Às vezes a gente tem que relembrar o óbvio. Meu útero é meu. Não seu, nobre deputado. Assim como minhas escolhas. São todinhas minhas.

O meu órgão reprodutor é laico e seu Deus, seja Ele qual for, não tem influência alguma por aqui. Não adianta estipular que a vida “começa no momento da fecundação” e que, por isso, sou obrigada a aceitar meu papel de mera incubadora de uma gravidez que não aceito ou desejo, por motivos diversos. Ou porque fui vítima de um estupro e não quero parir o filho do meu algoz. Ou porque essa gravidez coloca a minha própria vida em risco. Existem tantos os motivos para que uma mulher não deseje ser mãe que o nobre deputado não tem ideia. Sim. Não tem ideia porque é homem e nem se deu ao trabalho de nos ouvir antes de decidir um retrocesso na lei que nos leva de volta à década de 40 do século passado, bem longe da legalização do aborto até a 12a. semana de gestação, essa sim a pauta do momento. Se a PEC 181 passar pela Câmara, mulheres que engravidarem depois de violência sexual, aquelas que correm risco de vida devido à gestação ou que estão grávidas de bebês anencéfalos não poderão mais interromper a gestação, como garante a lei.

Mas estamos preocupados com a vida dos fetos! Ora, ora, e a vida das mulheres, vossa excelência? Segundo a OMS, a cada dois dias uma mulher morre no País vítima de aborto clandestino. São mulheres que decidiram não levar uma gravidez adiante e vão, independentemente da sua vontade e de sua crença, procurar formas para interromper essa gestação.  Atenção, spoiler: se tiverem dinheiro no bolso encontrarão clínicas seguras para interromper essa gravidez indesejada. Já as pobres correm risco de vida e, se não morrerem durante o procedimento, podem sofrer sequelas graves, serem denunciadas e até presas. Como um homem de Deus super preocupado com a vida humana, aposto que o senhor está chocado e alarmadíssimo, nobre deputado, porque já entendeu que estamos falando de um problema grave de saúde pública.

Por que o aborto tem que ser um direito de todas assegurado por lei? Porque somos pagadoras de impostos e temos direito à saúde pública universal. Não importa que o senhor ou seus colegas acreditem que interromper uma gravidez é pecado, ninguém perguntou se eu acreditava em Deus, Jeová, Buda ou Alá quando recolheu minha contribuição ainda na fonte. Eu tenho direito de ser bem atendida em hospitais públicos, com segurança, para interromper uma gestação que não quero levar adiante. Eu tenho direito sobre o meu corpo e ele se sobrepõe ao direito de algumas células que estão dentro do meu útero. Sim, estamos falando de direitos, não de religião. Esse país costumava ser laico, não?

“Até Maria foi consultada para ser mãe de Deus”, dizia o cartaz do movimento “Católicas pelo direito de decidir” em uma manifestação ontem, na avenida Paulista. Ser mãe tem de ser uma escolha. É difícil, mesmo tendo ajuda, mesmo com um companheiro para dividir as tarefas, imagina só. A empresa fica alarmada quando uma mulher aparece grávida. Uma pesquisa recente da Fundação Getúlio Vargas comprovou que 48% das mulheres são demitidas após o fim da licença maternidade. Traduzindo para o senhor: de cada duas de nós que engravidam, uma não terá emprego quando os 120 dias de licença terminarem. Considerando que existem mais de 5 milhões de crianças que não tem o nome do pai no registro, vossa excelência começa a conseguir imaginar que, às vezes, levar uma gravidez adiante pode não ser uma escolha fácil de ser feita.

Mas por que não fechou as pernas, então? (Consigo ouvir daqui de São Paulo o grito de um de seus colegas de bancada, cheio de macheza, machismo e uma pretensa razão). Gostaria de lembrar que sexo não é apenas para procriação, mas também para o prazer, e que embora existam métodos anticoncepcionais para mulheres e homens (sim!), eles não são 100% efetivos. Segundo a OMS, a Organização Mundial da Saúde, se todas as mulheres e homens (sim!) utilizassem contraceptivos, mesmo assim cerca de 10 milhões delas engravidariam por falhas dos próprios métodos. Pois é, pois é.

Fico imaginando que bom seria se toda essa energia e vontade de aprovar algo de forma tão rápida, armando um ‘Cavalo de Tróia’ em uma PEC que tinha como escopo apenas ampliar a licença maternidade para mães de prematuros, fossem usadas em favor das crianças que já nasceram, das mulheres que querem ser mães mas têm medo de serem descartadas pelo mercado de trabalho, dos homens que desejam ficar mais perto de seus filhos exercendo uma paternidade responsável. Seria um sonho. Seria pedir demais ter um Congresso realmente preocupado com o bem-estar e o futuro dos seus cidadãos, deixando Deus de fora disso? Ele nos deu o livre-arbítrio achando que assim Lhe deixaríamos em paz.

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