Mateus, 4, e a mãe, Cristiane. O menino não come nada sólido.

Mateus, 4, e a mãe, Cristiane. O menino não come nada sólido.

É comum uma criança não comer de vez em quando. Algumas adoram tomate, outras detestam cebola. Umas amam abobrinha, fazem careta para o brócolis e por aí vai. No fim das contas, acabam comendo um pouco daquilo que gostam e outro tanto do que os pais querem que comam. Mas Mateus, 4, filho da pedagoga Cristiane Quintanilha, 36, não come nada. Na-da. Detesta qualquer tipo de alimento. Não come arroz e feijão, macarrão, pão, verduras e legumes. Semana passada, o menino foi a uma festa infantil. Não colocou nada na boca, nem aquelas guloseimas hipercalóricas que são amadas pela garotada e geralmente liberadas nessas ocasiões. Chocolate, hambúrguer, balas, sorvetes, cachorro quente, tudo dá ânsia de vômito no menino. Ele também sente nojo do cheiro e da consistência da comida que vê os outros comerem. Não suporta nem ver a família se alimentar. Mas nem sempre foi assim, conta a mãe. O filho de Cristiane comeu de tudo até o primeiro ano de idade.

Mateus Quintanilha ainda está vivo e dentro do peso considerado normal graças às mamadeiras enriquecidas com suplementos hipercalóricos feitas pela mãe. Muitas vezes recusa até essa mistura de leite, banana e açúcar, mesmo estando com fome. E começa a passar mal. “Tem queda de pressão, começa a suar frio, tem dores de barriga”, conta a mãe. Chega da escola, pra onde só vai se a mãe prometer que não será obrigado a comer, dizendo que está “famento”. Cristiane explica, pacientemente, que o remédio para a fome é comida, pergunta se ele quer se alimentar, mas o menino pede apenas água: “Se beber água eu vou ficar cheio, mamãe, e não vou precisar comer.”  Em situações extremas, Cristiane leva o filho ao pronto-socorro para tomar soro. Semana passada Mateus ficou três dias sem se alimentar e foi para o hospital.

Cristiana afirma ter tentado de tudo. Procurou nutricionista, pediatra, otorrino, psicólogo. Ouve conselhos e diagnósticos aos montes. “Já falaram que eu devia deixá-lo sem comer, porque o instinto é animal e ele ia pedir comida”, conta. Não deu certo. E a gastrite do menino piorou. No pronto-socorro sempre leva bronca. O último médico que atendeu Mateus disse que a mãe não pode permitir que a dieta do menino seja exclusivamente líquida, que o esôfago dele “vai estreitar”. “Eu não sei mais o que fazer”, desabafa a mãe, que sempre leva o filho ao supermercado para que escolha alimentos. “Iogurtes ficam na geladeira até vencer”, conta. Também já convidou o filho para cozinhar com ela. Sem sucesso. “Ele diz: mamãe, vou comer daqui a cinco dias”, conta. Mateus é pequeno, não tem noção de tempo e coloca prazos que nunca cumpre ao perceber o desespero da mãe. Cristiane chegou a bater alimentos no liquidificador, colocar em uma seringa e pedir que o filho abrisse a boca, para tomar um remédio. “Ele percebeu que não era e começou a gritar: Eu não gosto de comida! Eu não gosto de comida!”, lembra. Recentemente uma psicóloga diagnosticou Mateus com um transtorno alimentar, provavelmente anorexia.

Mateus 5

 

O desespero de Cristiane fez com que a irmã, Camila Jaconi, tia de Mateus, fizesse um post no Facebook pedindo ajuda. “Nunca pensei recorrer a um meio de comunicação para solicitar ajuda, mas Mateus precisa comer, não sabemos o que fazer. Quero pedir a algum especialista que ajude Mateus, uma criança linda que não come”.  O post teve quase 3 mil compartilhamentos. Cristiane sente que nenhum dos profissionais que trataram do filho até agora acertou o caminho para que o problema seja resolvido. “Preciso descobrir qual transtorno alimentar ele tem. É mesmo anorexia? Preciso que alguém me ensine a cuidar do meu filho. Eu sinto que não tive até agora a orientação correta para agir com ele”, diz. “Meu medo é que ele desenvolva algo ainda pior”, completa.

Mateus 3

Cristiane resolveu vários e-mails de mães que passam por problemas parecidos, mas não tão graves quanto os dela. Muitos adultos que tiveram anorexia e já se curaram, reconheceram-se no pequeno Mateus. Ela espera, agora, receber o e-mail de algum médico ou psicólogo especialista em transtorno alimentar infantil, que realmente entenda o que ela está passando, que aponte caminhos. E que, principalmente, entenda que ela não tem culpa, pois já fez tudo o que estava ao seu alcance para que o filho se alimente e seja saudável.

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