MOm wars 2

Meu filho nunca deu trabalho, não é daquelas crianças que se jogam no chão e começam a espernear no supermercado, nunca respondeu atravessado e não me faz passar vergonha. Até um dia. Mais especificamente o dia em que era comemorado o ano novo chinês de 2015.

Eu, minha irmã e ele fomos à festa na Liberdade, centro de São Paulo. Pegamos metrô e não tínhamos noção da multidão que iríamos encontrar. Era surreal. Filhote no colo porque no chão seria pisoteado, filas impraticáveis para comer e uma criança que, em poucos minutos, ficou muito, muito estressada.

Conseguimos nos abrigar em uma daquelas inúmeras galerias do bairro para relaxar e em poucos minutos fugir dali. De repente, entramos em uma lojinha de cacarecos orientais e uma vendedora, muito simpática, disse que me conhecia da televisão, onde sempre trabalhei. Como um gatilho sacana que parece ser disparado apenas quando alguém conhece você, meu filho começou a chorar. Copiosamente. Ele tinha pedido à minha irmã, madrinha dele, que comprasse um videogame que estava exposto na prateleira da loja. Ela disse que que não, que a compra de um videogame não era uma decisão tomada assim de uma hora para outra. O choro histérico que até então nunca tinha acontecido é algo do qual nós, mães, nunca estamos livres. Nenhuma de nós. (Alerta de spoiler: você que ainda não é mãe e tem cer-te-za que isso não vai acontecer com você porque, imagina, você vai educar bem seu filho, fique esperta, acontece com todas nós.) Quando abaixei para conversar com meu filho e dizer que se ele queria tanto um videogame a gente ia se planejar e comprar em uma data especial ouvi a dona da loja comentar com minha irmã e para quem quisesse ouvir: Essas crianças de hoje são tão mimadas, né? Culpa das mães que dão tudo a elas e que não sabem dizer não.

Olhei com cara de ódio para a mulher, peguei meu filho no colo, já mais calmo, e saí de lá. Ela não me conhecia, nunca me viu na vida. Como podia julgar minha maternagem?De onde ela tirou que eu não sei falar “não” para o meu filho? Eu não tinha acabado de dizer um NÃO bem grande à compra do tal videogame?

Lembrei disso porque hoje li o desabafo de uma mãe cujo filho teve um ataque histérico em uma piscina de bolinhas de um shopping do Recife. O garoto tem TDO, Transtorno Opositor Desafiador, associado à paralisia cerebral. A mãe, contudo, não quer que o filho, que faz diversas terapias e toma remédios, deixe de interagir com o mundo ao seu redor. Na hora de sair do brinquedo o menino não quis e teve uma crise . “Ele berrava, esperneando no chão, enquanto as pessoas me olhavam com ar de reprovação. Esses não me incomodam. Já estou acostumada a esses olhares. Quando optei, lá no passado, de não privar meu filho da vida por conta das limitações dele, tive que aprender a conviver com os olhares e as críticas. Não é nada fácil ser mãe, trata-se de um diário salto no abismo do acerto e do erro”, contou.

A mãe levou o filho ao banheiro do shopping para tentar acalmá-lo. O que se sucedeu aí foi uma sequência lamentável de acontecimentos. As pessoas começaram a bater na porta do banheiro, mesmo ela pedindo para que deixassem ela tranquilizar o filho, que estava no meio de uma crise histérica.

“Vieram duas seguranças e me pediram para acompanhá-las. Quando sai do banheiro havia uma pequena multidão. Nos cercaram, a mim e ao meu filho. Me agrediram verbalmente, botaram dedos na minha cara, me acusando de estar espancando o menino. ‘Ele está cheio de hematomas’, um homem disse puxando o braço do me filho e tirando fotos minhas e dele. ‘Tire as mãos do meu filho, pare de fotografar ele, caso contrário eu processo você’, falei. Então o homem começou a me ofender, dizendo que eu não era mãe, dizendo que ele ficasse ‘tranquilo’ porque eu seria presa, e meu filho começou a chorar novamente, perguntando “minha mãe vai ser presa?”. A essa altura, minha mãe, uma senhora de 85 anos que esperava sentada na entrada do banheiro, veio ver o que era a confusão. E era comigo! Ela tentava explicar que os hematomas do menino são das quedas constantes. ‘Ele cai muito, faz parte do problema dele’, falava. Mas o homem – o mesmo das fotos – estava revoltado. Afirmava que ia postar fotos nas redes sociais me acusando de espancar o meu filho. Na hora o alertei que o uso indevido de imagem, bem como calúnia e difamação na internet, são crimes. E informei: “também vou fazer fotos suas, assim quando você postar as minhas terei como mandar a polícia atrás de você”. Foi aí que ele me ameaçou, disse que iria me bater. Peguei meu celular e comecei a fotografá-lo e quando viu que eu estava tirando fotos dele, desferiu um golpe. Não me acertou, mas ainda senti o ‘ventinho’. Tudo isso sob os olhares do meu filho especial de 7 anos e minha mãe, uma idosa de 85. Fui ao SAC, onde – orientada por minha amiga advogada – registrei uma ocorrência sobre o assunto. Fiquei lá por quase duas horas tentando me acalmar. Solicitei as imagens das câmeras de segurança, mas fui informada que apenas com ordem judicial. Durante as duas horas que fiquei chorando no SAC, me sentindo humilhada e impotente, lembrava da mulher que foi apedrejada até a morte no sul do País porque o ‘tribunal de rua’ achou que ela era uma suposta sequestradora de crianças. As pessoas hoje se acham detentoras da moral, da justiça e da comunicação – com seus celulares em punho e contas em redes sociais, julgando e condenando quem quer que passe pela frente.”

Antes apenas éramos julgadas em silêncio, no máximo ouvíamos cochichos de maledicência de vizinhos e conhecidos. Hoje, podemos ser apedrejadas em praça pública ou termos nossa imagem e intimidade devassadas e destruídas nas redes sociais. Foi o que quase aconteceu com essa mãe, que terminou assim seu desabafo:

“Estou contando isso aqui como um alerta, até para mim mesma. Não gosto de me expor e, muito menos, expor meu filho. Mas eu precisava fazer isso para dar esse toque mágico: não julgar. Não julgue. Não JULGUE. NÃO julgue. NÃO JULGUE!!!
Não sei o dano que isso vai deixar no meu filho. Na verdade ainda nem sei que dano vai deixar em mim. O que eu quero hoje é dormir tranquila, abraçada com ele, para que se sinta como sempre se sente comigo: protegido. Mas acho que hoje, e durante um bom tempo, ele é que vai fazer isso por mim. Vou me reconstruir no amor dele. Fé em Deus e bola pra frente.”

Em vez de julgar e fotografar (!?), coloque-se no lugar do outro. E se isso não for possível, ofereça ajuda. Não seria lindo que se em vez de dedos apontados alguém tivesse oferecido um copo de água ou abraço a essa mãe, por exemplo? Se alguém tivesse realmente se importado com tudo isso saberia que essa mulher tem vários empregos para poder oferecer todas as terapias que o filho precisa. Que se não fosse a dedicação dela, ele nunca teria saído da cama e estaria se divertindo em uma piscina de bolinhas.  Que o pai dele até paga pensão, mas não quer saber do menino.

Não julgue. Não julgue. Não julgue. Repita isso dez vezes por dia, todos os dias de sua vida.

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