a tentar o parto normal. “Teríamos, com certeza, uma menor incidência de cesarianas caso formas de suportar a dor fossem oferecidas às gestantes”, afirma. O Brasil ostenta um dos maiores índices de cesarianas do mundo: 82% dos partos na rede privada e 52% na rede pública são cirúrgicos, enquanto a OMS preconiza que esse índice não seja maior que 15%. Clarindo encabeça um abaixo-assinado para que analgesia de parto seja um direito de todas as grávidas. Você pode ter acesso e participar dessa petição no link change.org/analgesia.

Em 2002, o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, em conjunto com a Sociedade Americana de Anestesiologistas, reafirmou sua posição de que o simples pedido da paciente seria indicação suficiente para anestesia ou analgesia durante o trabalho de parto e o parto, posição também defendida pelo Ministério da Saúde daqui.

Anestesia

Mas não é isso o que acontece. O vice-presidente da Febrasgo, Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, Dr. Olímpio Barbosa, afirma que existem hospitais onde não há anestesistas e nem mesmo obstetras de plantão. “A  ANS, Agência Nacional de Saúde Suplementar e o Governo Federal não poderiam admitir isso”, diz. Ele afirma ainda, que mesmo nos hospitais onde há plantonistas, estes são poucos e dão prioridade não a partos normais e sim a cesáreas e outros procedimentos de emergência. “A analgesia é um ‘plus’ no parto normal, mas deveria ser direito da mulher.”  Sobre o anestesista que estava de sobreaviso em casa e que condicionou sua ida ao hospital para anestesiar Karine à realização de uma cesárea, é enfático. “Se a gestante combinou com o hospital um parto humanizado com anestesista e o acordo não foi cumprido está errado. Você não pode combinar uma coisa e fazer outra. Você tem que ser ético”, afirma. Karine está processando o Hospital Evangélico de Brusque que, procurado, manifestou-se por meio de nota. “A cliente em questão foi atendida neste hospital, em procedimento que atendeu os padrões de qualidade técnica recomendados, todavia como de sua parte compreendeu que assim não fora, intentou ação judicial para tentar fazer prevalecer sua versão.”

Em São Paulo já há uma lei municipal e uma estadual que garantem o direito à anestesia durante o parto normal para alívio da dor. Um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional e de autoria do deputado federal Jean Wyllys. PSOL-RJ, se aprovado, garantirá a todas as mulheres do país o mesmo direito. O PL 7663-2014 ainda não tem data para ir à pauta de votação no Congresso.

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