Famílias com dois pais ou duas mães são cada vez mais comuns. Eu, por exemplo, conheço pelo menos meia dúzias delas. E a maioria das crianças que vivem nessas ‘novas famílias’ que de novas têm apenas a liberdade recém-conquistada de se mostrar assim ao mundo, é feliz por viver em um lar com amor, segurança e estabilidade emocional, mas não demora a perceber que a sociedade teima em não aceitar a orientação sexual de seus pais.

Algumas delas moraram em abrigos quando abandonadas por seus pais biológicos – a maioria deles casais heterossexuais, olha só. Mas essas crianças também não estão nem aí para a orientação sexual da mãe e do pai que as colocaram no mundo. Só lembram que em algum momento de um passado não tão distante não foram bem-vindas ou queridas, mas sim deixadas pelo caminho quando a miséria chegou ocupando todos os espaços.

Mas existem também meninos e meninas que compõem famílias onde “o segundo pai” ou a “segunda mãe” chegam para agregar e serem companheiros de um dos pais biológicos que, depois de uma separação, decide viver com alguém do mesmo sexo.

Quando o casamento do pai e da mãe de Naldo terminou, ele não ficou surpreso, afinal os dois viviam brigando. O espanto veio quando a mãe dele decidiu mudar de cidade depois da separação e tentou impedir que ele morasse com o pai. Naldo descobriu, assim, que o pai era gay e percebeu que a orientação sexual do homem que sempre cuidou dele com tanto amor provocava uma reação raivosa nas pessoas.

Esse é o enredo de Meus dois pais, livro do escritor, cronista, dramaturgo e roteirista Walcyr Carrasco. Escrito há mais de dez anos, o título ganha uma nova edição pela Editora Moderna e chega às livrarias com um visual totalmente repaginado pela ilustradora Ana Matsusaki. O que não mudou foi a proposta de Walcyr: colocar as escolhas individuais em debate, assim como a compreensão e aceitação de diferentes configurações familiares. O blog conversou com Walcyr sobre a publicação e como o respeito à diversidade pode ser aprendido em casa.

Walcyr Carrasco: arquivo pessoal

Blog: Esse livro foi escrito há mais de dez anos e é relançado em um momento crucial: quando se discute abertamente a tal “cura gay” e em um país que mais mata homossexuais no mundo. Esse “timing” é proposital ou apenas coincidência?

Walcyr: É uma coincidência porque o livro nunca deixou de ser editado, apenas o contrato com a outra editora acabou e passou para a (editora) Moderna. Mas durante todo esse tempo foi adotado por escolas de todo o país.

Blog: O que te motivou a escrever Meus dois pais?

Walcyr: A presença cada vez mais forte das novas famílias nas escolas. Acredito que o livro ajude o aluno a entender a família de um colega de classe e, esse colega, por sua vez, sinta-se menos excluído.

Blog: Por que escrever sobre homossexualidade para o público infantil?

Walcyr: O livro não é exatamente sobre homossexualidade, já que não trata de uma experiência homossexual em si. Mas falo sim da realidade que hoje muitas crianças vivem que é a de ter dois pais ou duas mães, inclusive no caso de adoções. O livro fala de amor, compreensão e convivência, e a criança de hoje convive com uma realidade onde os relacionamentos são expostos, inclusive porque a lei permite. É construtivo que ela descubra como lidar com isso, sem preconceito.

Ilustrações: Ana Matsusaki

Blog: Quando o ator Leonardo Vieira escreveu uma carta linda assumindo a própria homossexualidade você saiu em defesa dele. Também foi o primeiro autor que colocou um beijo gay em suas novelas. Acha que a militância tem de estar atenta e se posicionar sempre que possível?

Walcyr: Em um país onde ainda existem tantos preconceitos e tantas barreiras, é preciso estar atento, sim. Mas não só (com) a questão da homossexualidade em si, mas também do preconceito racial que se evidencia em várias ocasiões e no apoio às pessoas com necessidades especiais. Somos uma sociedade em construção.

Blog: Por que se falar sobre orientação sexual com as crianças? Eu, por exemplo, já toquei no assunto com meu filho de 7 anos e foi tudo muito simples – ele entendeu a mensagem e incorporou em seus conceitos que existem meninos que namoram meninos e meninas que namoram meninas, sem maiores dramas ou questionamentos.

Walcyr: Você tratou o assunto de maneira simples e natural e foi assim que seu filho viu. Nem todas as famílias são assim. Muitas pessoas, como mães e pais, têm que lidar com os próprios preconceitos. E ter um livro em mãos, que sirva como ponte para lidar com a questão pode ser muito construtivo.

Blog: Quais são os riscos, na sua opinião, de não conversar sobre esse assunto com os filhos?

Walcyr: O risco da criança “levar um susto” ao ter de lidar com uma situação (para ela) incompreensível. A lei permite, por exemplo, que um casal homossexual se beije na rua. Se a criança não estiver preparada e se deparar com essa situação, pode não saber lidar com a questão. Além disso, o que queremos? Educar para a formação de jovens e adultos sem preconceito, com uma visão agregadora e construtiva. O Brasil regista um número enorme de assassinatos de homossexuais. O que alguém pode desejar? Que o filho cresça saudável e sem preconceitos ou que mais tarde se torne violento, agressivo e acabe até cometendo uma violência por não saber lidar com a situação?

Blog: Qual a mensagem seu livro quer passar às crianças?

Walcyr: Mais do que tudo, quero falar do respeito ao outro. No livro, o filho aprende a respeitar e amar o pai e o companheiro do pai. Mas também aprende a lidar com os colegas que fazem bullying na escola. Espero que, ao ler o livro, as crianças de famílias mais “tradicionais” entendam melhor o mundo do outro.

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