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Eu até acredito que vocês entrem em boas faculdades, afinal estudam em colégios de classe média-alta, fazem aulas de inglês desde pequenos, estudam pelo método Kumon, vão duas vezes por semana nas aulas de reforço de Física e ao psicólogo, para segurar a pressão do vestibular.

Mas não. Vocês não vão dar certo assim não. Mesmo. Sem chance.

Não dá para apostar em quem nunca lavou a própria cueca ou calcinha na vida, nem que fosse no chuveiro, com sabonete. Em quem nunca arrumou a própria cama, guardou os tênis de volta ao guarda-roupa, baixou a tampa da privada ou raspou, no lixo, o prato com os restos de comida. Em quem nunca percebeu que a Maria, que trabalha há tantos anos em casa, “é quase da família” e faz tudo isso por você, deu certo na vida sim. Ela veio do nordeste com uma mão na frente e outra atrás, educou sozinha dois filhos que são trabalhadores e que não devem nada para ninguém. “São meninos de ouro”, sempre diz a Maria. Se você tivesse tido um tempinho para escutá-la, entre uma ordem ou outra, saberia do que estou falando. “Meninos de ouro”, trabalhadores, ótimos maridos, quem diria que eles iriam ser assim tão legais com sua família mesmo sem ter tido um pai para dar o exemplo? Nossa, a Maria deu certo na vida sim.

Não dá para apostar em quem não dá nem bom dia ao seu João, que passa as madrugadas na portaria, cuidando da segurança do prédio. Ele tem dois filhos pequenos e trabalha de madrugada porque durante o dia precisa cuidar das crianças. Sem vaga na creche perto de casa e com a esposa precisando trabalhar de dia, cabe a ele cuidar dos pequenos, da comida, da casa. Não, não, ele não escolheu o turno da noite porque é “vagabundo” e “quer moleza”. Ele tá sempre cansado, claro, quem não estaria com essa jornada dupla? Mas seu João vive sorrindo, acredita que a vida tem sido boa para ele, porque os filhos estão saudáveis, são inteligentes e amorosos. Ele acha que é sortudo, que a vida tem dado certo para ele sim.

Não dá para acreditar que ‘vá dar certo’ alguém que ache que os atendentes daquela famosa rede de fast food deram errado. O Pedro, por exemplo, trabalha em troca de menos de um salário mínimo no balcão da lanchonete porque quer ganhar o próprio dinheiro. Comprou o sapato da moda que tanto sonhou com o primeiro salário, ajudou a mãe e o pai e ainda sobrou um dinheirinho para uns livros da escola. Ele estuda à noite em um colégio público que tem lá seus problemas, mas é representante de classe, adora futebol e já está se preparando pro Enem. Não tem certeza se vai conseguir passar na faculdade, mas acha que tem futuro e pode virar ‘treinador’ da loja em pouco tempo. Sim, sim, Pedro acredita que está dando certo na vida. Eu não duvido dele não.

Quando o Instituição Evangélica de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, promoveu a festa do “Se nada der certo”, estimulando seus alunos a se fantasiarem de gari, porteiros, vendedores, caixas de supermercado e de outras profissões de exercidas por pessoas que, segundo a escola e seus alunos, “não deram certo”, dissemina-se preconceito de classe e muita desinformação. Mas, se isso não bastasse, ainda ensina aos alunos que só existe um jeito de “dar certo”: prestando vestibular, fazendo faculdade e escolhendo profissões com altas remunerações e, claro, muito prestígio. Se tiver prestígio e salário baixo, nada feito. Nunca esqueço do pânico de uma conhecida quando o filho contou que queria ser bombeiro, sim, isso porque a classe é respeitada e admirada em nossa sociedade, imagine se não fosse. Como um bombeiro “ganha pouco”, os pais fazem com que seus filhos abastados e de boa família deixem esse sonho de lado.

Claro que uma boa graduação ajuda, bons salários pagam as contas todas mas, prezados alunos: a vida não é assim, preto no branco. Diploma e salário polpudo, sozinhos, não trazem felicidade. Sim, felicidade. A escola deveria falar sobre a tal felicidade com vocês.

A regra número 1 do manual básico do “dar certo na vida” é: seja feliz. E pode ser longe dos bancos escolares, fazendo trabalho voluntário, não trabalhando, mochilando, cuidando dos filhos em tempo integral, fazendo bolo “pra fora”. Pode ser também no mundo corporativo, claro, em uma redação, agência de publicidade, hospital, escritório. Pode ser em profissões que “pagam menos”. Em profissões que “pagam mais”. Em profissões que pagam muito pouco, menos do que deveriam, como a de professor.

A segunda regra é: não menospreze ou faça piada de quem leva suas roupas íntimas, recolhe seu lixo, abre a porta para você entrar, fecha a porta assim que você sair. Seus pais e a escola deveriam ter te contado isso. “Dar certo na vida” é ser decente, respeitoso. Ainda estou admirada que uma escola cristã também não pense assim. E que, ao propor algo tão acintoso, não tenha lembrado que Jesus e José, seu pai, eram carpinteiros. Ou seja. Não “deram certo” na vida, se medidos pela régua de vocês.

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